Alienez

Abril 5, 2011

Esta alienação de lucidez
é tão lucidamente alienante
que marca com rigidez
tudo o que for estruturante.


O fascínio da tecnologia

Março 1, 2011

Após algum tempo de hibernação sem por aqui escrever, eis que a vontade de (re)equilibrar vence a inércia e a atenção dispersa. Não é que desta prosa resulte algum valor revolucionário ou sequer revelador. Bem, pelo menos é contestatário. É por isso que escrevo: para vincar o que me parece evidente, embora insistentemente ignorado.

Há palavras que me assolam com frequência. Ilusão é uma dessas privilegiadas, ou não vivêssemos todos – sem excepção – em permanente ilusão!? Bem, talvez existam excepções – quem consiga viver em permanente iluminação ou nirvana! Vivemos iludidos, do princípio ao fim. Porque não assumir e aceitar esta evidente ilusão? Por mim, gosto de assumir as ilusões que consistentemente se me apresentam credíveis. Esta é apenas uma delas.

Modas. Também são ilusões. Cada época tem as suas. Nesta, a tecnologia é a moda. Vivemos numa época de fascínio pela tecnologia. Convencemos e deixamo-nos convencer que a tecnologia é salvadora, que resolve todos os problemas, que agora é que é… ou vai ser… Engano. E-n-g-a-n-o. A tecnologia não muda nada. Não muda nada de substancial. Mas a tecnologia é impressionante. É poderosa. É (ou pode ser) catalisadora. Facilita. Torna mais rápido e mais fácil. Em alguns casos, torna possível. Eu gosto de tecnologia(s). Mas não nos deixemos fascinar por ela(s). Não mudarão nada [de relevante] se nós não mudarmos primeiro.


Hibernação

Setembro 4, 2010

Se a única constante da vida é a mudança, este blogue também mudou. É por causa dessa mudança que vai hibernar. Não vai desaparecer, nem ser desactivado, mas dado o decréscimo de actualizações dos últimos tempos, cheguei à conclusão que a centralidade que ele teve durante algum tempo nas minhas discussões e divagações, numa parte importante do meu equilíbrio portanto, foi-se transferindo gradualmente para o facebook. É natural que o acorde para publicação de um texto mais longo ou por qualquer outro impulso. Como estou perto e activo, quem estiver interessado encontra-me aqui.


Mulheres, revoltem-se

Julho 28, 2010

Mulheres, revoltem-se. Homens, revoltem-se também. Revoltem-se todas as pessoas contra as injustiças e discriminação.

Num documento divulgado recentemente, o Vaticano colocou ao mesmo nível a pedofilia e a ordenação de mulheres. Vindo de uma instituição com a importância e o peso da igreja católica, considero esta decisão torpe como uma das mais discriminatórias a que assisti nos últimos tempos. Anos de luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, assistimos agora, uma década após o início do século XXI, a um adensar da discriminação entre géneros patrocinada por aqueles que deveriam ser os maiores defensores da justiça, da paz e da igualdade.

Opções como esta, só as consigo entender como uma forma desesperada de manutenção de um poder perverso e mesquinho.

Não há paciência.

Talvez a melhor forma de revolta seja não fazer nada, mesmo nada. O desgaste e o descrédito que, estou certo, decisões como estas provocarão na igreja, farão o seu caminho.


Um só mundo

Julho 22, 2010

“Um só mundo” é o título do livro cuja leitura estou a iniciar. Peter Singer, o autor, é conhecido e reconhecido como um dos mais importantes filósofos morais do planeta. Com uma obra vasta, é de leitura incotornável para quem se preocupa com a moral e com a ética em tempo de globalização.

Para mim, este livro significa, em grande parte, a confirmação do modo como o mundo e a humanidade deveriam ser encarados. Todas as construções que levam à guerra ou a outras formas de sofrimento humano baseiam-se numa divisão artificial, que para o caso, diferenças geográficas, políticas, linguísticas ou outras à parte, chamamos país, pátria ou estado-nação. É com base neste(s) conceito(s), artificial e transitório (que muitos, entre políticos e cidadãos, se convenceram ser natural e definitivo), que se justificam as maiores injustiças e atentados à humanidade e ao planeta.

Ao ler este livro sinto-me em casa. Para abrir o apetite à leitura…

Segundo alguns pontos de vista da nacionalidade, pertencer à mesma pátria é como ser de uma espécie de versão alargada da mesma família. (pág. 228)

No século v antes da era cristã, o filósofo chinês Mozi, horrorizado com a devastação provocada pela guerra no seu tempo, perguntou: «Qual é a via para o amor universal e o benefício mútuo?» E respondeu à sua própria pergunta: «É considerar os países dos outros como o nosso próprio país.» Diz-se que o antigo iconoclasta grego Diógenes, quando lhe perguntaram de que país era oriundo, afirmou: «Sou um cidadão do mundo.» No final do século XX, John Lennon cantou que não é difícil «Imaginar que não há países […]/Imaginar que todas as pessoas/Partilham todo o mundo». (pág. 263).

Como é bom sonhar e ter utopias.


Anorexia intelectual

Junho 26, 2010

Tenho isto bem presente:

  1. “A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, goza as autoridades e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Não se levantam quando um velho entra, respondem aos pais e são simplesmente maus.”
  2. “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje assumir o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.”
  3. “O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos já não ouvem os pais. O fim do mundo não deve estar longe.”
  4. “Essa juventude está estragada até ao mais profundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.”

A primeira frase é de Sócrates (470-399 a.C.),  a segunda de Hesíodo (720 a.C.), a terceira de um sacerdote do ano de 2000 a.C. e a quarta estava escrita numa vaso de argila descoberto nas ruínas de Babilônia (actual Bagdade) e tem mais de quatro mil anos.

Sou o primeiro a criticar generalizações e até conheço várias excepções à ideia que segue, mas não deixo de estar preocupado com a dimensão da amostra que confirma a constatação de Augusto Cury:

Não podemos esquecer que os professores de todo o mundo estão a adoecer colectivamente.
Os professores são cozinheiros do conhecimento, mas preparam o alimento para uma plateia sem apetite.
Qualquer mãe fica um pouco paranóica quando os seus filhos não se alimentam.
Como exigir saúde dos professores, se os seus alunos têm anorexia intelectual?


O blogue está vivo

Junho 22, 2010

Desde que criei este blogue (chamava-lhe habitualmente blog), não me lembro de um intervalo tão longo entre publicações (chamava-lhes posts). Ainda lhe chamo blog, ainda chamo posts aos artigos, textos ou publicações que aqui escrevo. Não mudei de perspectiva, não mudei de linguagem e não perdi ou adquiri qualquer tipo de preconceito em relação a estes termos. Também não lhe chamo mudança, se a consideramos numa lógica de troca, inversão ou permuta. Mas posso chamar-lhe “mudança” se, antes, a entendermos como transformação, evolução ou crescimento.

Foi nesse processo de construção permanente que este blogue entrou. Foi, é, e penso continuar a ser um tijolo importante na construção do [meu] ser. Mas o tempo dele mudou. Mudou porque as coisas simples, pequenas e menos tecnológicas se têm sabido impor. Um desenho infantil, como este que ilustra o post, é tão importante como uma reflexão metafísica, é mais importante que o grande jogo ou acontecimento de que todos falam mas que é feito esquecer pelo próximo, ainda maior, ainda mais luminoso, ainda mais alto, ainda mais caro, ainda, ainda, ainda, nada. Mas o desenho infantil precisa de tempo, precisa de investimento, precisa de mim, inteiro.

Tudo é tão absoluto quanto relativo consegue ser. É por isso que escolho o desenho feito por e com uma criança, as bolas de sabão que se partilham: as que sobem até perder de vista, as que rebentam na nossa mão, as que salpicam os olhos, as que não conseguimos fazer, as que não fizemos… e vamos fazer, agora.