Um só mundo

“Um só mundo” é o título do livro cuja leitura estou a iniciar. Peter Singer, o autor, é conhecido e reconhecido como um dos mais importantes filósofos morais do planeta. Com uma obra vasta, é de leitura incotornável para quem se preocupa com a moral e com a ética em tempo de globalização.

Para mim, este livro significa, em grande parte, a confirmação do modo como o mundo e a humanidade deveriam ser encarados. Todas as construções que levam à guerra ou a outras formas de sofrimento humano baseiam-se numa divisão artificial, que para o caso, diferenças geográficas, políticas, linguísticas ou outras à parte, chamamos país, pátria ou estado-nação. É com base neste(s) conceito(s), artificial e transitório (que muitos, entre políticos e cidadãos, se convenceram ser natural e definitivo), que se justificam as maiores injustiças e atentados à humanidade e ao planeta.

Ao ler este livro sinto-me em casa. Para abrir o apetite à leitura…

Segundo alguns pontos de vista da nacionalidade, pertencer à mesma pátria é como ser de uma espécie de versão alargada da mesma família. (pág. 228)

No século v antes da era cristã, o filósofo chinês Mozi, horrorizado com a devastação provocada pela guerra no seu tempo, perguntou: «Qual é a via para o amor universal e o benefício mútuo?» E respondeu à sua própria pergunta: «É considerar os países dos outros como o nosso próprio país.» Diz-se que o antigo iconoclasta grego Diógenes, quando lhe perguntaram de que país era oriundo, afirmou: «Sou um cidadão do mundo.» No final do século XX, John Lennon cantou que não é difícil «Imaginar que não há países […]/Imaginar que todas as pessoas/Partilham todo o mundo». (pág. 263).

Como é bom sonhar e ter utopias.

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6 Responses to Um só mundo

  1. Sónia diz:

    Sorrio ao pensar que ainda ontem estive a discutir o conceito de pátria.
    Não me revejo nele e na maior parte dos casos sinto como muito perigosa a associação, a se assiste a partir do século XVIII, deste conceito ao conceito de língua.
    Simultaneamente, adiro emocional e ideologicamente a reivindicações de autodeterminação, muitas deles de cunho independentista e patriótico.

  2. António Joaquim De Albuquerque diz:

    Apetece-me, a propósito de Peter Singer – leitura quase obrigatória para quem se preocupa com estas temática, e especificamente sobre esta obra, lembrar o seguinte: Pergunta o sargento ao soldado 1522: “O que é a pátria?” tendo sido esclarecido pelo sargento face à sua incapacidade de resposta “É a tua mãe!”. A mesma pergunta foi feita ao soldado seguinte, ao que este este respondeu lesto: “É a mãe do 1522”! Abraço cordial. António

  3. A Rodrigues diz:

    Discordo totalmente com a teoria de que a guerra tem origem na divisão das sociedades em países.
    O conceito de pátria tal como o vejo é o conjunto de características comuns a um povo que definem a sua identidade. A cultura, a língua, os costumes, a história e a partilha de vivências.
    A guerra, tal como a vejo, não tem origem nem nessas características nem nesse povo. A guerra é criada por algumas personagens que se representam a si mesmas e não ao povo. A guerra, tal como prova a história, tem origem essencialmente na ambição de poder e na defesa de ideologias cegas mas interesseiras. E numa escala mais pequena na incompreensão das outras culturas (pátrias).
    A Sónia tocou num ponto sensível. A autodeterminação. O que é a autodeterminação senão a busca dessa mesma identidade a que chamamos pátria? E que mal tem a autodeterminação? Que mal tem termos uma cultura própria? Que mal tem termos uma língua que não é apenas um meio de comunicação mas uma forma diferente de expressarmos os nossos sentimentos?
    O conceito de cidadão do mundo não me convence. Porque depois temos de considerar os outros mundos.
    O que me convence sim é o respeito por cada ser por muito diferente que seja.

  4. João Sá diz:

    A guerra pode não ter origem na divisão das sociedades em países, mas é essa divisão que na maior parte das vezes a valida, fomenta ou mantém.
    Olha para as duas grandes guerras e vê o que esteve na origem delas… se não foi sempre uma questão de territórios, fronteiras, ou mesmo limites (p.j.).

    A identidade dos povos é algo muito valioso e importante, mas só tem razão de existir e ser defendida se for tolerante, se souber conviver em paz com outras identidades e diferenças.

    O conceito de cidadão do mundo não é para convencer ninguém, é para ser compreendido. Por isso, não poderá ser visto à luz de conceitos velhos. “Cidadão do mundo”, tal como o vejo, é alguém que sabe o seu lugar no mundo e no cosmos. É alguém que tem noção do seu potencial, das suas limitações, das suas semelhanças e das suas diferenças ao próximo. É alguém que não escolhe fundar a vida em mentiras ou meias verdades (entre elas as fronteiras – países e outras – que são confortos identitários, do mesmo modo que algumas religiões defendem dogmas que muitos seguem pelo conforto que proporcionam mas que são puras ilusões – devemos falar também de guerras religiosas?)

  5. João Leal diz:

    Parece-me muito bom o livro.
    E serão utopias?

    (…)
    Imagine todas as pessoas
    Vivendo a vida em paz…
    (…)
    Imagine todas as pessoas
    Compartilhando o mundo todo.

    Você talvez diga que sou um sonhador,
    Mas eu não o único.
    Eu espero que algum dia você junte-se a nós,
    E o mundo viverá como um único.

    John Lennon

  6. João Sá diz:

    António Gedeão diz no poema que o sonho comanda a vida. Muitos outros poetas e músicos transmitem esta ideia. Muitos seres humanos a praticaram e praticam no seu dia-a-dia. O sonho é utopia. A vida só tem interesse e sentido se for vivida com sonhos e com utopias.
    Muitas das utopias de outros tempos são hoje realidade. Porque não haveremos de sonhar o futuro? Será melhor viver apenas, sublinho apenas, o presente e ignorar o futuro? Mas o futuro é o que estamos a construir hoje…

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