Madeira: uma tragédia anunciada

É sempre delicado falar sobre tragédias. É difícil falar delas sem tocar a sensibilidade de muitos que, directa ou indirectamente, foram afectados. Mas é ainda mais difícil ficar sem dizer nada quando se percebe que algumas ocorrências, se não podiam ser evitadas, podiam ter tido resultados bem diferentes. Talvez assim não fossem tragédias mas, antes, meros incidentes dignos de registo.

Terá sido isto que aconteceu na Madeira?

Este vídeo, um excerto do programa Biosfera de Abril de 2008, parece premonitório.

Não haverá agora responsabilidades a apurar sobre os que permitiram, digo provocaram, consequências da dimensão que conhecemos?

10 respostas a Madeira: uma tragédia anunciada

  1. A Rodrigues diz:

    A peça é realmente pertinente. Mas tudo o que seja premeditar o que poderia ter acontecido é pura especulação. Não existe forma de prever o que a natureza nos vai trazer. Obviamente que a construção junto aos leitos é um factor de risco, mas a destruição não se limitou aos leitos.
    Relembro a título de exemplo o que aconteceu em Coimbra e Montemor-o-velho em 2001. O leito do rio Mondego foi preparado e protegido para um caudal máximo de 2000 m3/s tendo como base o histórico de cheias no Baixo Mondego. No ano de 2001 o caudal máximo foi inesperadamente ultrapassado derrubando os diques de protecção e deixando um rasto de destruição. Também nessa ocasião se apontou o dedo a erros de construção e a falta de manutenção dos diques. Mas a verdade é que não existia registo de um caudal tão grande. Logo, independentemente de qualquer negligência, a tragédia era inevitável.

  2. João Sá diz:

    Não é premeditar. É prevenir. Claro que a natureza, a sua força e uma série de outras coisas são imprevisíveis. Devemos ter respeito e pôr-mo-nos no nosso lugar: somos pequenos, muito pequenos.

    Mas isso não desculpa o olhar para o lado quando somos alertados, e quando podemos fazer mais, muito mais, só porque o vil metal fala mais alto.

    Por que razão se constroem edifícios anti-sísmicos? Claro que não aguentaram qualquer sismo, mas serão menos vulneráveis.

    Vamos fazer uma comparação simples e que está fresca na memória de todos: o sismo no Haiti foi de grau 7 na escala de Richter; o do Chile foi de grau 8,8 na mesma escala. E o impacto da catástrofe? E o número de mortos? Apesar da grande diferença de números apresentados pelo governo chileno, andarão certamente abaixo dos 1000 (os números oficiais oscilaram entre as 2 e as 8 centenas). No Haiti fala-se em quase 300 mil.
    Onde estará a diferença?

  3. A Rodrigues diz:

    O facto de um ter sido de grau 7 e o outro de grau 8,8 não significa absolutamente nada. A destruição é causada pelas ondas de choque e estas dependem de vários factores, entre os quais a distância ao epicentro, a geografia do terreno, a sua flexibilidade, a profundidade a que se dão os movimentos tectónicos, a altitude da superfície, etc, etc. O facto do Haiti ser uma ilha e o Chile uma região montanhosa já fala por si.

  4. Décio Ferreira diz:

    Bem, confesso que o acontecimento na Madeira mexeu muito comigo, por questões óbvias.

    Mas também é verdade que falar de prevenções antecipadas, de possibilidades que nem se sabe que funcionam é fácil; e por em prática?

    O Funchal, como todas as cidades que conheço, têm problemas de ordenamento e planeamento e bla bla bla… mas isso apenas teria minimizado a consequência, pois não há planeamento nenhum que preveja situações dessas. A verdade é que se calar fenómenos como o que aconteceu serão daqui em frente mais frequentes.

    Não sei se terá sido facilitismo ou outra coisa; sei apenas que tem havido um esforço enorme na manutenção das ribeiras limpas e desobstruídas, mas foi demonstrado que não foi o suficiente!

    Falar agora será sempre mais fácil que prever, antever e por em prática! O Vídeo mostra muito, mas acaba por não se passar daquilo. Para os desentendidos, facilmente se apercebem que PODERÁ acontecer uma situação dessas.

    Temos que evoluir…e é pena que por vezes tenhamos que passar por situações como a que aconteceu na Madeira para repensarmos e mudarmos estratégias!

  5. João Sá diz:

    “O facto de um ter sido de grau 7 e o outro de grau 8,8 não significa absolutamente nada.”
    Então a ciência e as escalas objectivas são úteis para umas coisas servindo tantas vezes de justificação e sustentação para argumentos… e agora “não significa absolutamente nada”? Lá que não signifique tudo, aí eu concordo. Mas que significa bastante [em termos de potencial para danos], lá isso significa.
    Obviamente que nunca poderíamos chegar ao ponto de determinar o número de mortos em função de uma escala destas. Seria ridículo: basta pensar o caso em que um sismo de grau 10 ocorresse numa zona inabitada!

    Décio, quando afirmas “mas isso apenas teria minimizado a consequência”, é exactamente ao que me refiro. As catástrofes naturais são muitas vezes imprevisíveis. Outra vezes, sendo previsíveis, são incontroláveis e não se pode fazer muito para evitar os danos a que elas dão origem. Mas noutras situações há cuidados que se podem ter, não para evitar a tragédia mas para diminuir os seus efeitos. Um óptimo exemplo é a construção anti-sísmica: não evita os sismos, não impede a destruição se os sismos forem de grau muito elevado, mas reduz os danos na maior parte dos casos. Seria portanto insensato não ter esses cuidados em zonas onde antecipadamente se sabe que há muita actividade sísmica. Claro que nada é tão simples assim, até porque o dinheiro e os interesses económicos costumam ter muito peso… O que eu defendo é que esse peso (do dinheiro e do poder económico) neste tipo de decisões deve ser significativamente menor. Mas, claro, não posso mudar o mundo. Mas posso sempre começar por me mudar a mim…

  6. Décio Ferreira diz:

    Sim, claro que concordo contigo.

    Em 1993, quando da outra tragédia, eu estive lá ao vivo e a cores; muito se fez para melhorar, muito se falou desses problemas, muito se arranjou e muito se melhorou.

    Conclusão: esta tragédia foi bem pior que a anterior!

    Confuso para alguns, mas para outros de fácil explicação. Afinal, não serão esses outros que também têm culpa no meio disto tudo?

    Existem erros lá que são inexplicáveis e efectivamente é verdade que esses interesses económicos irão sempre vingar seja onde for (infelizmente em situações como estas), pois são elas que “supostamente” dão dinheiro às cidades!

    Veja-se cá em nossa casa: Coimbra🙂

  7. A Rodrigues diz:

    João, a magnitude sísmica é a quantidade de energia libertada no epicentro. Não é uma escala de avaliação de danos.

  8. João Sá diz:

    Mas onde é que eu afirmei o contrário?
    Agora, que existe uma relação, embora não linear, é óbvio que existe, o que assume outro carácter quando falamos de grandes números (muitas pessoas, p. ex.).

    Vais-me dizer que uma palmadinha nas costas tem o mesmo potencial para causar danos que uma pancada com um taco de baseball?
    Claro que podemos partir uma costela a alguém com uma palmadinha nas costas e claro que uma pancada com um taco de baseball pode fazer apenas uma nódoa negra. Mas é esse o potencial? E se analisarmos estatisticamente um grande número de palmadas nas costas e um grande número de pancadas com tacos de baseball?

  9. A Rodrigues diz:

    Obviamente que existe uma relação. Mas o cerne da questão é a forma como usaste de especulação para afirmar que não houve mais vitimas devido à qualidade de construção. E ai sim estavas a assumir uma linearidade.
    A única forma de saber se o grau de destruição foi devido à qualidade de construção é conhecer o impacto das ondas de choque nesses locais, e não o grau sísmico no epicentro.

    Já agora deixo-te aqui mais alguns dados.
    Chile: Epicentro a mais de 300 Kms de Santiago e a 115 Kms de Concepción. Profundidade 34 Kms.
    Haiti: Epicentro a 25 Kms de Port Au Prince. Profundidade 13 Kms.

    Faltam ainda dados relativamente à geologia da crosta nas duas regiões que nos permitissem averiguar o comportamento das ondas de choque em ambos os casos. Mas dada a grande diferença na distância ao epicentro é plausível afirmar que as ondas de choque no caso chileno atingiram a costa já com um índice de amortização considerável.

  10. A Rodrigues diz:

    Desculpa o spam, mas gostei tanto do teu exemplo que não me contenho.

    Qual é mais susceptível de te danificar as costas? Uma palmada nos ombros ou um taco de basebol numa perna? É que o local onde ocorre a pancada é mais determinante do que a violência da pancada.

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