Sim, grande chefe

“Sim, grande chefe”, deve ter sido a resposta da ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues (MLR), ao grande primeiro ministro José Sócrates quando este se lembrou que podia cumprir mais uma promessa anunciada no programa do governo. Refiro-me ao alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano. Afinal, era ela que dizia em Setembro passado que esse alargamento seria um erro… Mas em 7 meses (logo sete) muita coisa muda!

Já que os 150 mil empregos ficaram pelo caminho, que os 300 mil idosos a retirar da pobreza se ficaram pelos 192 mil, que o inglês para todos foi cumprido mas à margem do currículo e sem avaliação (para não referir a precariedade dos professores), que o cartão único está aí mas eu ainda não o tenho nem conheço ninguém que o tenha, vamos lá cumprir esta que até serve para castigar as escolas, os professores e os alunos que querem um ensino sério e a sério.

Mas mudando de tónica sem abandonar o tema, na notícia áudio dada pela TSF, MLR diz o seguinte:

“Eu não consigo entender porque é que a qualidade tem que ser inimiga da quantidade.”

Certo. Concordo e parece-me consensual.

Mas MLR disse logo a seguir:

“Nós produzimos, por exemplo, jaguares em grande quantidade e são todos de óptima qualidade.

Não é por produzirmos mais um ou mais dois que eles pioram a sua qualidade.”

Errado! Esta afirmação (e o pensamento que revela) é inaceitável em alguém que ocupa o cargo de ministro(a) da educação(a) pois mostra uma tremenda insensibilidade para o que é a escola. Produzir parafusos (ou jaguares) não é o mesmo que formar pessoas. Uma escola não é uma fábrica. Se numa fábrica podemos substituir uma máquina ou um tapete rolante por outros mais rápidos, quando falamos de pessoas isso não acontece. Mas é este o espírito que está por detrás de praticamente todas as medidas deste governo, não apenas na educação.

Claro que é desejável e deve ser um objectivo de todos alargar a escolaridade. Mas não com ilusões nem medidas meramente administrativas (ou legislativas). Obrigar alguns alunos a permanecer na escola durante mais três anos significa acender um fósforo num barril de pólvora. Só quem não vive de perto determinadas realidades não compreende isso. Infelizmente, para muitos alunos, pelas mais variadas razões, a escola não lhes diz nada. É isso que é preciso mudar. Depois de preparar as famílias e o ambiente social, de valorizar a escola e os professores, aí sím, será possível alargar a escolaridade com sucesso. Obrigatória ou não, pouco importa.

10 respostas a Sim, grande chefe

  1. Sónia Duarte diz:

    Se entendi bem, concordando com a argumentação (“Uma escola não é uma fábrica.”; “Infelizmente, para muitos alunos, pelas mais variadas razões, a escola não lhes diz nada. É isso que é preciso mudar. Depois de preparar as famílias e o ambiente social, de valorizar a escola e os professores, aí sím, será possível alargar a escolaridade com sucesso.”) e a posição de fundo (“Obrigatória ou não, pouco importa.”), concordo com o alargamento da escolaridade obrigatória). Não sendo o ideal, parece-me um mal menor, num contexto social de desigualdade em que os “direitos” só se tornam universais e o Estado só assume as suas responsabilidades quando aqueles são “obrigatórios”.

  2. João Sá diz:

    Mas não vai ser um mal menor, sabes porquê? Porque mais 30 mil alunos nas escolas secundárias, com as mesmas condições e com o mesmo número de professores, não vai diminuir as desigualdades. Muito pelo contrário. As escolas públicas vão prestar um pior serviço (senão muito pior) e quem pode aceder a um ensino de qualidade fá-lo-á, os restantes terão o 12º ano no papel e pouco mais.

  3. A Rodrigues diz:

    1) Eu tenho cartão único, aliás, “Cartão de Cidadão”, e conheço quem também o tenha. Para o ter basta ir à loja do cidadão, pedir e pagar.
    João, como me sinto orgulhoso de ser a primeira pessoa que conheces que tem Cartão de Cidadão. 😉

    2) Nós não produzimos Jaguares. VWs sim, quando a fábrica não encerra a produção. E os Jaguares não são produzidos em quantidade. A produção é limitada.

    3) Concordo em absoluto com o João. Alargar a escolaridade obrigatória não tem grande impacto no sucesso escolar. As famílias com poucos recursos já sofrem imenso para manter os filhos a estudar. O alargamento da escolaridade obrigatória vai simplesmente aumentar o abandono escolar se não se resolverem os problemas de fundo. Mais importante do que obrigar os alunos a permanecer mais anos na escola é incentivá-los a estudar e a prosseguir a sua formação escolar para além do obrigatório, mesmo que em regime pós-laboral (trabalhador-estudante).

  4. João Sá diz:

    1)🙂 Também hei-de ter, só não sei quando, até porque no centro de saúde disseram-me que já não emitem o cartão de utente… Vem “acoplado” ao “cartão do cidadão”. Pronto, agora já não posso dizer que não conheço ninguém.

    2) Mas foi o que ela disse. O registo áudio está disponível no link…

  5. Norberto Costa diz:

    Voltando à escolaridade obrigatória até aos 18anos, ou até ao 12º ano.

    Esta medida é um desafio à inteligência neste ano de eleições!

    Senão vejamos.

    Após todos desafios que este governo fez na educação nestes últimos anos, segundo a mesma fonte, que tudo foi bem analisado, legislado, executado, e com bons resultados nos alunos (sem comentários), como pode esta nova medida ser bem planeada e analisada se dois terços das escolas estão a sofrer grandes remodelações físicas, segundo o actual sistema de escolaridade obrigatória, como são as EB 2º e 3º ciclos?

    O sector da construção civil português ainda é demasiado lento para acompanhar as exigências dos politólogos visionários que nós temos?

    Se calhar está aqui o nosso calcanhar de Aquiles, porque exemplos não nos faltam, como são os TGV´s, aeroportos em tudo o que é sitio, pontes, enfim…

    Que venha tudo agora, senão a partir de 2013 as vacas começam a emagrecer… Mas até lá, logo se vê…

  6. […] A propósito deste meu post, onde referi a comparação que a ministra da educação fez entre os alunos e os automóveis da […]

  7. Beijokense diz:

    O antigo serviço militar obrigatório vai ser substituido pelo serviço escolar obrigatório.

    Há duas diferenças fundamentais entre estes serviços compulsivos:
    1. O militar era mais barato e produzia melhores resultados de aprendizagem.
    2. No militar a instituição fornecia as armas; no escolar, cada um tem de as levar de casa.

  8. Nuno diz:

    Só uma pequena contibuição para alimentar a discussão desta temática:

    “Até ao 12.º?! Não é verdade!”
    24.04.2009, Graça Barbosa Ribeiro

    a De mochila às costas e mãos enfiadas nos bolsos, Miguel Reis flecte ligeiramente as pernas e roda sobre si mesmo, como se tivesse apanhado um murro. “Obrigatório?! O 12.º ano? Não é verdade!!!”.
    Sob o degradado resguardo da paragem de autocarro já estavam alunos do 8.º ano do Agrupamento de Escolas de São Silvestre, do concelho de Montemor-o-Velho, que riem: “Verdade p’ra ti, puto! P’ra nós não!”
    Apesar de todos serem repetentes e de terem quase a mesma idade, só Miguel, que está quase a fazer quinze anos, não ultrapassou a fronteira do 6.º ano, apanhando, em cheio, com o alargamento da escolaridade obrigatória. Ainda resmunga que está farto da escola. Mas rapidamente reage ao gozo dos colegas, erguendo a cabeça com um gesto que não faz tremer o cabelo penteado em crista: “E o que é que tem? Na booooa! Para o ano vou para Montemor e em dois anos faço um curso de informática que me dá o 9.º ano. Mais um ano de outro curso qualquer e dão-me o 12.º”. E vira as costas.
    Os outros não respondem. Quando chegaram à paragem, também eles reagiram à notícia com indignação: “Afinal há liberdade ou não há!?”, perguntara pouco antes Filipe Silva, de 14 anos. E os outros tinham feito coro, apesar de acabarem por reconhecer, um a um, que embora tenham chegado ao 8.º ano com dificuldades (frequentam uma turma com percurso curricular alternativo, destinada a alunos com dificuldades de aprendizagem ou de comportamento) todos querem, depois do 9.º, fazer cursos profissionais com equivalência ao 12.º. Para quê? Um a um, também, todos encolhem ombros.
    Filipe Silva, que caminha de um lado para o outro, inquieto, explica que “hoje ninguém tem emprego sem o 12.º”. Cristiano Cortesão, um ano mais velho, também no 8.º, concorda, mas não deixa de contrapor que “nem assim” o emprego está garantido. Nuno Pascoal, que por ter 16 anos até podia deixar já a escola, também quer fazer um curso profissional, mas não tem ilusões: “Há muita gente com cursos da universidade sem trabalho”, murmura, lá do murete de betão onde se deitou.
    São 17h30. Um toque longo anuncia a invasão da paragem junto à escola de quase trezentos alunos situada na aldeia de São Silvestre, no Baixo Mondego. “‘Tás em que ano?!”, vão perguntando os mais velhos, ansiosos por dar a notícia. Marina Silva, de 12 anos, e Rafaela Gonçalves, do 5º, abrem a boca de espanto: “É um exagero!”, exclama a primeira. Mas não por causa delas: ambas querem ir para a universidade.
    Inês Macedo, com a mesma ambição mas já com 14 anos de idade e o 9.º ano quase feito, tem uma opinião semelhante: “O Governo não ganha nada em manter as pessoas na escola contra a sua vontade. Nem aprendem nem fazem o que querem e com 16, 17 e 18 anos, já têm o direito de decidir o que querem fazer da vida”, diz.

    In Público – 24-04-2009

  9. João Sá diz:

    Beijokense, desafortunadamente para nós e para as próximas gerações essa ironia tem algo de real. Mas ainda há esperança. Esperança essa que depende muito do que cada um de nós fizer.

    Nuno, obrigado pelo contributo. Aí está um exemplo da realidade a que me refiro… Infelizmente o poder político está (ou quer estar) distanciado dessa realidade.

  10. […] a Jaguar Depois de ter escrito isto e isto, ainda escrevo […]

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