Especialistas e especialidades [da economia]

Dezembro 4, 2009

Ao longo das últimas décadas, temos vindo a ser dominados pelo poder económico. Tudo se lhe submete, inclusive o poder político. O mercado é que manda – essa entidade divina e inquestionável. A actual crise veio pôr a nu todas as fragilidades e incertezas que os especialistas nos têm servido, digo imposto, como certezas absolutas.

Apesar de muitos já o terem dito, nunca é de mais lembrar que foram esses os especialistas que nos trouxeram até à actual crise. São esses especialistas que, no caso de Portugal, nos trazem presentes como a maior dívida pública (a nível internacional o cenário não é muito diferente):

Pela primeira vez, este ano a dívida do Estado e das empresas públicas à banca e em títulos  ultrapassa a  riqueza produzida no País. (…)

A dívida do Estado, incluindo as empresas públicas, deverá este ano atingir 113,3% do produto interno bruto (PIB), contra 93% do PIB em 2008.

(…)

São também esses especialistas, com as suas especialidades, agora a nível europeu, que nos querem continuar a dizer o que é ou não normal:

Apesar de ontem o presidente do Banco Central Europeu (BCE) não ter dado uma indicação clara de quando irá proceder a uma subida da sua taxa de juros de referência, um dado é certo: as taxas Euribor vão começar a subir antes.

(…)

Esta é a opinião de Filipe Garcia, economista da consultora financeira IMF. “Acredito que o ciclo de quedas das taxas interbancárias tenha já terminado. E é expectável que até ao final do primeiro trimestre de 2010 haja uma progressiva convergência entre as Euribor e as taxas Refi, para valores normais. Porque a situação a que assistimos actualmente não é normal“, assegura o especialista. As expectativas do mercado apontam para um agravamento da prestação da casa de quase dez euros até Março.

(…)

Não deixa de ser interessante observar, embora claramente antagónico, que apesar de os economistas falarem sempre na base de crenças, gostem de nos impor as certezas e a sapiência do que nos vai acontecer no futuro se não seguirmos as suas lógicas especializadas.


Défice ou deficit?

Outubro 14, 2009

Onde é que já vai o objectivo dos [famosos] 3%?

Diz o Correio da Manhã que o défice pode chegar aos 9,2%. Alguns economistas falam mesmo num défice de 10%.

Por que será que [alguns] políticos não falam [agora] dele? Têm outra desculpa para tudo o que fazem e para o que não fazem – a crise. O importante é ter desculpas. Quando esta acabar, volta-se ao défice.

A propósito, convém recordar este vídeo com menos de 1 ano.


Títulos de jornal

Junho 30, 2009

Sobre a recente intervenção do ministro das finanças, Teixeira dos Santos, a propósito da crise, diz o Público:

Teixeira dos Santos: “A crise aproxima-se do fim”

E diz o Correio da Manhã:

Ministro decreta fim da crise

Sobre as declarações de Teixeira dos Santos, não adianta dizer muito. Já sabemos quais são os objectivos propagandísticos do governo, apesar de estarmos mais habituados às gafes de Manuel Pinho, como quando anunciou o fim da crise quando ela estava a começar.

O que me interessa comentar é o título do Correio da Manhã, já que o o Público, neste caso, é isento e reflecte apenas o que disse Teixeira dos Santos.

Ora, sem rodeios, o Correio da Manhã informa os seus leitores que “Ministro” (um ministro, não diz qual – saberemos no corpo da notícia) decreta (“ordena por decreto” é o que vem no dicionário e, afinal, é o que os ministros fazem) o fim da crise (a crise acabou. Não há mais, pronto!).

Será que podemos confiar nestas notícias?


Mobi E

Junho 30, 2009

Esta, sim, parece ser uma boa medida – o projecto do consórcio Mobi E para carros eléctricos. Digo parece, porque apesar dos princípios e dos aparentes contornos do projecto parecerem claros, realistas, inovadores e um contributo significativo para a mudança nos hábitos de transporte e, consequentemente, no consumo de combustíveis fósseis, as trapalhadas nos projectos em que o governo tem estado envolvido são tantas que fico sempre à espera de alguma história mal contada. Esta parece bem contada. Só espero que não seja por terem aprendido a contar histórias melhor.

Não é má vontade, é apenas conhecimento prático da fábula do “Pedro e o lobo”.


Manifesto/a[c]ções

Junho 29, 2009

Depois do manifesto «O investimento público não faz milagres», assinado por 28 economistas:

Tem sido por demais reconhecido que Portugal vive uma profunda crise. Face à sua capacidade de gerar riqueza, a economia tem um excesso de despesa, quer ao nível das finanças públicas, quer ao nível da sociedade em geral. Tais excessos estão traduzidos, nomeadamente, nos persistentes défices das contas do Estado e das contas externas do País. Por outro lado, é notória a perda de capacidade competitiva da economia portuguesa, tal como dão conta o défice externo, o crescimento medíocre dos últimos cinco anos (e perspectivas para os próximos) e o crescente desemprego.

Este preocupante cenário requer uma urgente e dedicada concentração de esforços visando apropriadas medidas de contenção orçamental (com uma estrita selectividade das despesas públicas), de incentivo económico a favor dos sectores produtores de bens transaccionáveis, de promoção da eficiência económica (nomeadamente através da redução das ineficiências geradas pelo próprio Estado) e de uma moderação da despesa colectiva. Mas face a tal cenário parece ter emergido uma corrente de pensamento que acredita que a superação da crise pode estar no investimento em obras públicas, sobretudo se envolvendo grandiosos projectos convenientemente apelidados de estruturantes.

Porque a situação é séria e o País não pode, sem pesados custos, embarcar em mais experiências fantasistas, importa dizer, de forma muito clara, que essa ideia é errada e a sua eventual concretização poderá ser desastrosa para o País. O investimento público pode ter virtudes e pode ser um importante elemento estimulador do desenvolvimento. Mas não é, nas presentes circunstâncias da economia e das finanças públicas, o caso do investimento físico, sobretudo se dirigido a obras cujo mérito não tenha sequer sido devidamente demonstrado por estudos publicamente divulgados, credíveis e contraditáveis.

Primeiro, porque, numa situação de excesso de despesa, mais investimento em obras públicas irá favorecer sobretudo as economias de onde importamos, sem efeito sensível na capacidade produtiva da economia portuguesa, agravando o défice externo (pois só há financiamento parcial de fundos comunitários). Segundo, porque o tipo de emprego mobilizado pela construção pouco efeito terá na absorção do desemprego fabril gerado pela perda de competitividade da nossa indústria e mobilizará sobretudo a imigração. Terceiro, porque tais investimentos irão agravar ainda mais o desequilíbrio das contas públicas, seja pela despesa directa, seja pelos custos de exploração futura, seja, como aconteceu nas SCUTS, pelas inevitáveis garantias para assegurar a mobilização do sector privado. Pelo menos! Por fim, porque os portugueses não poderão compreender que lhes estejam a ser pedidos sacrifícios com impacto no seu nível de vida, quando o Estado se dispõe a gastar dinheiro em projectos sem comprovada rendibilidade económica e social.

Porque o momento é grave; porque continuar com tergiversações à volta do essencial (onde se inclui a reforma do próprio Estado), apenas ajudará o País a afundar-se numa senda de definhamento; e porque é altura de a própria sociedade civil se deixar dos brandos costumes do conformismo e dizer o que tem que ser dito; os signatários entendem dar este seu contributo à reflexão da sociedade e dos poderes políticos.

Tem sido por demais reconhecido que Portugal vive uma profunda crise. Face à sua capacidade de gerar riqueza, a economia tem um excesso de despesa, quer ao nível das finanças públicas, quer ao nível da sociedade em geral. Tais excessos estão traduzidos, nomeadamente, nos persistentes défices das contas do Estado e das contas externas do País. Por outro lado, é notória a perda de capacidade competitiva da economia portuguesa, tal como dão conta o défice externo, o crescimento medíocre dos últimos cinco anos (e perspectivas para os próximos) e o crescente desemprego.
Este preocupante cenário requer uma urgente e dedicada concentração de esforços visando apropriadas medidas de contenção orçamental (com uma estrita selectividade das despesas públicas), de incentivo económico a favor dos sectores produtores de bens transaccionáveis, de promoção da eficiência económica (nomeadamente através da redução das ineficiências geradas pelo próprio Estado) e de uma moderação da despesa colectiva. Mas face a tal cenário parece ter emergido uma corrente de pensamento que acredita que a superação da crise pode estar no investimento em obras públicas, sobretudo se envolvendo grandiosos projectos convenientemente apelidados de estruturantes.
Porque a situação é séria e o País não pode, sem pesados custos, embarcar em mais experiências fantasistas, importa dizer, de forma muito clara, que essa ideia é errada e a sua eventual concretização poderá ser desastrosa para o País. O investimento público pode ter virtudes e pode ser um importante elemento estimulador do desenvolvimento. Mas não é, nas presentes circunstâncias da economia e das finanças públicas, o caso do investimento físico, sobretudo se dirigido a obras cujo mérito não tenha sequer sido devidamente demonstrado por estudos publicamente divulgados, credíveis e contraditáveis.
Primeiro, porque, numa situação de excesso de despesa, mais investimento em obras públicas irá favorecer sobretudo as economias de onde importamos, sem efeito sensível na capacidade produtiva da economia portuguesa, agravando o défice externo (pois só há financiamento parcial de fundos comunitários). Segundo, porque o tipo de emprego mobilizado pela construção pouco efeito terá na absorção do desemprego fabril gerado pela perda de competitividade da nossa indústria e mobilizará sobretudo a imigração. Terceiro, porque tais investimentos irão agravar ainda mais o desequilíbrio das contas públicas, seja pela despesa directa, seja pelos custos de exploração futura, seja, como aconteceu nas SCUTS, pelas inevitáveis garantias para assegurar a mobilização do sector privado. Pelo menos! Por fim, porque os portugueses não poderão compreender que lhes estejam a ser pedidos sacrifícios com impacto no seu nível de vida, quando o Estado se dispõe a gastar dinheiro em projectos sem comprovada rendibilidade económica e social.

Porque o momento é grave; porque continuar com tergiversações à volta do essencial (onde se inclui a reforma do próprio Estado), apenas ajudará o País a afundar-se numa senda de definhamento; e porque é altura de a própria sociedade civil se deixar dos brandos costumes do conformismo e dizer o que tem que ser dito; os signatários entendem dar este seu contributo à reflexão da sociedade e dos poderes políticos.

Surgiu o manifesto «O debate deve ser centrado em prioridades:só com emprego se pode reconstruir a economia», assinado por um outro grupo de académicos:

Estamos a atravessar uma das mais severas crises económicas globais de sempre. Na sua origem está uma combinação letal de desigualdades, de especulação financeira, de mercados mal regulados e de escassa capacidade política. A contracção da procura é agora geral e o que parece racional para cada agente económico privado – como seja adiar investimentos porque o futuro é incerto, ou dificultar o acesso ao crédito, porque a confiança escasseia – tende a gerar um resultado global desastroso.

É por isso imprescindível definir claramente as prioridades. Em Portugal, como aliás por toda a Europa e por todo o mundo, o combate ao desemprego tem de ser o objectivo central da política económica. Uma taxa de desemprego de 10% é o sinal de uma economia falhada, que custa a Portugal cerca de 21 mil milhões de euros por ano – a capacidade de produção que é desperdiçada, mais a despesa em custos de protecção social. Em cada ano, perde-se assim mais do que o total das despesas previstas para todas as grandes obras públicas nos próximos quinze anos. O desemprego é o problema. Esquecer esta dimensão é obscurecer o essencial e subestimar gravemente os riscos de uma crise social dramática.

A crise global exige responsabilidade a todos os que intervêm na esfera pública. Assim, respondemos a esta ameaça de deflação e de depressão propondo um vigoroso estímulo contracíclico, coordenado à escala europeia e global, que só pode partir dos poderes públicos. Recusamos qualquer política de facilidade ou qualquer repetição dos erros anteriores. É necessária uma nova política económica e financeira.

Nesse sentido, para além da intervenção reguladora no sistema financeiro, a estratégia pública mais eficaz assenta numa política orçamental que assuma o papel positivo da despesa e sobretudo do investimento, única forma de garantir que a procura é dinamizada e que os impactos sociais desfavoráveis da crise são minimizados. Os recursos públicos devem ser prioritariamente canalizados para projectos com impactos favoráveis no emprego, no ambiente e no reforço da coesão territorial e social: reabilitação do parque habitacional, expansão da utilização de energias renováveis, modernização da rede eléctrica, projectos de investimento em infra-estruturas de transporte úteis, com destaque para a rede ferroviária, investimentos na protecção social que combatam a pobreza e que promovam a melhoria dos serviços públicos essenciais como saúde, justiça e educação.

Desta forma, os recursos públicos servirão não só para contrariar a quebra conjuntural da procura privada, mas também abrirão um caminho para o futuro: melhores infra-estruturas e capacidades humanas, um território mais coeso e competitivo, capaz de suportar iniciativas inovadoras na área da produção de bens transaccionáveis.

Dizemo-lo com clareza porque sabemos que as dúvidas, pertinentes ou não, acerca de alguns grandes projectos podem ser instrumentalizadas para defender que o investimento público nunca é mais do que um fardo incomportável que irá recair sobre as gerações vindouras. Trata-se naturalmente de uma opinião contestável e que reflecte uma escolha político-ideológica que ganharia em ser assumida como tal, em vez de se apresentar como uma sobranceira visão definitiva, destinada a impor à sociedade uma noção unilateral e pretensamente científica.

Ao contrário dos que pretendem limitar as opções, e em nome do direito ao debate e à expressão do contraditório, parece-nos claro que as economias não podem sair espontaneamente da crise sem causar devastação económica e sofrimento social evitáveis e um lastro negativo de destruição das capacidades humanas, por via do desemprego e da fragmentação social. Consideramos que é precisamente em nome das gerações vindouras que temos de exigir um esforço internacional para sair da crise e desenvolver uma política de pleno emprego. Uma economia e uma sociedade estagnadas não serão, certamente, fonte de oportunidades futuras.

A pretexto dos desequilíbrios externos da economia portuguesa, dizem-nos que devemos esperar que a retoma venha de fora através de um aumento da procura dirigida às exportações. Propõe-se assim uma atitude passiva que corre o risco de se generalizar entre os governos, prolongando o colapso em curso das relações económicas internacionais, e mantendo em todo o caso a posição periférica da economia portuguesa.

Ora, é preciso não esquecer que as exportações de uns são sempre importações de outros. Por isso, temos de pensar sobre os nossos problemas no quadro europeu e global onde nos inserimos. A competitividade futura da economia portuguesa depende também da adopção, pelo menos à escala europeia, de mecanismos de correcção dos desequilíbrios comerciais sistemáticos de que temos sido vítimas.

Julgamos que não é possível neste momento enfrentar os problemas da economia portuguesa sem dar prioridade à resposta às dinâmicas recessivas de destruição de emprego. Esta intervenção, que passa pelo investimento público económica e socialmente útil, tem de se inscrever num movimento mais vasto de mudança das estruturas económicas que geraram a actual crise. Para isso, é indispensável uma nova abordagem da restrição orçamental europeia que seja contracíclica e que promova a convergência regional.

O governo português deve então exigir uma resposta muito mais coordenada por parte da União Europeia e dar mostras de disponibilidade para participar no esforço colectivo. Isto vale tanto para as políticas destinadas a debelar a crise como para o esforço de regulação dos fluxos económicos que é imprescindível para que ela não se repita. Precisamos de mais Europa e menos passividade no combate à crise.

Por isso, como cidadãos de diversas sensibilidades, apelamos à opinião pública para que seja exigente na escolha de respostas a esta recessão, para evitar que o sofrimento social se prolongue.

O debate faz-se, por exemplo entre José Manuel Fernandes (director do Público) e Jorge Bateira (do blog Ladrões de Bicicletas).

Apesar do confronto, algumas vezes desnecessário, vale a pena ler os argumentos. Precisamos deste(s) debate(s). Precisamos de manifestos, de manifestações, e, acima de tudo, de acções. Aguardam-se.


Reembolso do IRS

Junho 17, 2009

Estou estupefacto!

Quando contava receber o reembolso do IRS apenas em Setembro, como tem sido habitual em anos anteriores, deparo-me com ele, hoje, dia 17 de Junho.


A liberdade na escolha da tecnologia…

Junho 16, 2009

…parece que deixou de ser um direito dos funcionários da Microsoft.

Diz uma notícia do JN:

Microsoft proíbe aparelhos da concorrência aos funcionários

A Microsoft proibiu o uso de telemóveis da concorrência como o iPhone ou Blackberry entre os seus funcionários, obrigando-os a usar apenas aparelhos que tenham o sistema operativo Windows.

(…)

A esposa de Bil Gates, proprietário da Microsoft, disse já publicamente que o marido não permite o uso de iPod ou iPhone aos seus filhos, por serem equipamentos da Apple, sua concorrente.