Anorexia intelectual

Junho 26, 2010

Tenho isto bem presente:

  1. “A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, goza as autoridades e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Não se levantam quando um velho entra, respondem aos pais e são simplesmente maus.”
  2. “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje assumir o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.”
  3. “O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos já não ouvem os pais. O fim do mundo não deve estar longe.”
  4. “Essa juventude está estragada até ao mais profundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.”

A primeira frase é de Sócrates (470-399 a.C.),  a segunda de Hesíodo (720 a.C.), a terceira de um sacerdote do ano de 2000 a.C. e a quarta estava escrita numa vaso de argila descoberto nas ruínas de Babilônia (actual Bagdade) e tem mais de quatro mil anos.

Sou o primeiro a criticar generalizações e até conheço várias excepções à ideia que segue, mas não deixo de estar preocupado com a dimensão da amostra que confirma a constatação de Augusto Cury:

Não podemos esquecer que os professores de todo o mundo estão a adoecer colectivamente.
Os professores são cozinheiros do conhecimento, mas preparam o alimento para uma plateia sem apetite.
Qualquer mãe fica um pouco paranóica quando os seus filhos não se alimentam.
Como exigir saúde dos professores, se os seus alunos têm anorexia intelectual?

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Os professores são mesmo poderosos!!

Janeiro 30, 2010

Noticia o jornal i:

Se o aluno chumba o ano, a culpa é do professor; se o aluno desiste de estudar, a culpa também é do professor; e se o aluno falta às aulas, a culpa é outra vez do professor. O sucesso escolar de uma criança está sempre nas mãos do professor. Nem as origens socioeconómicas nem o contexto familiar servem de justificação – a culpa é sempre da escola, que não soube encontrar as estratégias certas para ensinar os seus alunos.

Esta é a convicção de Paul Pastorek, superintendente para a Educação no estado de Luisiana nos EUA. Mais do que uma crença é uma teoria que o responsável máximo pela educação em Luisiana diz poder comprovar com dados estatísticos (ver caixa).

(…)

Este senhor deve ser muito especial, ou então foi muito infeliz na forma como se expressou (mesmo se diz que o pode comprovar com dados estatísticos… e todos sabemos como a estatística pode ser mentirosa e manipuladora). Defender isto é semelhante a dizer que qualquer criança pode ser qualquer coisa, dependendo apenas dos pais; que qualquer trabalhador pode ser o melhor e desempenhar qualquer tarefa, dependendo apenas dos patrões; que qualquer cidadão pode ser um cidadão modelo, dependendo apenas dos políticos!?

A verdade é que o professor pode ter alguma influência, para o bem e para o mal, mesmo quando as condições socioeconómicas e/ou familiares são adversas. Mas alguma influência não significa que possa mudar a vida de um aluno, mesmo se falamos apenas da vida escolar.


Li-te-ra-ci-a

Dezembro 3, 2009

Noticia o JN que «Só um em cada cinco tem nível médio de literacia» (os destaques são meus).

Relatório aponta graves deficiências nas competências dos portugueses.

Somente um em cada cinco portugueses possui nível médio de literacia. O que causa prejuízos directos no potencial de desenvolvimento do país. As conclusões constam de um estudo apresentado na Gulbenkian.

Segundo o relatório realizado pela Data Angel, a pedido dos coordenadores do Plano Nacional de Leitura (PNL) e apresentado ontem na Gulbenkian, apenas um em cada cinco portugueses possui o nível médio de literacia. Na Suécia, a correspondência é de quatro em cada cinco suecos.

Literacia é a capacidade de ler e compreender o que se lê para resolver problemas concretos. Esta aptidão em Portugal, refere o relatório, é muito baixa. “Portugal apresenta os níveis mais baixos de competências de literacia de entre todos os países observados”, referiu o coordenador do projecto, Scott Murray.

“O conhecimento e as competências das pessoas, quando postos aos serviço da produção, são um forte motor do crescimento económico e do desenvolvimento social”. Mas, segundo os dados disponíveis para Portugal, a literacia tem no nosso país “um valor económico reduzido no mercado de trabalho”.

“Portugal tem de dedicar muito mais atenção à literacia. As análises do impacto da literacia no desempenho económico durante os últimos 50 anos deixam poucas dúvidas de que o país pagou um preço significativo por não ter aumentado a oferta de competências de literacia ao dispor da economia”, aponta o documento.

Por outro lado, continua o estudo, “a exigência em conhecimentos e em competências do mercado de trabalho é baixa, numa perspectiva comparada”, e o mercado laboral “não parece compensar as competências de literacia na medida esperada”. Os alunos portugueses “têm poucos incentivos para investir tempo e esforço no aumento do seu nível de literacia”.

Iniciativas como o Plano Nacional de Leitura ou as Novas Oportunidades são encorajadas, mas Murray sustentou que “são insuficientes”.

Convidado a comentar o relatório, o economista João salgueiro contrariou a defesa de mais investimento em Educação. “Se há indicador em que não estamos mal é no volume de recursos que dedicamos à Educação e temos dos piores resultados no desempenho”. A causa “está no funcionamento do sistema de Educação e no sistema económico”.

A ministra da Educação, Isabel Alçada, apelou para que “toda a sociedade se mobilize para que a melhor oferta de qualificações corresponda a um reconhecimento da parte do tecido empresarial”.

Infelizmente, nada disto surpreende. Fossem outros os níveis de literacia e as notícias seriam “lidas” de outra forma pelos portugueses – seriam compreendidas e os resultados estariam à vista. Não teríamos alguns dos políticos que temos, não seriam valorizados alguns dos empresários que o são, teríamos menos carros estacionados em cima do passeio ou em segunda fila, enfim, haveria uma compreensão das regras e das leis e uma vigilância natural sobre os espertos que não são iletrados mas que se aproveitam dos que são. Utopia?


Ensinar programação a todos

Outubro 5, 2009

Lia eu este artigo, com o título Why we should teach programming to all students, e fiquei a reflectir sobre algumas ideias apresentadas: que as ferramentas de que dispomos para as tecnologias actuais estão, ainda, num estado Neandertal; que há muito pouca gente com a formação adequada para construir software, e que de momento (talvez ainda durante décadas ou mesmo séculos), a construção de software passa essencialmente pela programação.

Com base nestas ideias, é defendido que a programação deve ser tratada pelo sistema de ensino como uma competência ao nível da matemática ou das ciências.

São ideias que já me tinham ocorrido antes, embora ainda não as tenha aprofundado o suficiente e não considero que tal possa ser feito, nem aqui, nem pelo post a que me refiro. Ainda assim, é um assunto que merece séria e aprofundada discussão. Basta pensarmos na omnipresença (ubiquidade em alguns casos) das tecnologias da informação e da comunicação e na cada vez maior dependência humana do softwareDe entre os muitos exemplos, talvez as profissões especializadas ou técnicas sejam o melhor. São cada vez mais as aplicações de software que incluem linguagens de programação e/ou de scripting embebidas, o que possibilita a expansão dessas ferramentas para fins não previstos na altura do seu desenvolvimento.

Exemplo disso são os processadores de texto ou as folhas de cálculo, software conhecido e utilizado por quase todos, como o Word e o Excel da Microsoft. Ambas recorrem a uma linguagem de programação integrada: o VBA – Visual Basic for Applications. Apesar das limitações, esta linguagem permite criar novos programas dentro do próprio programa. Com o conhecimento e a formação adequados, abrir-se-ia um novo horizonte de possibilidades para os utilizadores que, já hoje, somos todos nós.


Reforços mais credíveis

Setembro 11, 2009

Acerca da Gripe A, mas não só, pois estas medidas deveriam ser prática comum nas escolas, fico mais optimista com esta notícia do Correio da Manhã:

Escolas gastam seis milhões contra a gripe

As medidas de prevenção e o combate ao vírus H1N1 nas escolas portuguesas vão custar ao Ministério da Educação, este ano lectivo, cerca de seis milhões de euros.
Fonte do Gabinete de Gestão Financeira do Ministério disse ao CM que as previsões apontam para um gasto médio de 4 mil euros por cada um dos cerca de 1200 agrupamentos de escolas.
Aos 4,8 milhões gastos em kits de prevenção para as salas de aula, gel antibacteriano, desinfectante, pulverizadores, máscaras e luvas, deve somar-se 1,2 milhões em obras de adaptação, acções de formação e trabalho suplementar. É que, além de as casas de banho das escolas terem de passar a ser limpas pelo menos quatro vezes por dia, em todos os intervalos terão de ser desinfectados os corrimões e os puxadores das portas.

Há muito que isto era necessário, até pelos efeitos pedagógicos que tem.

Resta esperar para ver.


Reforços

Setembro 10, 2009

A propósito deste post no blogue Fliscorno:

Ao que apurei, cada escola vai receber

Ora eu estou escandalizado pois os valores deviam ser ao contrário. 500 € mal dá para os croquetes e a gripe A, dê por onde der, todos a apanharemos.

Sabendo que o orçamento das escolas será reforçado entre 600 € e 2000 € para a gripe A, tomemos como referência o valor máximo – 2000 €.

Num cálculo rápido, se considerarmos apenas os dias previstos com actividades lectivas (172 dias), ficamos com menos de 12 € por dia. Já se considerarmos os dias úteis de 11 meses (239 dias), ficamos com pouco mais de 8 € por dia. Será que chega para desinfectar as mãos de, digamos, mil alunos por escola todos os dias?


PTE dispara custos de energia

Setembro 8, 2009

Que o acréscimo significativo de equipamentos tecnológicos nas escolas (aquelas que têm essa sorte) aumenta consideravelmente o consumo de energia, não é novidade. Já o ouvi de elementos da Parque Escolar e de empresas prestadoras de serviços. A Escola Secundária Serafim Leite confirma-o:

A direcção da Escola Secundária Serafim Leite, pioneira a completar o primeiro eixo do Plano Tecnológico da Educação (PTE), defende que o programa é de uma “eficácia extrema”, mas alerta para o aumento dos custos com energia.

Irene Guimarães, directora da escola, afirma que “a opinião geral, tanto de professores como de alunos, é a de que a utilização dos equipamentos instalados, nomeadamente os quadros interactivos e os computadores presentes nas salas de aula, foi uma mais-valia para o processo de ensino e aprendizagem“. Mas “se a nível pedagógico a implementação do PTE se revelou de uma eficácia extrema”, observa essa responsável, “já a nível da gestão de todo o sistema apareceram algumas situações que é necessário ter em conta no futuro”.

O caso mais evidente é o “acréscimo nos custos de utilização” dos novos equipamentos: “Havendo um videoprojector em cada sala e, em alturas de pico de horário, cerca de 400 computadores ligados em simultâneo, o consumo de energia eléctrica aumentou consideravelmente“.

Por outro lado, Irene Guimarães diz que “o aumento do número de utilizadores [dos novos recursos tecnológicos da escola] fez com que a manutenção dos equipamentos se tornasse mais lenta, visto que o número de solicitações também aumentou”. Apesar disso, a directora da Escola Secundária Serafim Leite garante: “Para a gestão pedagógica das turmas, a implementação de aplicações informáticas de registo das actividades veio facilitar o trabalho dos professores, em particular daqueles que exerceram a Directoria de Turma”.

No que se refere aos novos recursos no âmbito da segurança, como o sistema de videovigilância e os cartões electrónicos para identificação dos alunos e pagamento de despesas internas, Irene Guimarães também realça “a diminuição de casos de pequenos furtos, [uma vez que] a utilização do cartão magnético fez com que a circulação de dinheiro no interior da escola fosse reduzida”.

Para o novo ano lectivo, a principal recomendação da directora da Serafim Leite prende-se com os Centros de Formação: “Continua a ser urgente que ofereçam formação aos professores para o desenvolvimento de conteúdos a serem utilizados nos quadros interactivos, para que se possa explorar ao máximo as capacidades dos equipamentos”.

No ano lectivo de 2008/2009, a Escola Secundária Serafim Leite – a par da escola André Gouveia, em Évora – foi a primeira a concluir a fase inicial do Plano Tecnológico da Educação. Recebeu para o efeito um investimento de meio milhão de euros, parte do qual foi aplicada em equipamento tecnológico para as 44 salas de aulas da escola: 20 dessas salas passaram a ter quadros interactivos e 24 receberam videoprojectores.

Em cada uma dessas 44 salas há computadores com acesso à Internet – inclusive através de comunicação por voz (VoIP) – e também nos espaços exteriores é possível aceder à Web, uma vez que todo o recinto da escola é servido por uma rede sem fios.

O PTE permitiu também equipar a escola com um sistema de videovigilância de 16 câmaras e atribuir a cada aluno um cartão electrónico que funciona não só como meio de identificação, mas também como forma de pagamento na cantina, na reprografia e no bar. Para o ano lectivo de 2009/2010, que começa a 10 de Setembro, inscreveram-se até agora nesta escola 748 alunos nas aulas diurnas e 133 nas da noite.

Nada disto surpreende. Convenhamos que o PTE tem muitas coisas boas, só não percebo por que não se lembraram de instalar equipamentos de energias renováveis nas escolas. Sempre poupavam na factura da energia e estava bem integrado no Plano Tecnológico.

Será que o programa de painéis solares não é bom para as escolas?

Os logos das parcerias bancárias no “fundo da página” dão uma pista. Esta notícia dá outras!