Especialistas e especialidades [da economia]

Ao longo das últimas décadas, temos vindo a ser dominados pelo poder económico. Tudo se lhe submete, inclusive o poder político. O mercado é que manda – essa entidade divina e inquestionável. A actual crise veio pôr a nu todas as fragilidades e incertezas que os especialistas nos têm servido, digo imposto, como certezas absolutas.

Apesar de muitos já o terem dito, nunca é de mais lembrar que foram esses os especialistas que nos trouxeram até à actual crise. São esses especialistas que, no caso de Portugal, nos trazem presentes como a maior dívida pública (a nível internacional o cenário não é muito diferente):

Pela primeira vez, este ano a dívida do Estado e das empresas públicas à banca e em títulos  ultrapassa a  riqueza produzida no País. (…)

A dívida do Estado, incluindo as empresas públicas, deverá este ano atingir 113,3% do produto interno bruto (PIB), contra 93% do PIB em 2008.

(…)

São também esses especialistas, com as suas especialidades, agora a nível europeu, que nos querem continuar a dizer o que é ou não normal:

Apesar de ontem o presidente do Banco Central Europeu (BCE) não ter dado uma indicação clara de quando irá proceder a uma subida da sua taxa de juros de referência, um dado é certo: as taxas Euribor vão começar a subir antes.

(…)

Esta é a opinião de Filipe Garcia, economista da consultora financeira IMF. “Acredito que o ciclo de quedas das taxas interbancárias tenha já terminado. E é expectável que até ao final do primeiro trimestre de 2010 haja uma progressiva convergência entre as Euribor e as taxas Refi, para valores normais. Porque a situação a que assistimos actualmente não é normal“, assegura o especialista. As expectativas do mercado apontam para um agravamento da prestação da casa de quase dez euros até Março.

(…)

Não deixa de ser interessante observar, embora claramente antagónico, que apesar de os economistas falarem sempre na base de crenças, gostem de nos impor as certezas e a sapiência do que nos vai acontecer no futuro se não seguirmos as suas lógicas especializadas.

3 respostas a Especialistas e especialidades [da economia]

  1. Ora viva,

    Obrigado por ter lido um comentário meu ao DE.
    Gostaria de aproveitar para esclarecer que a normalidade é um conceito estatístico. Ou seja, não havia no meu comentário, um juízo de valor. Ou seja, não falei em algo que seria correcto ou errado, mas do que acontece historicamente. Historicamente não é normal (voltamos à estatística):
    1. txs de juro tão baixas
    2. txs euribor abaixo da taxa de cedencia do BCE, sem que haja uma perspectiva de corte de taxas.

    Cumprimentos,

    FG

  2. João Sá diz:

    Viva!
    Obrigado, também, pelo seu comentário ao meu post.
    Quanto à noção de normalidade (ou normal), podemos vê-la de várias formas, nomeadamente, relacionando-a com a estatística ou com as curvas gaussianas, mas não me pareceu esse o contexto. A leitura que fiz, foi numa perspectiva holística, enquanto sinónimo de usual ou de habitual, servindo de modelo. Agradeço a clarificação que faz à minha interpretação.
    Ainda assim, e correndo o risco de extravasar o âmbito da discussão, mas sempre na perspectiva de que a economia deve servir e não ser servida, como podemos afirmar que um conjunto de “regras” económicas são normais se elas implicarem enormes desigualdades sociais, desemprego, pobreza, …? Não tem sido isso que a hegemonia da economia nos tem trazido nas últimas décadas?

    Cumprimentos,
    João Sá

  3. A Rodrigues diz:

    Não me parece que em economia, e mais precisamente em relação às taxas de juro, se possa deduzir o que é normal em função das estatísticas. Isto porque os dados económicos sofrem desvios. Seguindo como exemplo as taxas de juro, estas não possuem um comportamento independente. As taxas de juro são alteradas de acordo com os objectivos do poder político-económico.
    Vejamos o passado recente das taxas de juro. O BCE insistiu no aumento das taxas de juro para fazer face à inflação num momento em que vários analistas alertavam para o perigo de uma crise económica. Logo de seguida o BCE decidiu baixar significativamente as taxas de juro de forma a fazer face a uma crise anteriormente anunciada.
    Ora não me parece que a estatística tenha qualquer utilidade num cenário destes em que as taxas são alteradas propositadamente para ajustar índices económicos.
    O que este “post” põe em causa são as “regras” económicas que são seguidas pelos economistas como se se tratassem de regras universais. Acontece que estas “regras” são simplesmente o fruto da observação. Mas dada a rápida alteração de comportamentos no último século é difícil estabelecer o que é normal, o que é regra.
    Aliás é longa a polémica sobre se a economia é ou não uma ciência. A ciência visa elaborar conceitos que são demonstrados através de provas positivas e negativas. Em economia dificilmente se podem efectuar essas demonstrações.

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