A realidade supera a ficção

A ser verificada a veracidade do que é noticiado pelo DN, subimos mais um degrau na já bem alta escadaria até ao salto para o abismo político e judicial que se tem vindo a percorrer por cá.

O título não só é forte, mas gravíssimo, ainda mais tratando-se de uma figura como o Procurador Geral da República.

PGR mentiu ao Parlamento

Pinto Monteiro recusou ao PSD despacho, alegando que continha escutas de Sócrates. Mas estas não constam.

Durante os últimos meses, o procurador-geral da República recusou (até ao grupo parlamentar do PSD) o acesso aos despacho de arquivamento ao crime de atentado contra o Estado de d ireito, alegando que os documentos continham escutas entre Armando Vara e José Sócrates, mandadas destruir pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento. E, caso as revelasse, estaria a violar a decisão de destruição. Porém, num dos despachos em causa, a que o DN teve acesso, em lado algum aparecem as conversas entre Sócrates e Vara.

E, já agora, comparemos e encontremos as diferenças [abissais] entre o que se tem passado por cá, onde todos os mecanismos de vitimização, subjectivação e desinscrição do real (citando o filósofo José Gil), são explorados até à exaustão, com o que se passou ontem na Holanda, em que o primeiro ministro se demite com a assunção, democraticamente elevada, de que deixou de haver confiança entre as partes da coligação, deixando assim, também, de haver condições para trabalhar em conjunto. Valores políticos e democráticos como estes fazem falta por cá. Da declaração do primeiro ministro holandês, destaco ainda:

A government’s survival can never be an end in itself.

Advertisements

7 respostas a A realidade supera a ficção

  1. A Rodrigues diz:

    Estás a fazer confusão. O que aconteceu na Holanda nada tem a ver com valores democráticos.
    A demissão deveu-se ao desacordo entre os 3 partidos de coligação. Sem acordo não há coligação. Sem coligação não há governo. Tão simples como isso.

    Por outro lado estás a querer dizer que por o PGR ter mentido o primeiro ministro deve demitir-se?

    Já agora que falas em valores democráticos. Em democracia quem escolhe é o povo. E o povo escolheu há apenas poucos meses. Antes de se exigir que os outros respeitem os valores democráticos, devemos nós próprios respeitá-los.

  2. João Sá diz:

    Não estou a fazer confusão absolutamente nenhuma. Posso estar a misturar várias coisas, mas faço-o intencionalmente.
    É apenas um reflexo do ambiente político difuso e imoral que se vive, onde é preciso misturar várias coisas (conhecidas e desconhecidas – não por nossa vontade) para poder compreender o que se vai passando à nossa volta.

    A comparação prende-se precisamente com essa diferença de ambientes entre a Holanda e Portugal. Obviamente que o contexto e a realidade da Holanda não é comparável à portuguesa.

    No entanto, os valores também não o são. É aí que reside a diferença. Na Holanda, há uma demissão clara, justificada com factos e um assumir de posições políticas claras e responsáveis, independentemente das partes terem ou não razão. É o respeito pela integridade política, individual, institucional.
    Tudo isso, são valores que muitos dos nossos actores políticos (e todos somos actores políticos…) não praticam por cá. É aí que reside o meu ponto.

    Claro que em democracia quem escolhe é o povo. Eu respeito e sempre respeitei isso. Nem poderia ser de outra forma. Mas o que me impede de estar em desacordo com o que o povo (leia-se, a maioria do povo) escolhe? Onde é que está escrito que são as maiorias que estão certas? Isso não belisca em nada o respeito pelos valores democráticos.

  3. A Rodrigues diz:

    João, o que aconteceu na Holanda aconteceria em Portugal e em qualquer outra parte do mundo nas mesmas circunstâncias. Nada tem a ver com valores. Tem unicamente a ver com o orgulho, com a ambição de sair por cima.
    A partir do momento em que os 3 partidos da coligação deixam de ter consenso, deixam de ter condições de governarem em conjunto. Na falta de consenso só há uma saída, a dissolução da assembleia pela rainha. O que o partido do primeiro-ministro fez foi demitir-se antes de ser demitido. Isso não são valores democráticos, isso é unicamente estratégia política para sair em vantagem para as próximas eleições.

    Aliás, não coloques tanta estima nos políticos da Europa Central porque se fosses conhecendo os podres que por cá se vão conhecendo acabarias por concluir que Portugal não é assim uma república com tantas bananas.

  4. João Sá diz:

    Quanto ao significado que dás a orgulho (no caso da Holanda), suponho que vai no sentido de brio, de decoro, dignidade. Nesse caso concordo.
    Porque em Portugal, no caso deste e do anterior governo, o orgulho em excesso também é parte do problema, mas orgulho no sentido de teimosia, arrogância, soberba.

    Claro que não há pessoas ou governos perfeitos. Claro que a Europa Central terá os seus problemas, mas pelo que me vai sendo dado a observar, no geral, estão um bocadinho melhor do que nós. Pelo menos, praticam valores mais compatíveis com os meus. Isto já para não falar nos países Nórdicos.
    Digamos que Portugal ficará algures no meio caminho entre esses e alguns países da América do Sul.

  5. A Rodrigues diz:

    Se te referes à sociedade em geral concordo contigo. Estão um pouco melhores.
    Se te referes à política então desconheces o que se passa pelos países nórdicos. Não me parece que xenofobia, pedofilia, desvio e lavagem de dinheiro sejam propriamente valores com os quais tu te identifiques.
    Pessoalmente entre um xenófobo e um mentiroso eu prefiro o mentiroso.

    O facto de serem países com melhores condições económicas não os coloca necessariamente no campo dos bons valores. Embora a política tenha o seu peso no sucesso de um país o que me parece ser essencial no sucesso destes países em particular é o sentido empreendedor das pessoas. A nível de política estão cheios de maus exemplos.

    A propósito de empreendedorismo (e desviando-me um pouco dos valores políticos para os valores do povo). Alberto J. Jardim, apesar de louco nos seus discursos, surpreendeu-me ao afirmar que seria uma calamidade declarar a Madeira como calamidade pública e que quer ter a ilha pronta para a festa da flor em Abril. Este é o espírito que falta na generalidade dos portugueses. Em vez de nos vitimarmos e atirarmos as culpas para o poder político deveríamos ter este espírito construtivo de deitar mãos à obra e não esperar constantemente pelo apoio dos outros como se nós não tivéssemos a nossa cota-parte de responsabilidade.

  6. João Sá diz:

    Realmente desconheço essa generalização sobre xenofobia, pedofilia, desvio e lavagem de dinheiro em todos (ou a muitos) dos actores políticos de todos (ou a muitos) dos países nórdicos. Não será abusiva a generalização? A que casos te referes?

    Quanto a A. João Jardim, não acho que mereça grandes comentários. São os madeirenses que o elegem, logo, tal como cá, tem legitimidade democrática. Não tem é outros níveis de legitimidade, nomeadamente moral.
    O empreendedorismo não é um valor em si mesmo. Será um valor sim se for acompanhado por outros valores.
    Valorizar apenas o empreendedorismo resvala na tão nossa conhecida frase, tão visível ao nível de algumas autarquias: rouba mas faz. Se é isso que queremos (enquanto sociedade)… eu não quero (enquanto indivíduo). A vida tem muitas dimensões, sendo que a dimensão materialista é apenas uma delas.

    Todos nós temos responsabilidade em muitos domínios, todos nós podemos fazer muita coisa de maneira diferente e, em muitos casos, melhor, mas não esqueçamos que, muitas vezes, somos impedidos de o fazer por situações, pessoas e contextos que não dependem directamente de nós mas que nos limitam ou condicionam. Nesses casos, se queremos fazer melhor, só o poderemos fazer mudando as situações, os contextos e, às vezes, as pessoas.

  7. A Rodrigues diz:

    “Realmente desconheço essa generalização … Não será abusiva a generalização?”

    Da mesma forma em que tu generalizaste ao dizer que os nórdicos têm valores mais próximos dos teus? Quais e em que casos te baseias? Na minha opinião não passa de um preconceito entre tantos que os portugueses têm sobre os outros países. Há bons exemplos que vêm do frio, assim como há maus exemplos. Mas também há bons exemplos que vêm de terras lusas.

    Posso apontar-te um exemplo. A Dinamarca é bem conhecida por ter saúde e educação comparticipada quase na totalidade. É um valor? Sim, de facto, se esquecermos que os impostos chegam a ultrapassar os 60%. Mais de metade do rendimento de cada cidadão vai para o estado. Logo a educação e a saúde não lhes sai de borla. E depois têm outros valores que nada têm de democrático, como por exemplo oferecerem um subsidio para que os estrangeiros regressem ao seu país abdicando de direitos adquiridos na Dinamarca.

    Relativamente ao empreendedorismo, não o vejo como forma de materialismo. O sentido que lhe dou é o de fazer em vez de esperar que os outros façam. O empreendedorismo pode ter diversas aplicações. Pode-se empreender na educação, na saúde, na ajuda aos mais necessitados, na transmissão de valores (novamente os valores). O voluntariado, por exemplo, pode ser uma forma de empreendedorismo. Há imensas instituições, não só de carácter social, que se baseiam no voluntariado. São pessoas que querem fazer, que querem contribuir, que não esperam que seja o Estado a fazer. O empreendedorismo pode ser muita coisa.

    O materialismo a que te referes é exactamente o que condeno nos portugueses. Só fazem quando há retorno. Mas isso não é empreendedorismo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: