Nem sempre a realidade se pode pintar de cor de rosa

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Ao contrário do que muitos querem fazer parecer, procurando mistificar a realidade, ou de outros, que fazem por viver no seu pequeno mundo, esquecendo que existe vida para além da sua redoma, de vez em quando, a realidade – aquela para a qual ainda não desenvolveram imunidade e/ou insensibildiade – entra-lhes pela porta.

Diz o Público:

Maioria não usufrui do total das baixas médicas

Um total de 61,9 por cento dos portugueses não consegue pagar uma semana de férias fora de casa sem ficar em casa de familiares. E metade (50,9 por cento) não usufrui do período total de baixa médica sem ter que fazer grandes restrições ao orçamento familiar.

Estes dois dados são alguns dos que os investigadores mais destacam nas conclusões do estudo Necessidades em Portugal como indicadores de privação. Há ainda um número significativo (13,4 por cento) de pessoas que admite não conseguir comprar todos os medicamentos de que necessitam.

Dados como estes estão de acordo com o o risco de pobreza em Portugal, destacam as conclusões. Um total de 59 por cento dos inquiridos afirmou que não fica com dinheiro de sobra depois de pagar as despesas fixas. E só sete por cento afirmam que conseguem poupar mais de 25 por cento do rendimento.

Estes indicadores de privação, destacam os investigadores nas conclusões do estudo, “demonstram o alargamento da exposição à vulnerabilidade, afectando grupos bastante diversos”. E fazem sobressair nos grupos mais vulneráveis “necessidades mais ligadas ao ter do que ao ser”.

Nada de estranhar num país onde mais de metade (57 por cento) da população tem um orçamento familiar inferior a 900 euros. Olhando o gráfico do rendimento líquido mensal pelo outro lado, apenas 17,5 por cento dos agregados têm rendimentos superiores a 1500 euros.

Portugal continua a ser, por isso, um país onde a maioria associa as suas necessidades a questões físicas e de recursos: rendimento, emprego, acesso à saúde, transportes e acessibilidades. E em que uma parte significativa da população continua “preocupada com a sua sobrevivência” e com “dificuldades em assegurar algumas condições de vida básicas”.

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13 respostas a Nem sempre a realidade se pode pintar de cor de rosa

  1. Sónia Duarte diz:

    Não dá para pôr aqui uma função “gosto” como aquela que existe no Facebook. É que às vezes está mesmo tudo dito e só quero dizer isso!

  2. A Rodrigues diz:

    Este post lembra-me uma discussão que tive em tempos com o João em que eu lhe dizia que estas são as pessoas que necessitam de manifestações e greves.
    No entanto são exactamente estas as pessoas que não têm condições de as fazer sob o risco de perderem a única e escassa fonte de rendimento.

    Eu fico indignado quando se fazem manifestações ou greves em defesa de pessoas que ganham milhares de euros por mês, ou quando está em causa uma misera diferença de 1% ou 2% de aumento salarial.

    Não vejo os sindicatos marcarem greves gerais em defesa dos 57% de cidadãos que ganham menos de 900 euros.

  3. João Sá diz:

    Concordo com a tua primeira frase (mais uma vez avalias-me com as variáveis erradas)! 😉
    Vou insistir: deixa de me aplicar os velhos preconceitos na leitura que tentas fazer das minhas posições! 😉

    À parte disso, a que propósito vêm os sindicatos para este tema? O sindicalismo tem, por natureza, como objectivo defender os interesses de uma classe profissional.
    Acho que há aqui uma concepção errada do que é o sindicalismo e, por outro lado, uma associação e uma generalização implícitas sobre o que tem sido a actuação visível de muitas organizações sindicais.

    Adiante, se falarmos noutras forças políticas, como os partidos, aí já compreendo a relação. Acontece que, as forças políticas que procuram combater as desigualdades sociais fazem-no até muito intensamente com os meios que têm. Poderemos a seguir discutir a eventual demagogia de algumas posições, mas isso também é outra discussão. Por outro lado, as forças políticas que têm tido o poder, têm feito muito pouco neste domínio. Quando fazem, é quase sempre para parecer bem, sem se preocuparem em resolver os problemas de fundo. Outras vezes, procuram simplesmente mascarar a realidade.

  4. João Sá diz:

    Quero acrescentar ainda duas coisas, pois o combate às desigualdades sociais não cabe apenas ao poder político, embora este tenha grande responsabilidade.
    Para além disso, seja a que nível for, não defendo uma lógica de caridade que, algumas vezes – nem sempre, é feita por algumas instituições religiosas.
    Existem outras organizações, uma religiosas e outras independentes, que têm dado um contributo notável no que respeita à solidariedade social. Ainda há poucos dias foi noticiado que uma ?paróquia? tinha adoptado medidas para promover o emprego a quem dele necessitasse.
    Depois, há as pequenas acções individuais que têm, em minha opinião, repercussões a todos os níveis. Se formos solidários no dia-a-dia, isso gera mais solidariedade. Se formos caridosos, isso pode gerar acomodação, distanciamento, e outras coisas ainda piores.

  5. A Rodrigues diz:

    “Vou insistir: deixa de me aplicar os velhos preconceitos na leitura que tentas fazer das minhas posições!”

    Desculpa?
    Eu disse: “Este post lembra-me uma discussão que tive em tempos com o João”.
    Onde é que no meu texto existe alguma outra referência à tua pessoa? Parece-me que tu é que lês (leste) com preconceitos. Ou não terá sido “trauma da perseguição”?

    “O sindicalismo tem, por natureza, como objectivo defender os interesses de uma classe profissional. […] Acho que há aqui uma concepção errada do que é o sindicalismo […]”

    A noticia fala de rendimentos. Rendimentos para a maioria dos cidadãos, especialmente estes cidadãos, advém do seu trabalho. Trabalho implica classe profissional (a não ser que entendas como classe profissional apenas os senhores doutores) e classe profissional implica sindicatos.
    Está tudo interligado.

    “Adiante, se falarmos noutras forças políticas, como os partidos […]”

    Foste tu que fizeste a ligação. Eu não pensei em nenhum momento em associar sindicalismo com partidarismo.
    Mas concordo em absoluto com o teu ultimo parágrafo.

    Definitivamente acho que interpretaste mal o meu comentário.

  6. João Sá diz:

    🙂
    “Trauma da perseguição”? Não me parece, não cola comigo.
    Quando à leitura, quem sabe se não foi a minha a enviesada e a tua posição mudou entretanto. Próximas conversas (de ambos) o dirão… 😉

    Gostei da parte “lês (leste)”. Reli novamente e, realmente, pode ter outro sentido! Nem sempre estou ao meu melhor nível! 😉

    “a não ser que entendas como classe profissional apenas os senhores doutores”
    Recuso-me a comentar. Se calhar tenho de rever o que escrevi no parágrafo anterior (nomeadamente quanto às leituras possíveis…)!

    “A noticia fala de rendimentos. Rendimentos para a maioria dos cidadãos, especialmente estes cidadãos, advém do seu trabalho.”
    Será? E os que subsistem com reformas ou subsídios?
    Mas para os que trabalham:
    (1) há aqueles que recebem um salário, fruto do seu trabalho, e que continuam pobres.
    (2) há aqueles que recebem um salário aceitável e, eventualmente justo, mas que produzem para que outros (3) ganhem muito mais. Estes (3) que, muitas vezes, recebem salários e outros benefícios escandalosamente altos, o que não corresponde à sua produtividade ou ao valor que geram, podendo este “exagero” ser distribuído de forma a gerar maior igualdade. Claro que a estes (3), não lhe interessa e fazem por manter tudo como está ou por aumentar a sua posição dominante.
    Agora sim, entrando na associação que fizeste inicialmente, os que normalmente se manifestam são os “do meio” (2). Destes (2), uns (2.1) manifestam-se porque querem ser como os últimos (3), outros (2.2) porque lutam por um mundo de maior equilíbrio em que a distribuição de riqueza permita reduzir (e no limite eliminar) as desigualdades.

    “Foste tu que fizeste a ligação. Eu não pensei em nenhum momento em associar sindicalismo com partidarismo.”
    Nem eu (ai as leituras!). Estava a associar poder político a condições sociais. O sindicalismo ficou de fora nesse comentário. Os partidos vieram porque dominam a cena política actual.

  7. Sónia Duarte diz:

    Começo a achar piada a ser só espectadora destes diálogos… eu também noto certa evolução no discurso do Rodrigues, desde que comecei a acompanhar este blog, faz já uns meses.
    Seja como for, não resisto a uma ou duas perguntitas/comentários:

    1) “Não vejo os sindicatos marcarem greves gerais em defesa dos 57% de cidadãos que ganham menos de 900 euros.”

    Mas se as greves gerais marcadas são gerais não foram para a maioria dos trabalhadores ou seja para os que ganham abaixo desse valor?

    2) Acerca dos “doutores e engenheiros”… Não há aqui algum preconceitozito?

    A maioria dos sindicatos filiados na CGTP, pelo menos os mais activos não são precisamente sindicatos de “doutores”, mas também aí não há que ter preconceitos ou maniqueísmos… Há licenciados, mestres e doutorados filiados nos metalúrgicos (por exemplo) e a ganhar uma miséria em situação precária , e operários sem formação superior a ganhar bastante mais que os “doutores”. Disto tudo a única coisa que acho mal é haver gente a ganhar muito mais que outra e gente que não pôde (por injusta distribuição da riqueza) ter a formação que queria independentemente daquilo que faz: dançar, gaspear, dar aulas ou gerir dinheirinho – dos outros, normalmente… 🙂

  8. A Rodrigues diz:

    Sónia, gostei do ponto 1. As greves gerais deveriam ser gerais. Mas infelizmente não são. Nem ao nível dos participantes, nem ao nível dos sindicatos envolvidos. Na realidade nunca vi uma greve geral.

    Quanto ao ponto 2 deixa-me destacar que os parêntesis foram em resposta ao João por limitar a actuação dos sindicatos às classes profissionais. Eu combato determinantemente essa visão. Acho que um sindicato que olhe apenas para o seu umbigo ignorando quem tenha condições precárias por estar fora da sua “classe” é pura hipocrisia. Um sindicato é um sindicato. Um sindicato que representa apenas uma classe não é um sindicato, é um clube.

    Já agora como desabafo e para encerrar este assunto, o João não só interpretou mal o meu comentário inicial, como tentou colocar neste e no seguinte palavras ou ideias que nem sequer me passaram pela cabeça.

    Mas parece que nenhum de nós está mesmo ao melhor nível.

  9. João Sá diz:

    “Na realidade nunca vi uma greve geral.”
    Porque será? Se ela é geral, é aberta a todos. Só não participa quem não quer. Claro que há aqueles a quem não interessa participar e há os outros que por comodismo ficam em casa.
    Também há os indecisos, os desinformados, os apáticos! É a diversidade humana. Ainda bem que é assim.

    Sobre o que são ou o que deveriam ser os sindicatos, discordo da tua visão. Numa sociedade ideal, não seriam necessários nem sindicatos, nem polícias, nem advogados, nem uma série de outros profissionais e instituições. Mas a sociedade [ainda] não é a ideal (:) sim, sou utópico, e então?).

    Como a sociedade não é a ideal, os sindicatos são necessários. Assim, acho que os sindicatos devem ser sensíveis aos problemas das outras classes, devem procurar arranjar soluções de consenso e que não prejudiquem o outro, mas não podem assumir atribuições que não são suas. E não confudamos isso com clubismo. Não precisamos de clubes para viver nem os clubes se relacionam directamente com o sistema produtivo (quer dizer, alguns talvez precisem… e de sindicatos também! har har har).
    Sobre isto, e sobre os sindicatos irem para além do seu “domínio”, tu próprio respondeste num comentário a um post anterior:

    “Será eficiente ou possível conciliar diferentes sindicatos representando a mesma classe de trabalhadores dentro da mesma empresa? Infelizmente é o que se passa nalgumas grandes empresas e o resultado é uma guerra entre sindicatos e entre trabalhadores.”

    Apesar de quereres encerrar o outro assunto, deixo uma provocação: será que tentei colocar palavras ou ideias que não passaram pela tua cabeça? (Espero que sim, mas o tempo responderá a isso.)

    Sim, nenhum de nós esteve ao melhor nível. Que humildes que hoje estamos (os dois)! É uma virtude. 🙂
    Não é [também] por isso que aqui discutimos – para melhorar o nível?

  10. A Rodrigues diz:

    Pois, parece que ficaste baralhado com o comentário que citaste. Mas repara que se refere a uma situação diferente. Diferentes sindicatos a defender a mesma classe. E não mesmo sindicato a defender o interesse de outras classes (menos afortunadas).

    Portanto segue a minha linha de pensamento, que é o de me opor a sindicalismo por classes. Portanto discordo da tua visão de sindicalismo, embora a respeite.

    Apenas como curiosidade, a Wikipedia refere-se à história dos sindicatos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Sindicato) da seguinte forma.

    “[…] durante a revolução industrial na Inglaterra, os trabalhadores, oriundos das indústrias têxteis, doentes e desempregados juntavam-se nas sociedades de socorro mútuos.
    […]
    Nos Estados Unidos, o sindicalismo nasceu por volta de 1827 e, em 1886, foi constituída a Federação Americana do Trabalho (AFL), contrária à reforma ou mudança da sociedade. Defendia o sindicalismo de resultados e não se vinculava a correntes doutrinárias e políticas.”

    Repara bem em “sociedades de socorro mútuos” e “não se vinculava a correntes doutrinárias e políticas”.
    Isto faz transparecer que os sindicatos nem sempre estiveram vinculados a classes profissionais.

  11. Sónia Duarte diz:

    Acho que a apreciação de que “nenhum de nós esteve ao melhor nível” aplicava-se aos três: pelo menos eu também não me ponho de fora… 🙂 Tenho a sensação de que estamos a andar às voltas, porque usamos as palavras dando-lhes cada um uma acepção diferente, mas no fundo queremos dizer o mesmo… Como estou “fraquinha” recorro aos “clichês” de sempre para explicar o que penso disto (sindicalismo e classe profissional):

    Hino da CGTP

    “Operários vangarda do Povo
    Camponese que a terra lavrais
    Libertai-vos do jugo para sempre
    É o Povo quem vós libertais

    Unidade, unidade, unidade
    Do trabalho contra o capital
    Camaradas lutemos unidos
    Porque é nossa a vitória final

    Norte a Sul vinde trabalhadores
    Pescadores não fiqueis para trás
    Avançai sem medo na luta
    Pelo pão, pelo trabalho, pela paz

    Unidade, unidade, unidade
    Do trabalho contra o capital
    Avançai sem medo na luta
    Pelo pão, pelo trabalho, pela paz

    (…)

    Unidade, unidade, unidade
    Do trabalho contra o capital
    Avançai sem medo na luta
    Pelo pão, pelo trabalho, pela paz”

    A letra e música são inspiradas num romance lindíssimo do sec. XIX (falando em revolução industrial…) do qual há uma excelente interpretação do Luis Cília num álbum do mesmo nome: “o Guerrrilheiro”, Editora Orfeu, 1974. Para mim 1974 cresce, mas não passa de moda… e que passasse! Há coisas mais importantes do que as modas…

    🙂

    CGTO -UNIDADE SINDICAL!!!

  12. João Sá diz:

    Andamos todos baralhados! Deve ser necessidade de férias. 😉
    Continuo a achar que o sindicalismo faz sentido como defesa de classes, o que não implica, como disse, a insensibilidade ou o comprometimento de outras classes. Para além disso, como disse também, preferia que o sindicalismo não fosse necessário.

    Quanto aos teus excertos, foste “maroto”. Esqueceste as partes que não te convinham:

    “Sindicato é a instituição utilizada para a organização dos trabalhadores na luta por seus direitos.
    (…)
    No Brasil os sindicatos tem um papel de representar as classes de trabalhadores.”

    Para além disso, se procurasses noutras fontes, verificavas que na origem dos sindicatos está a divisão em duas grandes classes: os exploradores e os explorados, correspondente à burguesia e ao proletariado. Hoje a sociedade e as relações de trabalho são mais complexas, por isso, e devido às especificidades de cada profissão e das relações de poder em diferentes sectores, é necessária uma compreensão profunda da actividade profissional para exercer um sindicalismo eficaz.

  13. Sónia Duarte diz:

    São mais complexas as relações de exploração, mas explorar cada vez é mais fácil… 😦

    Ora bolas!

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