Pequeno e incompleto ensaio sobre a ilusão

Eu gosto de ilusão. Gosto de sonhar, de imaginar um futuro melhor, de pensar utopias, daquelas que – conscientemente – podem nunca acontecer mas que nos servem de farol. Nem me importo de pagar por elas. Pago por um bom momento de ilusão, como quando vou ao cinema ou a outro espectáculo, quando leio um livro, quando jogo na consola ou, simplesmente, quando me sento em frente à televisão para sentir o suspense de uma série.

Que bom que é viver e ter ilusões. Mas não confundamos os planos. É bom viver e TER ilusões. Não é bom VIVER ilusões. Abomino viver em ilusão. A realidade é sempre melhor, mesmo quando é pior!

Não tenho ilusões: a minha realidade não é a realidade do próximo, tal como o não são as minhas verdades. Não me vou referir a isso. Esqueçamo-lo de momento. Falemos de situações factuais, do senso comum e de enganos conscientes.

Passemos então para a mentira. A mentira é um tipo de ilusão. Porque será que tantos escolhem viver em mentira? Uns em mentiras suaves, outros em mentiras profundas, mas mentiras. Não deixam de ser mentiras.

É aquele vendedor que vive na mentira do lucro. Vende tudo pelo preço mais alto que consegue, mesmo se aquele produto nada vale ou, pior, se não tem valor para o cliente. Ele sabe usar a ilusão. Ilude o cliente, fá-lo acreditar que precisa daquilo. Ilude-se a ele por acreditar que vender – só por vender – é bom.

É o amigo que não conta o que sabe ser importante para o outro (Caberá isto no conceito de amigo?). É o colega de trabalho que procura criar uma imagem de si e outra do colega para chegar onde pensa querer (Valerá isto apena?). É o professor que passa o aluno sem saber (Será isto aceitável?). É o político que promete – o que sabe não ser possível – para manter ou conseguir o lugar (Conseguirá?). É o jornalista que transforma a notícia (Que notícia? De outra coisa que, embora possível, foi apenas imaginada?).

Mas é também o padeiro que rouba no peso do pão. É o mecânico que substitui a peça sem necessidade. É a burocracia incompreensível, com objectivos não assumidos.  É o casal que se engana. É a história mal contada. É!…

Sem falsos moralismos, apenas com sentido(s). Pensemos nisto: na vida, na verdade e na mentira.

Bem sei que «anda meio mundo a enganar o outro meio», mas será que não podemos mudar isso?

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6 Responses to Pequeno e incompleto ensaio sobre a ilusão

  1. Sónia Duarte diz:

    É curioso depois disto teres escrito um post acerca de uma história de duas crianças! Depois de ler este post, passei algum tempo a “adorar” dois bébes de colegas da escola… E o pensamento recorrente era resultado da leitura do post: a olhar para eles não conseguia deixar de pensar que nada neles denunciava engano… todos os gestos, sons, todo o sinal era ou parecia honesto. Não parava de pensar se em alguma medida o seu comportamento podia ser lido como estratégico, falacioso, ilusório… de algum modo… (o choro pela comida ou o mimiho por exemplo). Não parava de pensar que neste contexto, também o outro (eu) não tem necessidade de se proteger criando ~ilusões ou “opacidades” (filtros?) defensivos.
    Quando menos esperamos as coisas menos esperadas mexem connosco!

  2. Sónia Duarte diz:

    *miminho

  3. Marta Malva diz:

    Nem mais a propósito ler este post hoje… dia em que tive uma discussão laboral e fiz questão de pedir que comigo não prometam nem garantam aquilo que de antemão sabem que não vão (poder ou querer)cumprir.

    Ninguém é perfeito e errar é humano, mas ser “ilusionista” em consciência e premeditadamente é algo que me incomoda bastante.

    Em comentário ao comentário da Sónia…da minha curta experiência e do que me contam…até os bébés têm alguma capacidade “ilusionista”, ainda que associada a muita pureza. Porém essa ainda será educável…Eu espero conseguir 😉

  4. Sónia Duarte diz:

    A Marta acaba de desfazer a única esperança que me restava… Que triste é ser-se lúcido! 😉 Obrigada pelo comentário ao comentário!

  5. João Sá diz:

    Verdade, Marta.
    Começa a ser difícil lidar com tantos “ilusionistas”. Mas entrar no espectáculo está fora de questão.

    Os bebés são especialistas. Chegam a ser manipuladores. Mas é uma questão de sobrevivência, acho. Não é consciente. Quando a manipulação se torna consciente e cultural é que é preocupante.

    Sónia, ao contrário de ti não é isso que me faz perder a esperança. Não quero divagar, mas, entre muitas outras coisas, enquanto seres sociais, seguimos caminhos que não são naturais mas que são conscientemente adoptados. Por exemplo, não é natural ser monogâmico.

  6. Sónia Duarte diz:

    Certo, João. Nesse caso, para conseguir continuar a resistir no meu próprio universo, para continuar a ter algum horizonte, vou transferi-la (a esperança) para o mundo animal…

    🙂

    (E eu que cheguei a achar este post era inócuo… As voltas que já lhe dei!)

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