Existe outro Portugal?

verdade-mentira-300x283Recebi este artigo por email:

Obama should look to Portugal on how to fix schools

(…)

To show the way, I suggest the president take a look at a modest country across the Atlantic that’s turning into the world leader in rethinking education for the 21st century.

That country is Portugal. Its economy in early 2005 was sagging, and it was running out of the usual economic fixes. It also scored some of the lowest educational achievement results in western Europe.

(…)

So Portugal launched the biggest program in the world to equip every child in the country with a laptop and access to the web and the world of collaborative learning.

(…)

Yet Portugal has been careful to invest in teacher training to capitalize on the possibilities of the laptops in schools.

(…)

Yet Portugal is on a campaign to reinvent learning for the 21st century. The technology is only one part of that campaign. The real work is creating a new model of learning.

(…)

Por que razão, eu, que até ensino (digo, facilito aprendizagens – ensinar é verbo proibido) tecnologias, vejo uma realidade bem diferente nas escolas que conheço?

Será que existe outro Portugal geograficamente semelhante e que até tem um primeiro-ministro com o mesmo nome do nosso?

Ou viverei numa dimensão paralela da realidade?

(Actualização)

Saía eu daqui, para uma visita a um dos meus blogs favoritos – A Educação do meu Umbigo -, e decidi voltar! Parece que o Público noticiou este artigo e que o Paulo Guinote fez [mais] uma análise certeira.

15 respostas a Existe outro Portugal?

  1. Sónia Duarte diz:

    Se tivesses publicado isto no dia um de Abril, era uma risota…

  2. A Rodrigues diz:

    “Ou viverei numa dimensão paralela da realidade?”

    Parece que em determinados momentos vives.
    Porque apenas ressalvaste o que te interessa. O que dizes acerca de outros excertos que omitiste?

    “That’s only the start: […]”

    “It’s not easy to change the model of teaching. In fact, this is the hard part. It’s far easier to spend money, as Portugal did, to put Internet into the classroom and equip the kids with laptops. […]”

    “It’s too early to assess the impact on learning in Portuguese schools. Studies of the impact of computers in schools elsewhere have been inconclusive, or mixed. One key problem is that simply providing computers in schools is not enough. […]”

    Mas a parte realmente interessante é esta:

    “The impact on the classroom is tremendous, as I saw this spring when I toured a classroom of seven-year-olds in a public school in Lisbon.”

    O autor depois parte numa descrição pormenorizada da forma como a aula funcionou. Vale realmente a pena ler a descrição.

    Este exemplo não reflecte, na minha opinião, a realidade nacional (ainda). Mas é um exemplo do objectivo do programa e de como é possível fazer dele um sucesso.
    Portanto os profissionais (professores) deveriam fazer um esforço por abraçar o projecto em vez de continuamente marchar contra ele.

  3. João Sá diz:

    Se te interessa o tema, lê com atenção o post no blog Educação do meu Umbigo e vê o vídeo que publiquei num post anterior. Repara, em particular, naquela parte em que o ADF diz “apesar de…”.

    As frases que destaquei (não omiti nada) – utilizei referências e citei de acordo com as regras – reflectem o espírito global do texto.
    Quanto às que incluis aqui:
    – as primeiras, são verdades de la Palice. Até ficaria mal não o dizer;
    – a parque onde dizes ser “realmente interessante”, parte de um único exemplo, não representativo e que não faço ideia em que contexto foi visto. Terão sido alunos previamente contratados e/ou formados para o efeito? Não me surpreenderia se assim fosse, até porque não seria a primeira vez!

    Em jeito de balanço, e de mudança de perspectiva, consideras, então, que alguém que visite o teu trabalho durante umas horas e fique com uma “impressão geral” – seja de um momento feliz ou infeliz -, fala com mais conhecimento de causa que tu que conheces a realidade de perto e a vives todos os dias.
    Algo parecido acontece neste artigo e noutros…

  4. A Rodrigues diz:

    O que tu insinuas é que não acreditas que existam escolas que são um bom exemplo, ou que funcionem bem ou que possam ser excepção.
    Surpreende-me uma vez que estás sempre a alertar que não devemos generalizar.

    Por outro lado deixa-me reverter a tua questão e perguntar-te se pelo facto de conheceres uma certa realidade significa que conheces todas as escolas do País.

    Eu disse claramente que, na minha opinião, o exemplo não reflecte a realidade nacional. Mas acredito plenamente que existam escolas onde as coisas funcionam. Aliás não é a primeira vez que são noticiados exemplos de escolas com modelos de funcionamento diferentes.

    Esses casos de sucesso, por muito poucos que sejam, só são possíveis com uma atitude optimista e construtiva por parte dos profissionais que a compõem.

    O caso noticiado até pode ser uma impressão enviesada do autor sobre a realidade daquela escola, ou até mesmo uma encenação. Mas o que o autor enunciou não deixa de ser um exemplo daquilo que deveria ser em todas as escolas.

  5. João Sá diz:

    Não isinuo nada disso. Claro que há bons exemplos. Só que um bom exemplo não faz a realidade. Se eu tiver 2 galinhas e tu tiveres 0, em média temos 1 cada um…

    Generalização (muito abusiva) é pegar num exemplo (que muito provavelmente nem é real) e dizer que o sistema de ensino “é assim” ou “vai ser”. Foi o caso.

    Quanto à ironia da generalização, acho que não vale a pena “bater mais no ceguinho”. Já discutimos várias vezes esse assunto e pensava termos chegado a um entendimento quanto a isso.

    Respondendo à tua questão, não conheço todas as escolas do país (nem ninguém conhece) mas conheço algumas. Para além disso, tenho-me como uma pessoa atenta, informada e preocupada. Recolho várias opiniões, reflicto e participo em discussões com pessoas de praticamente todos os pontos do país que vão descrevendo a realidade delas. Isso dá-me algum conhecimento de causa.

    “Esses casos de sucesso, por muito poucos que sejam, só são possíveis com uma atitude optimista e construtiva por parte dos profissionais que a compõem.”
    Verdade. É uma frase com a qual, penso, todos concordam. No entanto, lembra-te, nem todos querem construir a mesma coisa. Porque terão mais legitimidade umas construções do que outras?
    O Hitler também tinha uma visão clara do que queria construir.

    Dizes que as escolas deveriam ser todas assim. Discordo profundamente. A história tem-nos mostrado que as tentativas de formatar tudo pela mesma medida dão mau resultado… As visões totalitárias não andam muito longe dessa perspectiva.

    Todas as construções que colocam em causa outras construções igualmente válidas são de interesse duvidoso, por muitas luzes e brilho que pareçam ter à primeira vista.

  6. João Sá diz:

    Numa mailing list onde se discute este assunto, apareceu agora uma mensagem com este texto.


    … mas gosto que as coisas tenham um pouco de verdade.

    Alguém me pode confirmar isto:
    “Just about every classroom in the public system now has an interactive smart board, instead of the old fashioned blackboard.”

    Eu respondo, só para lançar mais um dado sobre a mistificação da realidade.
    De entre algumas dezenas (talvez mais de uma centena) de salas de aula onde entrei nos últimos 3 anos, vi quadros interactivos em apenas duas delas, sendo que numa das salas o quadro esteve arrumado a um canto durante um ano lectivo inteiro sem um PC para lhe ligar. Neste caso (mas também noutros – à semelhança do que acontece com os computadores Magalhães), soube de muitos professores interessados em utilizarem o quadro, queixando-se de que tinham pedido formação que nunca foi fornecida.

  7. A Rodrigues diz:

    Gostei da tua intervenção e foi esclarecedora.

    Relativamente ao homem ter pegado num exemplo e dizer que é assim é claramente abusivo.
    Mas entende que a intenção do homem é exactamente usar esse exemplo para afirmar o que deveria ser o ensino nos EUA.
    Para ele tanto faz como fez se em Portugal as coisas funcionam e se são assim em todas as escolas.
    O artigo não é dirigido à audiência portuguesa.

    O seu objectivo era ter um exemplo e teve-o.

    Isto é o mesmo que dizer que devíamos seguir o exemplo dos alemães porque fazem bons carros. Fazem bons e fazem maus mas o que é usado como exemplo é o que eles fazem de bom.

  8. Sónia Duarte diz:

    Peço desculpa por chegar tarde a esta discussão que talvez já sintam concluída e não se sintam pressionados a retomá-la para me responder. Acho que o debate evoluiu muito positivamente (como “espectadora” foi talvez aquele que mais apreciei entre os dois) e sinto, sinceramente, que pouco mais há a dizer, a não ser talvez duas coisas… e essas duas coisas dizem respeito a duas da vossas intervenções.

    1) Vou começar por uma afirmação que parece ser partilhada pelos dois e “repesco-a” do último comentário que a ela faz referência (do João):

    ‘ “Esses casos de sucesso, por muito poucos que sejam, só são possíveis com uma atitude optimista e construtiva por parte dos profissionais que a compõem.”
    Verdade. É uma frase com a qual, penso, todos concordam.’

    Concordo inteiramente com o que o João diz depois a respeito de pretensões igualitaristas. O igualitarismo, enquanto redução simplista (haverá outro tipo de redução…?), é uma patologia social como outra qualquer, impeditiva da própria igualdade. Com o que não concordo é que estejamos todos de acordo (O João só se safa de “levar nas orelhas”, porque faz uma ressalva, dizendo que se trata apenas de uma suposição sua…)… Eu não quero dizer com isto que não concorde que haja profissionais dedicados a viabilizar interessantes projectos de excepção. Há-os com certeza e merecem, de modo geral o meu respeito. O que pode ser motivo de discórdia é à custa de quê? Para esse projecto se aguentar como um exemplo isolado, implica que os outros tenham que ser privados dele ou de outras necessidades mais básicas? Implica que esses profissionais ofereçam uma dedicação de excepção, um horário de excepção e talvez mesmo um desinvestimento excepcional nas suas aulas propriamente ditas? Ou, pelo contrário, implica que só alguns profissionais de uma dada escola têm o horário justo e um número de alunos/turmas/níveis justos, por participarem num projecto acarinhado por esta política educativa, enquanto outros colegas, igualmente dedicados, igualmente “optimistas e construtivos”, com outros projectos igualmente ou mesmo mais interessantes, terão que passar de “dedicados” a “voluntários”, caso esses projectos não estejam entre as prioridades do momento para todo o país, a saber: Bibliotecas, TIC, Português e Matemática (Perdoem-me se falha alguma…).

    2) Intimamente ligada à que é para mim a questão fulcral – à custa de que é que subsistem estes “casos de sucesso (…) por muito poucos que sejam” – está a segunda citação (do Rodrigues) que pretendo comentar:

    “Portanto os profissionais (professores) deveriam fazer um esforço por abraçar o projecto em vez de continuamente marchar contra ele.”

    Pergunto-me se e está mesmo a marchar contra? Será melhor apoiar os oásis ou denunciar que há gente a morrer de sede fora deles, ali mesmo na escola do lado…? A melhor forma de abraçar o projecto não será exigir as condições para ele se estender? Se calhar marchamos (se é que marchamos de todo…) a favor. A razão de tanta interrogativa é muito honestamente a ausência de certezas.

    Foi agradável (leia-se também “estimulante”) seguir o vosso diálogo!
    🙂

  9. Sónia Duarte diz:

    * Pergunto-me se se está…

    ops…

  10. A Rodrigues diz:

    Sónia, colocas questões verdadeiramente interessantes. Obviamente que não há uma formula mágica e que as variáveis são muitas.

    É verdade que sem disponibilidade e sem recursos não se consegue executar um projecto de sucesso. Mas também é verdade que é necessária determinação, empenho e acima de tudo motivação.

    Vou contar aqui um caso pessoal. Eu sou instrutor de mergulho. Dou lições num clube voluntariamente e gratuitamente.
    Há escolas de mergulho um pouco por toda a parte. Cobram somas consideráveis por um curso. Eu poderia estar a fazer o mesmo, a conjugar o prazer com os proveitos.
    Mas não estou. Porquê? Porque o que faço me entusiasma. Alguém o fez por mim antes quando eu necessitei de formação e agora faço-o a outros que se juntam ao clube. Adoro o que faço e não me sinto constrangido com o dinheiro que gasto a formar alguém.

    O que eu quero dizer é que acredito que haja professores que gostem tanto do que fazem que se empenhem bastante neste género de projectos.

    Contudo nem se pode obrigar que todos os professores tenham essa motivação, nem se pode esperar que numa escola todos estejam motivados. Portanto é extremamente importante olhar os casos de sucesso com especial atenção e não simplesmente os aceitar como excepções. Porque esses casos de sucesso podem ajudar a compreender porque é que numa escola com personalidades diferentes é possível gerar resultados em grupo. O que é que existe nessas escolas que motiva, não um ou dois professores, mas o grupo em geral?

    Já uma vez contei a história de uma amiga professora que queria aproveitar um WC abandonado e foi travada pelas colegas. Em todas as escolas (ou melhor em toda a parte) existe quem seja um obstáculo ao progresso. Portanto o segredo está em aprender a criar condições para uma afinidade geral que permita gerar resultados.

    Sim, denunciar o que está mal é importante. Mas não pode ser o objectivo fulcral (como parece ser actualmente na sociedade portuguesa). Porque ao denunciar insistentemente o que está mal acaba por criar um espírito pessimista que se tornará um obstáculo a esse pensamento positivo que é necessário para se estar motivado.
    Vocês são professores, portanto conhecem o efeito de apontar constantemente a um aluno o que está errado versus o efeito de o elogiar pelo que faz bem (no método de ensino inglês chamamos REAP).
    O mesmo se aplica a adultos, vós, nós, toda a gente. Os professores não são excepção.

  11. Sónia Duarte diz:

    Como voluntária, já dei aulas, já trabalhei em carpintaria, já servi mesas, já cozinhei, já lavei louça, já fiz caixa, já traduzi e fiz trabalho de intérprete, entre outras coisas. Até já fiz também voluntariado nas escolas onde trabalhei. Mas ser trabalho voluntário, significa que não fez parte nem do trabalho que me é atribuído/exigido/esperado profissionalmente nem dos resultados conseguidos pela entidade empregadora… Nada tenho contra ser voluntária. O voluntariado em nada me constrange nem esforço, tempo, dinheiro ou prazer nele empregues. Aliás, cada vez mais preciso disso para me lembrar do que é ser professor (em vez de funcionário público indiferenciado…) e não “amargar”. A questão que eu te coloco -desculpa seguir na linha do plano pessoal, mas estou a responder ao teu comentário, onde o fazes – é se ser instrutor de mergulho é a tua principal fonte de remuneração, se o clube em que o fazes é a tua entidade empregadora e se és avaliado profissionalmente por dar ou não formação em mergulho. Acredita que a pergunta não contém ironia. Suspeito que a resposta é negativa, mas se for afirmativa, seremos ainda mais diferentes do que já nos imaginamos, mas nem por isso, nenhum de nós é melhor ou tem mais razão que o outro. Também seria interessante ouvir o que essa tua amiga (minha colega) professora teria para dizer sobre tudo isto…

  12. A Rodrigues diz:

    Eu interpreto das tuas palavras que não acreditas que uma pessoa possa ter essa postura na sua própria profissão. Acredita que pode. Se realmente o que faz lhe dá prazer e se sente motivada.

    O meu gestor de projectos é assim. O homem tem mesmo prazer no que faz. A sua profissão é o seu hobby. É uma pessoa altamente inovadora, mas não distingue vida privada de vida profissional.

    Quanto à relação que estabeleces entre o profissional, entidade empregadora e avaliação, existem muitos géneros de entidades empregadoras. Existem empresas em que a avaliação se foca exactamente na motivação e na criatividade. Nessas empresas as excepções são os que bloqueiam o sistema.
    O reverso da medalha é que são ambientes altamente competitivos em que quem não for pro-activo fica prejudicado.

    Eu já passei pelos dois extremos dai ter uma sensibilidade em relação à questão da motivação e avaliação. Tanta que até escolhi esse tema para um trabalho académico.
    Um processo de avaliação tanto pode ser determinando para o sucesso de uma empresa e dos seus colaboradores, como pode ser o caminho mais curto para o desmembramento do equilíbrio laboral. Eu já observei ambos.

    Portanto, Sónia, buscando as variáveis certas é possível motivar um grupo de trabalho para fazer milagres.

  13. Sónia Duarte diz:

    Gostei da resposta, que agradeço. Só algumas pecisões/solicitações…

    1) Dizes “eu interpreto das tuas palavras que não acreditas que uma pessoa possa ter essa postura na sua própria profissão.” Repara que eu disse “Até já fiz também voluntariado nas escolas onde trabalhei.” Referia-me a isso mesmo e a mim própria.

    2) Dizes ainda que “(…) buscando as variáveis certas é possível motivar um grupo de trabalho para fazer milagres.” Concordo que sim. Mas i) quais seriam para ti essas variáveis? ii) Pessoalmente preferia que os professores não tivessem que fazer “milagres” e as escolas funcionassem bem. Por “milagres” quero aqui dizer coisas como “multiplicação dos pães” , “levanta-te e anda”, etc. que são “milagres” que fazemos todos os dias, num contexto de falta de quase tudo. Mas se as escolas deste país (e não só) funcionassem de modo desejável o verdadeiro milagre das escolas seria (como acho que deve ser) ensinar/educar e aprender.

    3) Finalmente queria as tuas seguintes palavras: “existem muitos géneros de entidades empregadoras. Existem empresas em que a avaliação se foca exactamente na motivação e na criatividade.” Sendo que não discordo deste parâmetro de avaliação, como conseguir que a consciência disto por parte dos trabalhadores não constitua uma ameaça à carácter genuíno dessa motivação?

  14. Sónia Duarte diz:

    ops… * ao carácter

  15. Sónia Duarte diz:

    ops, ops… *Finalmente queria COMENTAR as tuas seguintes palavras…

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