O Diário de Notícias e os seus títulos

Maio 6, 2010

O Diário de Notícias, de modo muito parecido com o Jornal de Notícias, é um jornal que me diverte. A piada nem sempre é evidente, nem tão pouco gratuita. Lesse eu mais vezes este(s) jornal/jornais e a base de dados seria maior.

De vez em quando acabo por registá-las. É o caso deste título que não se percebe.

Hoje foi outro título, mas também o conteúdo, a propósito do roubo de ontem, levado a cabo pelo deputado Ricardo Rodrigues.

Não vale a pena explorar os favores e o alinhamento bem conhecido do DN.

Ignoremos o conteúdo da notícia e a ausência de qualquer referência a “PS” ou a “Partido Socialista”. Vejamos o título «Deputado fica com gravadores de jornalistas». Atente-se também no verbo: ficar; o deputado “fica com”. O deputado não rouba, não furta, não subtrai, não surripia, não gama. O deputado, repito, “fica com”.

Como gosto de imaginar e dar asas à criatividade, ponho-me a pensar sobre qual seria o título se o deputado fosse de outro partido. Ocorrem-me algumas hipóteses:

– Deputado do BE furta gravadores

– Roubo cometido por deputado do PCP

– Deputado do PSD  subtrai gravadores de jornalistas

– Vice-presidente da bancada do CDS apropria-se de gravadores

O que se pode (não) fazer só com um título de jornal…


A realidade supera a ficção

Fevereiro 21, 2010

A ser verificada a veracidade do que é noticiado pelo DN, subimos mais um degrau na já bem alta escadaria até ao salto para o abismo político e judicial que se tem vindo a percorrer por cá.

O título não só é forte, mas gravíssimo, ainda mais tratando-se de uma figura como o Procurador Geral da República.

PGR mentiu ao Parlamento

Pinto Monteiro recusou ao PSD despacho, alegando que continha escutas de Sócrates. Mas estas não constam.

Durante os últimos meses, o procurador-geral da República recusou (até ao grupo parlamentar do PSD) o acesso aos despacho de arquivamento ao crime de atentado contra o Estado de d ireito, alegando que os documentos continham escutas entre Armando Vara e José Sócrates, mandadas destruir pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento. E, caso as revelasse, estaria a violar a decisão de destruição. Porém, num dos despachos em causa, a que o DN teve acesso, em lado algum aparecem as conversas entre Sócrates e Vara.

E, já agora, comparemos e encontremos as diferenças [abissais] entre o que se tem passado por cá, onde todos os mecanismos de vitimização, subjectivação e desinscrição do real (citando o filósofo José Gil), são explorados até à exaustão, com o que se passou ontem na Holanda, em que o primeiro ministro se demite com a assunção, democraticamente elevada, de que deixou de haver confiança entre as partes da coligação, deixando assim, também, de haver condições para trabalhar em conjunto. Valores políticos e democráticos como estes fazem falta por cá. Da declaração do primeiro ministro holandês, destaco ainda:

A government’s survival can never be an end in itself.


O texto que Mário Crespo distribuiu aos deputados

Fevereiro 17, 2010

Texto (ou imagem!?) daqui.


Nojo

Fevereiro 12, 2010

Nojo, é das poucas palavras que me ocorrem dizer sobre o que se tem passado à volta do processo Face Oculta.

As formas de censura atingem formas impensáveis num estado de direito [que se quer] livre e democrático. Felizmente, o jornal Sol tem gente de coragem.

Amanhã, comprar o Sol é um acto cívico, de e pela liberdade.


Sócrates é uma ameaça à liberdade

Fevereiro 5, 2010

No Expresso, por Henrique Raposo:

Sócrates é uma ameaça à liberdade

O “caso Mário Crespo” é apenas o último episódio de uma longa lista de factos que comprova uma coisa: José Sócrates é um político intolerante, que não sabe lidar com a liberdade.

Esta lista foi feita de memória. Uma outra pesquisa, mais apurada, será capaz de apanhar mais factos. Mas estes, por enquanto, chegam:

1. Se a memória não me falha, José Sócrates já processou nove jornalistas. Nove. Isto dá quase uma média de dois por cada ano de governação. Com estas acções judiciais, José Sócrates pretende intimidar toda a classe jornalística, forçando as pessoas que escrevem a fazer uma auto-censura permanente.

2. José Sócrates liga para as redacções e berra com jornalistas .

3. Muitos assessores, e até ministros, ligam para as redacções para berrar com jornalistas. Há dois ou três anos, Silva Pereira telefonou a Mário Crespo. Se não me engano, Crespo disse que a discussão com Silva Pereira não foi menos feia do que a célebre discussão com Valentim Loureiro.

4. No trato com os jornalistas, José Sócrates é constantemente mal-educado. A forma como tratou Judite de Sousa é inacreditável .

5. José Sócrates nunca responde a perguntas. Nem perante os jornalistas, nem perante os deputados. Ou seja, temos um primeiro-ministro que, de facto, nunca foi realmente entrevistado em mais de cinco anos de poder.

6. Numa famosa reunião entre José Sócrates e blogueres, a ligação em directo caiu. Nunca saberemos por que razão a ligação caiu. Mas sabemos que, antes de entrar na dita reunião, José Sócrates deu uma introdução filosófica sobre a “liberdade respeitosa”. Salazar, na tumba, aplaudiu.

7. revista “Sábado” fez este estudo . Elucidativo.

8. José António Saraiva fez estas declarações. Nada aconteceu.

9. O desaparecimento do telejornal de Manuela Moura Guedes. Vamos dar de barato uma coisa: OK, Sócrates não teve nada que ver com o desaparecimento desse telejornal; uma estação de televisão teve apenas um colapso da inteligência e destruiu um dos seus programas mais famosos. Mesmo assim, há várias coisas inadmissíveis neste caso. Pela primeira vez na história da nossa democracia, um político transformou uma jornalista no seu principal adversário político. O PS, de forma “chavista”, montou uma guerra a Manuela Moura Guedes. Depois, já com o JN6 encerrado, José Sócrates ainda jogou umas piadinhas sobre o assunto. Essas piadinhas, que revelam toda uma personagem política pouco recomendável, estão gravadas num vídeo que apanhou os minutos de conversa entre José Sócrates, Francisco Louçã e Judite de Sousa (antes da entrevista na RTP). Esse vídeo esteve disponível aqui neste site.

10. José Sócrates montou guerra ao director do jornal “Público”, José Manuel Fernandes.


A censura como modus-operandi de alguns

Fevereiro 1, 2010

Porque ao menor sinal de alarme [no que toca à censura] acho que ela se deve combater. Porque este não é um sinal “menor”. Porque qualquer atentado à liberdade mexe comigo. Por isso e por muitas outras coisas que daqui se deduzem, faço eco do artigo de Mário Crespo censurado pelo Jornal de Notícias sobre um caso igualmente grave.

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”.

Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicado hoje (1/2/2010) na imprensa.

Mais informação sobre o caso pode ser encontrada nestes artigos:

A propósito desta última desculpa [do governo], por curiosidade fui procurar o significado de “calhandrice”. Ignorância a minha, mas também do dicionário, pois fiquei na mesma. Será que é um termo de alguma novilíngua?

Mas a consulta ao dicionário não foi em vão. “Calhandros” é uma «espécie de bacio grande, onde se despejam os bacios pequenos». Interessante!

“Calhandra” diz respeito ao «nome vulgar extensivo a uns pássaros, da família dos Alaudídeos, também conhecidos por calandra, cochicho, cotovia, laverca, carreirola». Menos interessante, mas aumenta a cultura!

Tudo isto é fado, a censura é que não.


O que é preciso é… conter salários

Fevereiro 1, 2010

Um texto rigorosíssimo:

Responsabilidade e rigor técnico
Ou: Pronto, Leva Lá a Bicicleta

Quem me conhece sabe que eu sou um bocado obtuso, teimoso e difícil de ensinar; mas mesmo com estas deficiências todas seria impossível ouvir tanto tempo os nossos políticos a dizer a mesma coisa, com o aval entusiástico dos líderes das confederações patronais, dos jornalistas de negócios e dos economistas do regime, sem acabar por lhes reconhecer razão.

Então é assim:

Se há perigo de inflação, é preciso conter os salários.

Se há perigo de deflação, é preciso conter os salários.

Se a crise é económica, é preciso conter os salários.

Se a crise é financeira, é preciso conter os salários.

Se não estamos em crise, é preciso aproveitar para melhorar a competitividade – e portanto conter os salários.

Se o défice das contas do Estado está alto, é preciso conter os salários.

Se o défice das contas do Estado está baixo, é preciso não entrar em euforia – e conter os salários, claro está.

Se o desemprego está alto, é preciso encorajar as empresas a empregar mais gente – o que só se consegue contendo os salários.

Se o desemprego está baixo, os salários tendem a subir – e portanto contê-los é mais necessário que nunca.

Finalmente percebi. Não vale a pena perguntar em que circunstâncias é que os salários podem aumentar: a resposta politicamente responsável e tecnicamente rigorosa é que não podem aumentar em circunstâncias nenhumas.