Livro de estilo, pois sim

Julho 9, 2009

Segundo o Sol:

Agência Lusa ‘censura’ insultos a Sócrates

A agência Lusa retirou ontem da notícia sobre o protesto dos estivadores, realizado em frente à Assembleia da República, em Lisboa, as asneiras e palavras de ordem que incluíam insultos dirigidos ao primeiro-ministro, avança o Correio da Manhã

Nos insultos estavam frases como: «Sócrates, escuta, és um filho da p…», «O Sócrates não cumpriu, vai para a p… que o pariu», e «fascista», que foram retirados, pela agência Lusa, da notícia sobre o protesto dos estivadores, em frente à Assembleia da República, em Lisboa.

Segundo o Correio da Manhã, «o livro de estilo» e o «bom sendo» foram as justificações dadas pela agência noticiosa, após ter corrigido a primeira notícia, dada às 14h48, onde se reproduziam os insultos de duas centenas de estivadores ao primeiro-ministro.

Às 15h51, a Lusa emitia um segundo take, que corrigia o primeiro e ‘silenciava’ as palavras de ordem gritadas durante a manifestação.

Rui Baptista, editor da secção de política da Lusa, explicou que os insultos «contrariavam o livro de estilo e não acrescentavam nada à peça». «Em momentos de tensão às vezes erramos, e nós aqui trabalhamos ao segundo. Não houve nenhuma pressão exterior. Não há nenhum mistério nesta correcção», frisou.

É este o jornalismo de que precisamos? Soft, meigo, cuidadoso, cheio de pruridos e onde algumas palavras parecem  fazer cócegas? O «livro de estilo» para a recessão não foi publicado há tanto tempo assim.

Não era a notícia que devia ser clara, objectiva e reflectir de forma fiel a realidade? Se calhar enganaram-me na escola!


Vírus informáticos podem dar 10 anos de prisão

Julho 9, 2009

Foi noticiado que a difusão e produção de vírus informáticos pode dar dez anos de prisão. Tudo isto é muito vago. Seria importante conhecer a proposta de projecto de lei para perceber até onde ela pretende ir. Até no entendimento sobre o que é um vírus informático. Esta noção é hoje um conceito vago e muito abrangente que se sub-divide em diversas categorias muito diferentes entre si.

É preciso desmistificar a noção de vírus informático que, para o cidadão comum, é muitas vezes percebido de forma semelhante a um vírus humano. Um vírus não é mais do que um programa (software), tal como todos os outros que utilizamos. A diferença reside essencialmente no facto destes programas, para se propagarem, explorarem vulnerabilidades (falhas) dos sistemas instalados ou, algumas vezes, falhas e desatenções humanas.

A melhor protecção contra os vírus informáticos reside nos nossos comportamentos enquanto utilizadores de tecnologias. Se estivermos ao frio, provavelmente ficamos doentes. Do mesmo modo, se, por exemplo, utilizarmos pen-drives em computadores públicos que não controlamos e de seguida as ligarmos ao nosso computador, provavelmente o nosso computador será infectado por algum tipo de vírus.

Do mesmo modo, tal como se frequentarmos zonas críticas de uma cidade aumentamos o grau de insegurança, se frequentarmos sites e serviços críticos na Internet aumentamos a exposição a alguns tipos de ameaças digitais.

A melhor protecção está na informação e nos nossos comportamentos.

Mas voltando à proposta de lei. Se propagar [alguns] vírus deve ser penalizado, por ser claramente um crime, criar um vírus pode ser um exercício pedagógico desafiante e muito profícuo, sem qualquer inconveniente para o próprio ou para terceiros. Espero que a lei tenha isso em conta.


Lições de boa educação

Julho 9, 2009

Diz José Sócrates a propósito da manifestação de estivadores contra a Lei dos Portos:

Não é dever de um político dar lições de boa educação

Por mim, discordo. O primeiro ministro pode e deve dar lições – se tiver credibilidade para tal.

Há muitas maneiras de as dar. Talvez a mais importante seja pelo exemplo.

Mas com o histórico dele… outra posição não seria possível!


Felicidade

Julho 9, 2009

A felicidade é sermos felizes; não é fingirmos perante os outros que o somos

- Jules Renard


Da formação de professores – parte 2

Julho 8, 2009

Depois deste meu post a propósito da formação de professores, encontro aqui o relato de um outro problema muito comum, não apenas no domínio da filosofia.

Uma das necessidades que sinto como professor é a de formação na minha área científica. Ela é não só rara como obrigatória. Sou daqueles que de bom grado pagaria a formação se ela aparecesse. Como raramente aparece vou fazendo formação em áreas que pouco ou nada adiantam à minha prática lectiva e em quase nada me tornam melhor profissional. Esta semana quando me dirigi ao quadro de propostas de formação para este final de ano lectivo, a oferta era muito reduzida. Em filosofia nenhuma havia. Poucas ou nenhumas existiam em outras áreas científicas, como física, biologia ou história. A quase totalidade da oferta é em áreas de pedagogia romântica ou artes e ofícios (pintar azulejos, etc.) e em Educação Física (quase todas versando pouco em educação física propriamente dita, mas em pequenas actividades práticas). Mas vi duas que me despertaram a atenção. É certo que uma delas é destinada a professores de Educação Física, mas a outra (não me lembro bem qual das duas) é destinada a todos os docentes. Vale a pena observar os títulos e pensar um pouco o que raio vai fazer um professor de filosofia ou matemática a formações com os títulos que a seguir transcrevo:<

“Salto à corda, um salto para a saúde”
“Escalada – propostas de abordagem pedagógica no contexto escolar”

Confesso gostar especialmente da segunda. Deixa-me a pensar que o uma vez chegado o verão posso sempre inventar uma actividade como:

“Beber Cerveja na esplanada aqui ao lado: subsídios para a compreensão ôntico- epistemológico da circunstância metafísica do existir”

Ou então

“Introdução ao tremoço em contexto da docência centrada na bipolaridade ensino- aprendizagem”

Não sei que pensar. Aceitam-se sugestões.

O que pensar, pergunto eu também?


O equilíbrio das crianças

Julho 8, 2009

Não apenas porque usa muito e bem a palavra “equilíbrio”, mas também porque o futuro é delas – das crianças -, aqui fica um texto equilibrado de uma criança com futuro:

Senhoras e senhores,

Gostaria que soubessem aquilo que penso em relação ao estado do Planeta e aquilo que nós, os humanos, estamos a fazer ao planeta em que vivemos.

O Homem, ao longo de muitos séculos sempre afirmou ser o animal mais inteligente, um animal racional, mas, pelo que a humanidade tem demonstrado, o Homem deveria ser considerado o menos inteligente. Afirmo isto porque, apesar do Homem saber e de ter consciência dos seus actos, continua a fazer tudo como se nada fosse e sem pensar nas consequências.

As pessoas consomem cada vez mais, muitas vezes sem necessidade, quando afinal deveriam consumir apenas quando fosse necessário.

A humanidade já desequilibrou o ecossistema que é o mundo, agora, a única coisa que podíamos fazer, era tentar não o desequilibrar mais e esperar que a Natureza voltasse a equilibrá-lo. Mas para isso, era necessário que as pessoas abdicassem de muitos confortos e vantagens, que infelizmente não querem abdicar. Não estão dispostas a fazer esse sacrifício pelo Planeta Terra.

Estou a alertar todas as pessoas possíveis para que a situação não se agrave, mas infelizmente não é apenas uma pessoa que vai conseguir mudar a forma de viver nem de pensar das pessoas.

Existe um equilíbrio, que é como uma harmonia, muito frágil. Nesse equilíbrio tudo está ligado: todas as plantas, todos os animais, todos os lugares, e tudo o que acontece tem um significado. Mas quando o Homem descobriu o petróleo, as populações cresceram e foi preciso mais e mais petróleo, sempre mais. De maneira que as cidades cresceram e por isso, muitos habitats foram destruídos e com eles as suas espécies de animais e plantas, provocando assim a extinção de muitas. Foi a partir daí que o homem destruiu esse equilíbrio. Agora a Humanidade é dependente do petróleo, do ouro negro, o que se torna cada vez mais perigoso, causando assim o efeito bola de neve; ou seja, se continuarmos assim o problema irá continuar a agravar-se com consequências terríveis, que não conseguimos sequer imaginar.

Eu pergunto-me se será isto que queremos, se será este o nosso futuro! O nosso sistema não poderá funcionar durante muito mais tempo. Por isso vamo-nos juntar e deixar de atirar lixo para o chão, vamo-nos juntar e reciclar, vamo-nos juntar e comprar apenas o necessário, vamo-nos juntar e andar o menos possível de carro, utilizar transportes públicos e bicicletas, vamo-nos juntar e poupar água, vamo-nos juntar e mudar este sistema que é a nossa cultura consumista, vamo-nos juntar e proteger a nossa casa, o nosso Planeta!!!

Sara


Falácias comuns

Julho 8, 2009

“Há erros tão comuns que lhes deram nomes.  Seguem-se alguns deles.”

  1. Ambiguidade
  2. Apelo à autoridade
  3. Ad hominem
  4. Petição de princípio
  5. Falso dilema

Extraído de “Problemas da Filosofia”, James Rachels, Gradiva, Maio de 2009 (páginas 304 a 310).


Lógica

Julho 8, 2009
  1. Todos os políticos podem ser desonestos.
  2. Sócrates é político.
  3. Logo, Sócrates pode ser desonesto.

No comment

Julho 8, 2009

Só me apetece citar o uma rubrica do Euronews – No comment!

S_crates_cu_liga_o

Embora também me tenha recordado esta pose.

Encontrado por aqui.


Extinção das DREs?

Julho 5, 2009

Ontem, em conversa descontraída com familiares, defendi esta posição: a inutilidade das direcções regionais de educação.

Coincidência, leio agora um texto do Ramiro Marques, no blog ProfAvaliação, que defende precisamente isso.

E se as DREs fossem extintas?

Quando eu comecei a leccionar, no ano lectivo lectivo de 1974/75, não havia direcções regionais de educação. Durante muitos anos, os conselhos directivos relacionavam-se directamente com as estruturas centrais do Ministério da Educação. A autonomia pedagógica era muito grande. Respirava-se liberdade e criatividade nas escolas. O trabalho colaborativo era intenso. A amizade, a alegria e o entusiasmo reinavam nas escolas. E os alunos aprendiam. O currículo era mais curto, os períodos de pausa mais extensos, a carga horaria semanal dos alunos mais pequena. Os que dizem que, nessa altura, se ensinava pouco façam a prova dos nove: dêem os testes do final dos anos 70 aos alunos de agora e vejam as diferenças. Comparem os testes. Os testes eram bem mais difíceis. Os alunos aprendiam mais. Os professores amavam a profissão. Os pais respeitavam os professores. A violência na escola não existia. Estou a falar do final da década 70 e da primeira metade da década de 80. Quando o ME criou as estruturas regionais de controlo político e burocrático – as DREs -, tudo começou a complicar-se. As escolas e os professores foram inundados de burocracia, formalismos, instruções, regulamentos, exigências de planos disto e daquilo, relatórios assim e assado. O centralismo curricular e pedagógico cresceu ano após ano, atingindo a mais completa insanidade nos últimos quatro anos. Ensinar tornou-se, pouco a pouco, um suplício. A alegria deu lugar à tristeza. O entusiasmo à desmotivação. Os professores e as escolas não precisam de burocratas que os vigiem e atirem para cima deles exigências burocráticas que fazem perder tempo e não geram mais-valias. Deixem respirar as escolas. Livrem os professores da burocracia e dos burocratas.
A extinção das DREs impõe-se. Seria um alto serviço prestado às escolas. Os milhares de técnicos, psicólogos, juristas, sociólogos, administrativos, técnicos de informática e de documentação que enchem os gabinetes e os corredores das DREs seriam distribuídos pelas escolas. Passariam a estar ao serviço dos produtores. Deixariam de passar o tempo a chatear quem ensina.

O texto está muito bom e concordo com a substância. Não me importava de ter sido eu a escrevê-lo, com duas reservas:

  1. Acho que a “prova dos nove” apresentada é mesmo dos nove. Não é uma prova real. A realidade era diferente e os alunos de então não estavam sujeitos aos mesmos estímulos. Basta pensar na forma como se acedia à informação e à quantidade de informação disponível nos anos 70 em contraste com os dias de hoje;
  2. A segunda reserva prende-se com a integração dos funcionários das DREs nas escolas. Até poderia ser, mas apenas de forma criteriosa e analisando cada caso. Teria de ser feita numa perspectiva de utilidade para as escolas e para o serviço educativo, nunca como uma mera distribuição de lugares disponíveis.