Até o WC educa

wcOntem, ao final do dia, entrei num WC destinado aos alunos. Normalmente frequento o WC mais próximo, sem me preocupar se está etiquetado “para alunos”, “para professores”, “para funcionários”, “para visitantes” ou para qualquer outra individualidade! Para mim todos se destinam a pessoas.

Nesse WC, dessa escola (não interessa qual, até porque agora que parei para pensar no assunto relembro já ter observado o mesmo noutras), reparei que praticamente todos os cantos tinham teias de aranha. Pelo aspecto e tamanho das ditas, dificilmente alguma terá sido retirada nos últimos meses, ou talvez mesmo anos. Mas nem só teias de aranha caracterizam estes espaços. Pinturas em paredes, portas e janelas são assíduas. Papel higiénico e sabão (ou sabonete) são elementos estranhos. Não me alongo no verbo sobre a necessidade de reparações em sanitários e canalizações que, em alguns casos, são urgentes. Quanto ao cheiro também não arrisco mais palavras. Considerando o tema, as minhas escassas aptidões literárias não me permitirão escrever muito mais sem cair na vulgaridade.

Não tendo intenção de fazer um levantamento sobre as necessidades das instalações sanitárias, pretendo chamar a atenção para o efeito que estes descuidos têm na educação dos jovens. É que o WC é apenas um exemplo. Os sinais encontram-se noutros locais e situações. O que sente alguém num WC limpo e cuidado? E o que sentirá noutro que transpira descuido e desinteresse?

A escola, antes das avaliações, dos directores, das lutas de poder, dos palcos de protagonismo e de tantas outras coisas é um espaço de pessoas, onde muitas dessas pessoas são especiais – estão em formação!

A minha experiência não é representativa mas, infelizmente, são poucas as escolas que conheço onde o cenário é diferente. Conheço outras onde o cenário não se resume às instalações sanitárias dos alunos, mas onde visitas ministeriais motivam limpezas profundas e apressadas. Isto também é a nossa educação.

8 respostas a Até o WC educa

  1. A Rodrigues diz:

    5 pontos
    ops, este blog não permite premiar os temas.
    Quero eu com isto dizer, nota máxima ao tema. Apreciei imenso.

    Esta é uma daquelas situações que ninguém imaginará existir se não a testemunhar. WCs para alunos e professores. Uns com cheirinho a camomila outros com …
    (os pormenores ficam para o João).

  2. João Sá diz:

    Obrigado, se não forem 5 pontos numa escala de 0 a 10 ou noutra ainda mais larga.🙂

    Mas olha que as diferenças entre WCs para professores e WCs para alunos não são tantas assim, pelo menos em algumas escolas. Há situações onde as condições até são idênticas.

    Por mim, só defendo dignidade para todos.

  3. Sónia Duarte diz:

    Quando fui pela primeira vez dar aulas para a minha actual escola, fui ao quarto de banho das alunas. O espaço estava limpo, mas não havia papel higiénico. Pedi-o. Uma funcionária, que já lá não está, respondeu-me que o papel “tinha que se pedir” e que era para os “deficientes”… Eu respondi: ” e para os professores…” Não me saí bem: acabei por expor mais a diferença/hipocrisia de tratamento do que o absurdo de tudo o que ela disse. A funcionária confundiu-me com uma aluna, mas o problema não está aí, mas sim em que, se não me tivesse confundido, a resposta continuaria a estar mal, mesmo que não a tivesse verbalizado… Foi uma situação pontual, não representa a prática da generalidade dos funcionários daquela ou de outra escola, mas não é por serem pontuais que estas situações são menos graves. Concordo totalmente: “até o WC educa”, como educa o facto de na mesma escola haver um bar para alunos e outro para professores…
    Hoje esta funcionária já lá não está e já não me confundem com uma aluna, mas eu continuo a ir às casas de banho das alunas, sobretudo no turno da noite, admito (acho mais justo: as miúdas também não podem ir às das professoras)… A diferença maior é que hoje já não prefiro a das professoras (vou ser menos púdica que o João) e prefiro usar lenços ao papel higiénico que aí existe. As das alunas estão mais limpas, as descargas funcionam e o cheiro não é tão nauseabundo mas em ambas o papel anda às vezes aos caídos pelo chão. O problema (exceptuando o caso do papel) não é aqui (tanto) uma questão de educação, mas de instalações e está a ser resolvido. Note-se, no entanto, que é à custa de ninguém chamar a inspecção de saúde – denunciando as fracas condições de higiene e segurança no trabalho – que os alunos continuam a ter aulas. É que “até no WC se trabalha”…

  4. A Rodrigues diz:

    Sim Sónia, no WC também se trabalha.

    Vou contar uma história passada com uma amiga minha professora.

    Em certa ocasião a minha amiga descobriu um quarto de banho antigo na sua escola. O espaço estava abandonado e desmazelado. A minha amiga, que é bastante dinâmica, imaginou logo ali um espaço para os alunos trabalharem.

    A ideia não ficou apenas pelo pensamento. Deitou mãos à obra e fez um plano/projecto para a sua execução com a ajuda de uma outra colega. Afinal apenas eram necessárias algumas operações cosméticas e o espaço ficaria funcional.

    Apresentou o plano/projecto aos órgãos de gestão da escola que marcaram uma reunião para o discutir. Após a sua presentação iniciou-se a discussão e uma das senhoras (democraticamente eleita, mas na minha opinião com perfil inadequado para o cargo) respondeu que não lhe pagavam para trabalhar num quarto de banho. A discussão terminou por ali e o assunto morreu.

  5. Sónia Duarte diz:

    Efectivamente poderia ter sido um excelente laboratório de fotografia … Não creio (mas não é obrigatório que assim seja) que o novo modelo de gestão escolar ajude a evitar situações destas…

  6. Norberto Costa diz:

    WC e Balneários

    É a primeira vez que visito o blog do meu amigo João, e vou já comentar este artigo bem curioso! Os WC são um lugar de excelência, são em muitas vezes um refúgio bem vindo dos nossos dias… Comentar ou abordar os WC só podemos tirar uma das seguintes conclusões: Caricato ou fascinante.

    Neste caso as observações do João são pertinentes, mas quem de nós já não analisou muitos ou todos os WC que entramos? O mais fascinante desta observação é a relação da constante avaliação que colocamos sobre a escola com tudo o que pode influenciar a educação das novas gerações.

    Sobre a primeiro aspecto é notório que há muito para dizer, mas facilmente se resume ao inconsciente humano na sociedade dos dias de hoje em quer avaliar tudo qualitivamente e quantitativamente, pormenorizadamente de preferência. Quanto ao segundo aspecto é simples, é meramente uma questão de prioridade politica da escola, como, se existem benefícios imediatos ou não na educação de cada aluno, ou, se na educação de um aluno é mesmo importante que os WC estejam devidamente limpos e funcionais.

    Com estas analises, e com as prioridades politicas escolares, podemos ver que todos os princípios éticos escolares num espaço escolar, estão salvaguardados.

    Vou agora relatar um acontecimento deveras curioso mas num balneário de um pavilhão escolar. No último inverno num dos meus encontros futebolísticos semanais no pavilhão da escola, no final de um jogo verificou-se que não havia água quente. Naquele dia não foi agradável tomar banho de água fria, houve ainda quem fosse tomar banho para casa. Mas o mais desagradável foi o problema persistir por largas semanas em pleno mês de Dezembro e Janeiro… O problema era grave, mas teria de ter sempre uma solução técnica, pois tratava-se de um espaço escolar onde não havia água quente para os alunos em pleno inverno.

    Problema resolvido! Já não havia hipótese de existir água fria com a temperatura da água a situar-se nos 50ºC, como indicava a caldeira…

    Assim, para um ser humano adulto, o tempo de permanência debaixo de água é próximo de 0 minutos.
    Tenho para vos dizer que naqueles balneários são batidos semanalmente tempos recordes mundiais, seguramente.

    Agora, não me perguntem se existem lá banhos para seres humanos adolescentes neste época do ano.

    Para grandes males, grandes remédios…

  7. […] queremos. Não comunicar já é comunicar. E, á semelhança da ideia que procurei passar no post Até o WC educa, a verdade é que estamos sempre a educar e a ser educados. Não apenas na […]

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