Livro de estilo, pois sim

Segundo o Sol:

Agência Lusa ‘censura’ insultos a Sócrates

A agência Lusa retirou ontem da notícia sobre o protesto dos estivadores, realizado em frente à Assembleia da República, em Lisboa, as asneiras e palavras de ordem que incluíam insultos dirigidos ao primeiro-ministro, avança o Correio da Manhã

Nos insultos estavam frases como: «Sócrates, escuta, és um filho da p…», «O Sócrates não cumpriu, vai para a p… que o pariu», e «fascista», que foram retirados, pela agência Lusa, da notícia sobre o protesto dos estivadores, em frente à Assembleia da República, em Lisboa.

Segundo o Correio da Manhã, «o livro de estilo» e o «bom sendo» foram as justificações dadas pela agência noticiosa, após ter corrigido a primeira notícia, dada às 14h48, onde se reproduziam os insultos de duas centenas de estivadores ao primeiro-ministro.

Às 15h51, a Lusa emitia um segundo take, que corrigia o primeiro e ‘silenciava’ as palavras de ordem gritadas durante a manifestação.

Rui Baptista, editor da secção de política da Lusa, explicou que os insultos «contrariavam o livro de estilo e não acrescentavam nada à peça». «Em momentos de tensão às vezes erramos, e nós aqui trabalhamos ao segundo. Não houve nenhuma pressão exterior. Não há nenhum mistério nesta correcção», frisou.

É este o jornalismo de que precisamos? Soft, meigo, cuidadoso, cheio de pruridos e onde algumas palavras parecem  fazer cócegas? O «livro de estilo» para a recessão não foi publicado há tanto tempo assim.

Não era a notícia que devia ser clara, objectiva e reflectir de forma fiel a realidade? Se calhar enganaram-me na escola!

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26 Responses to Livro de estilo, pois sim

  1. Rui Gomes diz:

    Eu concordo com a retirada dos insultos porque falta de educação não cabe na minha maneira de ser.
    Discordo sim do procedimento e condeno a publicação da notícia em primeira mão na íntegra e depois, ao melhor estilo da PIDE-DGS, republicar sem os ditos palavrões!
    Discordo contigo quando que a notícia devia clara e por isso, deveria incluir tudo…. acho que se nos pouparem o ouvir de palavrões, não faz mal nenhum, o “sumo” continua lá!

  2. João Sá diz:

    Lamento, Rui, mas desta vez discordo.
    A realidade, seja ela qual for, não deve ser escondida ou mascarada.
    Foram ditos palavrões? São feios? Não os usamos no nosso dia-a-dia? Chocam-nos? Paciência. Foi o que aconteceu. Se não os queremos voltar a ouvir, então procuremos perceber por que razão aconteceram e evitemos essas situações se acharmos que tal se justifica.
    Ser informado fielmente da realidade não fere em nada a minha educação.

    Não há quem pague para ver filmes onde o espectáculo é dizer palavrões? E quando a morte e a violência são espectáculo? E algumas imagens que, como diz a SIC notícias e bem, mostram que a realidade supera a ficção? Não será tudo isto pior que relatar uns meros palavrões?

  3. Sónia Duarte diz:

    Nem cócegas, nem pruridos, nem urticária… 🙂 Uma pele bem protegida sabe como defender-se e não é com a superfície das coisas que nos devemos preocupar. O texto jornalístico não é espaço natural para os palavrões, mas menos ainda para a censura dos mesmos, sobretudo quando estes fazem parte da notícia. Com um “livro de estilo” destes, como trabalhar o léxico escatológico numa conferência ou artigo científico sobre esse mesmo tema? Imaginam o ridículo da situação?

  4. Rui Gomes diz:

    Pois João, disseste bem, pagam para ver… ora, as notícias não cabem nesse universo, embora tenhas sempre a possibilidade de mudar de canal mas de qualquer forma, são situações incomparáveis na minha maneira de ver…
    Seja como for, no meio desta discussão, saudável e salutar, não foquei um ponto, que é a minhas total repugnância pelo acto em si… Por mais que as pessoas estejam revoltadas, e com certeza, têm os seus motivos, nada justifica a má-educação. E se nós a usamos no dia-a-dia João, cada um sabe de si pois somos adultos, agora diferente é quando ocupamos cargos de responsabilidade social e sabemos estar a ser vistos por um país inteiro. Aí temos uma responsabilidade extra, não só perante a nossa pessoa mas aquelas que nos rodeiam. Para além disso, uma pele protegida sabe como defender-se sim mas teremos todos essa capacidade? Será que um adolescente ou mesmo uma criança, sabe fazer a destrinça? Ficam as pergunta no ar….

  5. João Sá diz:

    Rui, concordo que seria melhor que estas situações (má educação) não acontecessem. São a forma que algumas pessoas encontram para exteriorizar o desespero. Oxalá conseguissem encontrar outras formas. Tal como tu, não acho admissível. Apenas estou a dizer que compreendo.

    Adiante, o meu ponto de discussão não era esse. Referia-me apenas ao jornalismo. Eu quero que o jornalismo seja objectivo, claro e verdadeiro. Se aconteceu a maior barbaridade (infelizmente), então quero saber que ela aconteceu sem rodeios. Isso para mim é informação (leia-se, notícia) pura e dura. O resto é mistificação, filtragem, o que queiramos…

    Quanto às crianças, cabe aos pais e educadores estarem atentos e permitirem que vejam apenas aquilo para que estão preparados. Muitas vezes vêem coisas piores com a complacência de todos…

  6. A Rodrigues diz:

    Concordo com o Rui e a Sónia. Nada a acrescentar.
    Já agora João, seguindo o teu sentido de livre expressão, gostas que os teus alunos usem uma linguagem semelhante nas tuas aulas?

  7. João Sá diz:

    Aviso já que vou ser curto e grosso, sem faltar ao respeito – penso!

    A. Rodrigues, poupa-me.
    Tens a certeza que leste o que eu escrevi?

    Vou sublinhar duas frases minhas:
    1. “Tal como tu, não acho admissível.” (a falta de educação, naturalmente!!)
    2. “Eu quero que o jornalismo seja objectivo, claro e verdadeiro. Se aconteceu a maior barbaridade (infelizmente), então quero saber que ela aconteceu sem rodeios.”

    A propósito, deixo-te uma pergunta (ou duas).
    Preferes que te digam verdade(s) ou mentira(s)?
    Tens algum problema com a realidade, seja ela a mais bela ou a mais horrível?

  8. A Rodrigues diz:

    Há formas de apresentar as noticias sem alterar o seu conteúdo, tanto na forma escrita como na forma sonora. Isso não implica “mentir”
    Lembras-te dos célebres “bips” que eram comuns na TV?

    Ao divulgar uma linguagem menos própria na comunicação social apenas se está a “ensinar” o povo a seguir o mesmo exemplo.

    Logo eu não preciso de ouvir os palavrões quando vejo uma notícia para me aperceber da “realidade, seja ela bela ou horrível”.

  9. Sónia Duarte diz:

    Neste ponto da discussão uma coisa deve ter ficado clara; todos nos demarcamos da atitude ofensiva e brejeira dos manifestantes em questão.
    Sinto, no entanto, necessidade de regressar a alguns aspectos dos últimos comentários, sobretudo porque, em dois dos casos, há ligação directa com o que escrevi a respeito deste post.
    O Rui refere a responsabilidade acrescida no caso de desempenho de cargos públicos. Concordo, mas não se aplica, pois os manifestantes no seu conjunto são cidadãos “comuns”.
    Refere ainda o Rui a situação das crianças, para justificar que os leitores sejam preservados de palavras que possam ferir a sua sensibilidade. Admito que não ponderei essa situação, mas porque os jornais não se destinam a crianças e os conteúdos das notícias, independentemente da forma, podem (estando o mundo como está…) facilmente chocar qualquer adulto.
    O Rodrigues concorda comigo e com o Rui mas eu não concordo com nenhum dos dois: sou a favor de que os termos (bonitos ou feios) usados (bem ou mal) sejam fielmente reproduzidos.
    O Rodrigues pergunta ao João o que acha da situação de uso de palavrões pelos (seus) alunos. Sou professora de línguas os palavrões fazem parte dos conteúdos programáticos, pois é nossa tarefa educar os alunos para o seu reconhecimento e reconhecimento do seu contexto natural. Isso não significa integrá-los na comunicação espontânea entre alunos e professores ou enre alunos em sala de aula, mas não me passaria pela cabeça usar o lápis azul sobre os textos vicentinos ou fazer “bip” sobre um filme de Almodóvar…

  10. A Rodrigues diz:

    Sónia, usando as tuas próprias palavras. Gil Vicente e Almodovar não se aplicam porque estamos a falar de cidadãos comuns.
    Uma coisa é estar a leccionar uma obra, outra coisa é utilizar uma linguagem desadequada no discurso corrente.
    Os manifestantes não estavam a encenar nenhuma peça de teatro.

  11. Sónia Duarte diz:

    Não me refiro aos manifestantes. Refiro-me ao Jornal. “Usando as tuas próprias palavras” uma coisa é o contexto da rua (manifestação) e outra o contexto profissional (relato jornalístico).

  12. João Sá diz:

    A. Rodrigues, quem é a autoridade que define o que é linguagem adequada para o discurso corrente?

    Sobre os manifestantes parece que estamos todos de acordo. Não é esse o “ponto” da discussão.

  13. Sónia Duarte diz:

    João, a transcrição/relato do discurso de outrem em contexto jornalístico não é discurso corrente (não sei se há aí um equívoco…porque pareces estar também a falar dos manifestantes): é discurso corrente, calão, gíria, popular ou cuidado, consoante o discurso transcrito ou relatado. Pelo menos é assim que eu entendo o exercício de transcição/relato fiel e é assim que eu entendo o exercício profissional rigoroso e deontologicamente correcto.

  14. João Sá diz:

    Sim, Sónia. Precisamente.
    Quem é a autoridade que define a adequação ou não adequação da linguagem para o discurso corrente?
    Que eu saiba, nenhuma. E ainda bem! Há uma evolução mais ou menos natural, condicionada pelo meio

  15. A Rodrigues diz:

    “A. Rodrigues, quem é a autoridade que define o que é linguagem adequada para o discurso corrente?”

    Talvez devas fazer essa pergunta ao poder judicial quando condena alguém por insultos verbais. Em que se baseiam os tribunais para decidir o que é insultuoso ou não, já que não há nenhuma autoridade que o defina?

    Posso lembrar-te o que escreveste acima?

    ‘“Tal como tu, não acho admissível.” (a falta de educação, naturalmente!!)’

    Quem foi a autoridade que definiu o que é falta de educação?

    Achas que pelo facto de um conjunto de pessoas decidir utilizar termos menos próprios contra outra pessoa já faz disso linguagem corrente ou evolução natural?

  16. João Sá diz:

    Mas o poder judicial não está aqui em causa. Estas pessoas não foram condenadas, nem sequer acusadas na justiça.

    “Quem foi a autoridade que definiu o que é falta de educação?”
    Que eu saiba nenhuma. Trata-se apenas da minha opinião, e pretendia saber a tua ou se me falta alguma informação.
    “Falei” na primeira pessoa do singular. Não pretendo que seja regra. Mas não me inibo de dar a minha opinião. Já agora, ela resulta do senso comum (vamos discutir o que é isso do senso comum?).

    Não vamos divagar. Estávamos a falar das opções jornalísticas.

  17. Sónia Duarte diz:

    Já me começa a apetecer dizer uma asneira, meus caros… Quanto mais falamos, mais nos desentendemos, ou não? O que é preciso aqui é bom senso (entendido como sensatez, sentido da realidade e da adequação à mesma! Bom senso é a palavra chave! Bom senso e… “equilíbrio” 😉

  18. Sónia Duarte diz:

    * ou não

    ** à mesma)

  19. João Sá diz:

    Haja alguém que “introduza” aqui algum equilíbrio – quando ele falta! Será que foi o caso? (Não precisam de responder… é apenas retórica para reflexão.)

  20. Sónia Duarte diz:

    🙂

  21. […] às 14h48, onde se reproduziam os insultos de duas centenas de estivadores … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  22. […] há quem esteja atento a coisas como a recessão censurada ou os insultos omitidos. Há quem tenha estado atento a telejornais como o de dia 17 (vi o da SIC e o da TVI) que deram a […]

  23. Inês diz:

    não concordo a retirada dos insultos e asneiras pois elas devem continuar, gosto delas, quero-me tornar mal-educada como os outros, quero tentar ser como os outros

  24. Inês diz:

    eu amo e gosto do calão e gíria pois elas são usadas na minha escrita e na minha lingua quando falo sozinha é muito bonito falar assim: ter a língua popular do povo português de portugal

  25. Inês diz:

    dou mais valor ao calao e á giria

  26. Inês diz:

    eu sou do povo portugues de portugal portanto que ninguem se queixe com as minhas asneiras/insultos e agressividade

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