Tensões acumuladas

Desde há alguns meses que, em conversas informais, adoptei expressões como “as tensões estão a acumular-se” ou “há tensões acumuladas”. Não o fiz intencionalmente. Estas expressões surgiram naturalmente da percepção que vou tendo sobre diversas contextos sociais. Reparei nelas após reflectir sobre o que digo e como o digo.

A propósito de um caso que tem sido notícia nos últimos dias, o do bairro da Bela Vista em Setúbal, destaco este parágrafo:

(…)

A tensão andava a acumular-se, subterrânea, por todo o bairro. Sentia-se no ar, irrompia nas conversas de café. Alimentava-se do desemprego, da falta de dinheiro, do desleixo das casas, do cheiro a abandonado, da sujidade das ruelas, das oportunidades há anos prometidas para o mês que vem. Os habitantes cada vez mais fartos de esperar. Por um emprego, por uma reacção diferente de cada vez que dizem viver na Bela Vista. Quando a crise se instalou no país, o bairro já vivia em crise. Crise somada a crise, o resultado era fácil de prever. Um dia, a violência voltaria a explodir. “Isto vem por ciclos. Estes jovens não iam conseguir lidar com a pressão”, diz Carla Marie Jeanne que dirige o Centro Cultural Africano na Bela Vista. “Vivo sentada em cima de um vulcão”.

(…)

Facilmente se observa a coincidência, deduzindo-se porque destaco este parágrafo! Não tenho uma visão dramática, e muito menos fatalista, desta(s) situação/ões. Mas estou pessimista. Pessimista, de um pessimismo que não me faz perder a esperança. Acredito que estes problemas têm solução. Uma solução que tarda em chegar e que, acredito, não chegará enquanto tivermos um poder político que optou por se divorciar ou, talvez – não sei bem, por mascarar a(s) realidade(s).

3 respostas a Tensões acumuladas

  1. A Rodrigues diz:

    Tensão “acumulada”. Se existe tensão então algo está acumulado. A tensão não se acumula. A tensão é o fruto da acumulação de forças.

    Relativamente à notícia, se a tua generalização está correcta, já a notícia em si não o estará. A criminalidade não é fruto das más condições sociais, senão todos os pobres seriam criminosos e os ricos nunca o seriam. A criminalidade é fruto da educação, de padrões sociais e até de cultura.

    O João colocou aqui em tempos uma pequena história de um casal a vender esferográficas. Este é o exemplo claro de que a tensão não gera criminalidade.

  2. João Sá diz:

    A tensão está presente em várias situações. Por exemplo, um elástico esticado está em tensão. Penso que se poderá falar em tensão acumulada. De qualquer modo seria interessante ter o comentário de um “tipo” (ou “tipa”) de física. A tensão é o estado do que está tenso. Tensão esta que pode ser libertada.

    Concordo que a criminalidade (e há muitos tipos de criminalidade) pode ter várias origens e/ou motivações. Mas parece-me que o tipo de criminalidade que tem vindo a aumentar nos últimos tempos se deve muito, ou pelo menos é despoletada (a gota de água), ao desespero de alguns e ao facto de outros já não terem nada a perder.

    Também concordo que muita da criminalidade se deve à educação (ou falta dela), ao ambiente social e cultural.
    Ainda a propósito disso, e porque, ontem, acabei por comprar o jornal i em papel, vou publicar um post sobre uma coisa interessante que a edição em papel referiu…

  3. […] A propósito do meu post anterior, e porque ainda não tinha lido o novo jornal i em papel, que já vai no número 4, […]

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