Da formação de professores

Recentemente, frequentei uma acção de formação para professores. Apercebi-me de uma perversidade que ainda não tinha dado conta.

As formações são muito diversas. Apesar de em alguns centros de formação existir uma selecção criteriosa, em que alguns candidatos ficam de fora, a candidatura depende, em grande parte, da vontade dos professores. Acontece que, com o actual estatuto da carreira docente, a avaliação desta formação entra na avaliação de desempenho, tendo, depois, consequências na progressão da carreira. Parece tudo bem? Vejamos.

Concretizando com um exemplo, consideremos um professor de informática. O centro de formação ao qual “pertence” oferece duas acções de formação: motivação de alunos com truques de word (normalmente têm nomes mais formais) e programação avançada em python (O que é isso?, dirão alguns. Ainda por cima avançada?).

Face a estas opções, o professor fica num dilema: escolho uma acção de formação fácil, onde não aprendo nada mas aplico o que já sei para obter uma boa classificação?; ou, por outro lado, inscrevo-me numa acção desafiante, que me pode enriquecer, que provavelmente até é dada por um formador sério e exigente que dificilmente atribuirá classificações máximas?

Quem escolheu a primeira, muito provavelmente fez também outras opções (como investir no portfólio, na encenação das aulas assistidas, nas relações com o poder – leia-se, avaliadores permeáveis -, que lhe permitirão ser (devo dizer parecer?) um professor “Excelente”.

Quem escolheu a segunda, muito provavelmente, também, fez outras opções de carreira (como não entregar objectivos individuais e concentrar-se naquilo que é essencial) que o condenarão, na melhor das hipóteses, a ser um “Bom” professor.

14 respostas a Da formação de professores

  1. A Rodrigues diz:

    “Apercebi-me de uma perversidade que ainda não tinha dado conta”

    Se fizeres um esforço apercebeste que esta perversidade está um pouco em quase todas as opções que temos de fazer na vida.

    Existe sempre o caminho da ilusão e o caminho da paixão ou vocação.
    Uns valorizam o ser enquanto outros valorizam o parecer. Frequentemente os primeiros saem prejudicados em relação ao segundos.

    Depois há os afortunados que, talvez por falha do sistema, seguem a paixão ou vocação mas acabam por ser valorizados.

  2. João Sá diz:

    Não é preciso grande esforço!… É verdade, e também não me parece haver dúvidas sobre qual o melhor caminho.
    O sistema pode promover um deles, contribuindo também para a desvalorização do outro, ou não?
    Não é preocupante quanto esse “sistema” faz a escolha errada e se recusa a ver (ou a assumir) o que é evidente?

    Quanto aos últimos que referes, são os felizardos. Isso não é falha do sistema. É o [pouco] que o sistema tem de bom.

  3. Sónia Duarte diz:

    “python”?!!? O que é isso?! Podia “googlar”, mas todos os leitores com o meu nível de ignorância teriam que fazer o mesmo… Parece-me mais honesto e solidário perguntar…

  4. Sónia Duarte diz:

    Simpatizo (a palavra “simpatia” etimologicamente é muito bonita…) com a tua indignação, João, mas o cenário é de especulação (“muito provavelmente… muito provavelmente…”) e tu podes fazer melhor do que isso…
    😉

  5. Sónia Duarte diz:

    Hoje estou um “cadinho” chata, não estou… ? Deixem lá a resposta…😉

  6. A Rodrigues diz:

    “Python é uma linguagem de programação […]
    A linguagem foi projetada com a filosofia de enfatizar a importância do esforço do programador sobre o esforço computacional. Prioriza a legibilidade do código sobre a velocidade ou expressividade.”

    De uma forma simples e popular, é uma seca.

  7. MAMFA diz:

    E quem escolheu a segunda, muito provavelmente fez também outras opções (como investir no portfólio, na “encenação” das aulas assistidas, nas relações com o poder – leia-se, avaliadores permeáveis (onde…) -, que lhe permitirão ser (devo dizer parecer?)(ou quem sabe pora ser!!) um professor “Muito bom ou Excelente”.

    mas, muito provavelmente, como quer fazer muitas coisas e bem, deve fazer tudo e mal, condenando-se a si proprio. E na melhor das hipóteses será, quem sabe um “Bom” professor.

  8. João Sá diz:

    Sónia, de forma mais terra-a-terra. O python é uma linguagem de geek. É recente e tem crescido muito no mundo do linux. É muito usada para criar programas de sistema e melhorar algumas distribuições de linux.

  9. Sónia Duarte diz:

    Eu acho que escolhia a “seca”…

  10. João Sá diz:

    Pergunta ao A. Rodrigues as que ele usou e usa e vais ver o que é uma seca…

  11. João Sá diz:

    MAMFA, claro que há mais variações e gradientes. Mas ficam identificados aqueles que me parecem ser os dois grandes grupos.

  12. João Sá diz:

    Sónia, obrigado pelo voto de confiança. Ainda bem que achas que posso fazer melhor. O objectivo é sempre melhorar e “crescer”.

    Quanto à especulação, não tenho direito a fazer um bocadinho? O que sou menos que os outros?
    Mas, admitindo que seja (apenas um bocadinho) de especulação, este é apenas mais um, a juntar a tantos outros, aspectos perversos do novo ECD e do modelo de avaliação de professores? Não há qualquer mecanismo para evitá-lo!
    Não deveria ser objectivo da formação promover o desenvolvimento [real] dos profissionais?

    Chama-me inocente, ingénuo ou outra coisa mais adequada, mas ainda não me tinha apercebido deste aspecto perverso. Provavelmente ainda existirão outros que desconheço. Esta foi a forma que me ocorreu para o exteriorizar.

    Continua a fazer sentido para mim. Talvez para a próxima consiga melhorar o estilo e a forma!

  13. Sónia Duarte diz:

    De nada!🙂

    Sim. Somos todos iguais é o que dizem “as más línguas”…

    Era uma pergunta?! Vou fazer de conta que não…

    Absolutely!

    Inocente! Acontece aos melhores…😉 Provavelmente… “Muito provavelmente”..😉

    Também para mim faz sentido, por isso a simpatia a que inicialmente fiz referência.

  14. […] formação de professores – parte 2 Depois deste meu post a propósito da formação de professores, encontro aqui o relato de um outro problema muito comum, […]

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