A Bíblia

Após a recente polémica sobre as declarações de José Saramago acerca da Bíblia, decidi iniciar uma leitura protelada há algum tempo. Da Bíblia, claro está. Comecei pelo Evangelho segundo Mateus, do Novo Testamento.

Sobre o (em minha opinião) omnipresente maniqueísmo e a tendência para encaixar tudo em termos de “bem” ou de “mal”, deixo algumas passagens a que gostaria de voltar mais tarde.

«Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»

Também me parece interessante a discussão sobre a “carga” machista que encontrei em várias passagens, como esta:

«Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaração. Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultério, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»

E porque alguém falou no pior da natureza humana:

«Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»

«Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria família.

Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que me perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»

A outra parte da discussão que me interessa, passa pelo que deve e pelo que não deve ser interpretado literalmente na Bíblia. Se durante séculos foi feita pela Igreja uma interpretação literal, porque não a poderemos fazer agora? Mas se a interpretação literal não é aconselhada, abre-se o campo a todo um universo de subjectividades. Quem dita aquelas que serão válidas?

8 respostas a A Bíblia

  1. Pedro diz:

    Lá estás tu a “obrigar-me” outra vez…

    Quanto à Bíblia, como sou muito preguiçoso, nunca a li. Do Evangelho Segundo S. Mateus, já ouvi a belíssima cantata “Paixão Segundo S. Mateus, BWV 244” do J. S. Bach conduzida pelo J. E. Gardiner e é lindíssima! Ao menos serviu para inspirar uma obra magnífica!

    Em relação às declarações polémicas do Saramago, gostava de salientar que não têm nada de casual nem de original.

    Quanto à casualidade, vem mesmo mesmo mesmo na altura de… acho que não preciso de dizer mais nada!

    Quanto à originalidade deixo aqui esta declaração de Richard Dawkins que usa exactamente a mesma argumentação e linguagem:

    a série completa, muito interessante: http://www.youtube.com/view_play_list?p=1ABE732D38BF1EB6

    Christopher Hitchens a falar do seu livro “God is not Great”:

    Ilusionistas/comediantes Penn & Teller no seu programa Bullshit!:


    George Carlin, comediante Stand Up:


    Documentário sobre religião do comediante Bill Maher:
    http://www.youtube.com/view_play_list?p=CF6818481C3F1EDA

    Sem dúvida que a parte que acho mais interessante, na minha opinião, é exactamente a que deixaste para último e concordo em absoluto contigo. Quando se pede uma razão para as posições que os crentes da tradição Judaico-Cristã-Muçulmana defendem, por exemplo a negação do casamento homossexual, negação do darwinismo (muito em voga nos States), etc. vão buscar passagens da Bíblia que afirmam isso literalmente. Quando se apontam “defeitos” a algumas passagens, então essas não devem ser tomadas literalmente. Em que é que ficamos?

  2. João Sá diz:

    Deixas-me aqui muito material para explorar. Tenho de o ver com calma para poder comentar.

    Quanto ao resto, quero apenas referir que nem só de originalidade se constroem verdades e virtudes. Os valores humanistas, entre outros, não são originais e é bom que sejam sempre lembrados.

    Quanto à casualidade (ou causalidade), compreendendo essa acusação a José Saramago, mas, achando que é perfeitamente válida, fico-me entre aqueles que acreditam que tudo isto não foi planeado e que José Saramago não embarcaria num perversidade promocional como esta.
    De qualquer modo, dado o assunto em causa, penso que isso é pouco relevante. Sendo ou não sendo planeado, não passará de um pequeno caso quando comparado com o cerne do assunto em debate.
    Tudo o que sirva para trazer à discussão assuntos tabu, como forma de fazer amadurecer e crescer a sociedade, é um contributo para o “superior interesse” (onde é que eu ouvi isto!!) humano (ahhh! era nacional!).

  3. Pedro diz:

    Achas mesmo que não foi planeado?

    Mesmo, mesmo, mesmo?

    Eu não lhe chamaria “perversidade promocional”, acho que lhe dou o crédito devido por levantar a polémica na altura certa…😉

    As polémicas anteriores quando é que foram levantadas?

    Como podes ver acima, estes assuntos já andaram na berra há algum tempo lá fora. A minha ideia é exactamente ilustrar que só agora o Saramago os trouxe para cá… nos mesmos termos em que foram discutidos… Coincidência?

    Concordo contigo que estes temas não precisam de ser originais para merecerem atenção, nem o facto de ser ou não um golpe publicitário é o mais relevante, mas…

    Há bocado andava à procura deste episódio do Bullshit!, mas não o encontrava inteiro no TuTubo (o do creacionismo também tem a ver, mas não é tão específico):
    http://www.videosift.com/video/Penn-and-Teller-Bullshit-The-Bible-29min

    (este post tem comentários moderados? estás à espera de problemas?)

  4. João Sá diz:

    🙂
    Acho! Agora: mesmo, mesmo, mesmo, já não.
    O problema não são as dúvidas. São as certezas.

    Olha para a história e conta as guerras feitas por causa das dúvidas. Agora conta as que foram feitas por causa das certezas…

    Este blogue não tem moderação. É um “espaço” democrático e de liberdade. Para além disso, nunca foi removido qualquer post ou comentário. O sistema automático de detecção de spam é que filtra comentários com vários links deixando-os para a aprovação.

  5. Pedro diz:

    Claro, com *absoluta certeza*, que existem Armas de Destruição Massiva no Iraque!😉

    Ah, como tinha muitos links foi automaticamente classificada como potencialmente contendo SPAM. Got it!

    BTW, por acaso não estás interessado em replicas Rolex, comprimidos azuis ou ganhar muito dinheiro rapidamente e sem esforço? Vai aqui: http://www.youtube.com/watch?v=anwy2MPT5RE🙂

  6. Pedro diz:

    Entretanto andei à procura de material que possa confirmar a tua posição, mas o que encontrei foi isto:

    Aqui vejo que a polémica foi criada ao mesmo tempo que o lançamento do livro e, para além disso, é uma argumentação baseada nisto:

    Eu sei que aprecias o Saramago. Eu nem por isso… Cada um vê o que vê baseado nas suas convicções.

  7. João Sá diz:

    🙂
    Já estive a ver alguns dos materiais que partilhaste. Interessantes.
    Quanto ao Saramago, é verdade que aprecio alguns dos livros dele. Não todos – também não os li todos. Por exemplo, ao penúltimo (A viagem do elefante) não achei grande piada.
    Acima de tudo aprecio pessoas que não recusam enfrentar os grandes problemas, mesmo os mais angustiantes e viscerais. A minha convicção é de que toda a procura de verdade(s) é boa, mesmo que desconfortável.

    O que digo em relação à polémica à volta das declarações de José Saramago acerca da Bíblia é simples: acho desproporcionada a reacção de alguns a uma opinião. Quem lhe quer dar importância, dá. Quem não quer, não dá. Quem se identifica com o que ele diz, dar-lhe-á crédito e valor. Quem não se identifica, ignora e não contribui para lhe dar ainda mais importância. É um ser humano, tem direito à sua opinião, ainda por cima quando é sólida e fundamentada.

  8. Samuca diz:

    Olá, gostei muito de seus artigos, gostaria de te convidar para partipar de uma rede de troca de conteúdo, para mais detalhes me adiciona no msn co_herdeiro@hotmail.com ou me manda um email ok. Abraços. Samuel

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