Pós-Páscoa

Já não escrevia por aqui há algum tempo. Férias, foram apenas 3 dias. Ao resto não posso chamar férias, apenas redução (senão abstinência dos meios digitais). Até sem telemóvel andei durante dois dias. Que bom que é sentir que se podem controlar estas dependências digitais. Será ilusão?

Bem, hoje, apesar de um regresso com consumo moderado, até na atenção dada à imprensa, deparo-me com estes títulos:

Casal troca criança por cão (in Correio da Manhã)

Crianças mal alimentadas mas com ténis de marca (in Jornal de Notícias)

Militares proibidos de usar tatuagens e maquilhagem (in Correio da Manhã)

PS avança para novo braço-de-ferro com Belém (in Diário de Notícias)

Embora sem podermos (nem devermos) generalizar, as duas primeiras notícias são reveladoras de um ambiente social que se observa aqui e ali. Parece que o importante deixou de o ser. O acessório e aparente assume muitas vezes o primeiro plano da vida de algumas pessoas, ainda mais se estivermos a falar de relações sociais…

As duas últimas notícias, sem relação aparente com as primeiras, estão, do meu ponto de vista, bastante ligadas – embora indirectamente. Também sem podermos generalizar, são reveladoras de um ambiente político e institucional que centra as suas preocupações em questões menores, servindo como distracção do que é realmente importante. Com certeza que o aumento da criminalidade e a sensação de insegurança crescente dependem das tatuagens e da maquilhagem dos polícías que, ao que consta, têm excelentes condições de trabalho! Os pequenos poderes também serão mais importantes que a crise financeira, económica e social, já para não falar na credibilidade política de alguns dos principais actores políticos!

Enquanto andamos “todos” a representar, a realidade [real] vai ficando adiada.

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6 Responses to Pós-Páscoa

  1. Sónia Duarte diz:

    “Men should be what they seem;
    Or those that be not, would they might seem none!”

    (“Othelo”, Iago, scene iii)

  2. A Rodrigues diz:

    Desculpa a critica, mas acho que confundiste um pouquinho as coisas.
    Militares e policias regem-se por regulamentos diferentes. A notícia visa os militares.
    A proibição de tatuagens faz parte do regulamento militar há imenso tempo. Trata-se apenas de um despacho a lembrar o regulamento.

    Contudo concordo que tatuagens e adornos não devam ser visíveis quando os militares estão uniformizados.
    E acho que o mesmo se deveria aplicar a policias.

    Atribuir a preocupação com o decoro como uma das causas da falta de eficiência da policia é pura demagogia.
    O decoro e as causas para o aumento da criminalidade são coisas distintas e podem coexistir sem conflito. O facto de as chefias se preocuparem com o decoro não lhes retira a possibilidade de se preocuparem com a eficiência.

    Responde-me a esta questão. Tu deixas de te arranjar devidamente de manhã antes de ir para a escola porque o sucesso dos teus alunos é mais importante?

  3. João Sá diz:

    Não peças desculpa pela crítica. Eu é que a agradeço.
    É verdade que fiz aqui um pequeno atropelo de ideias e escrevi com alguma imprecisão. Deve ter sido por causa do descanso neuronal da época de Páscoa. 🙂

    É verdade que a notícia se refere aos militares, mas tenho lido coisas próximas em relação à polícia, principalmente no que se refere à GNR.

    Do meu ponto de vista trata-se de intromissão do estado nas liberdades individuais. O estado não pode/não deve interferir nas opções estéticas e políticas de cada indivíduo. Acho que neste(s) caso(s) ultrapassa-se a fronteira das liberdades individuais, já para não falar no bom senso. A propósito, viste as notícias recentes sobre o código de vestuário de uma nova loja do cidadão (acho que no Algarve)?

    Sobre a última pergunta, não vejo relação entre as minhas opções estéticas (de vestuário e não só) e a qualidade do meu desempenho profissional.

  4. Sónia Duarte diz:

    Peço desde já desculpa por talvez ser agressiva num contexto em que as pessoas não se conhecem, mas, em presença, o tom atenuaria certamente “essa agressividade.” 🙂 O que é “arranjar-se”? E “arranjar-se devidamente”? Isso pode ser definido objectiva e legitimamente? Será que significa que tenho de passar a segurar a t-shirt para não se ver a tatuagem ao fundo das costas quando escrevo em bicos de pés no quadro (sou professora e “meia-leca” de gente…)? Se se meterem com a minha roupa, prefiro honestamente voltar à bata antiga ou a um uniforme qualquer. Desde que mo paguem, não tenho grandes problemas com isso. Pelo contrário, uma bata poupava a minha roupa, e por baixo dela vestia ou não vestia o que eu quisesse.

  5. A Rodrigues diz:

    Eu não me expressei correctamente, fruto de ter aproveitado uma pequena pausa no aeroporto para ler o blog.

    O que eu queria dizer é que o decoro, o brio, fazem parte da maioria das profissões. Nalgumas profissões usam-se uniformes, noutras tem de se usar gravata, noutras bata branca, etc, etc.

    O regime militar sempre foi muito restritivo neste aspecto e a noticia nada tem de novo. As regras enunciadas já existiam e eram postas em prática. Na minha opinião o uso de piercings e tatuagens não se compatibiliza com a imagem de brio que tais forças devem transmitir.
    Isto não limita a expressividade das pessoas. Sem o uniforme podem usar o que queiram.

    Obviamente que se corre o risco de entrar em exageros, tal como o caso da loja do cidadão que enunciaste.
    Nalgumas empresas privadas, não só o uso de fato e gravata é obrigatório, como ainda a cor é regulamentada.

    Mas a questão essencial era a de que as chefias se deveriam preocupar com a eficiência e não com o brio, a qual não concordo.
    Dai a minha questão, se ao te preocupares com o brio descuras o sucesso dos teus alunos.
    Claro que não. A preocupação de ambos podem coexistir, devem coexistir.
    As chefias não podem deixar de se preocupar com certos assuntos porque têm outros com que se preocupar. Isso seria um mau exemplo de chefia.

    O brio, a educação, a simpatia, a qualidade devem estar sempre presentes independentemente de haver mais ou menos preocupações com a eficiência.

    Não quer isto dizer que não tens razão quando dizes que “andamos todos a representar”. Mas há casos e casos.

  6. João Sá diz:

    As chefias não têm de se preocupar apenas com a eficiência. Em alguns casos é preferível que se preocupem, antes, com a eficácia (linguagem de engenheiro, eh eh)!

    A questão no meio disto tudo, para mim, está na preocupação com questões menores que, umas vezes, servem de distracção para questões maiores e, outras, como revelação do que vai na cabeça de algumas lideranças.

    Não sou contra que, se um funcionário se veste de forma chocante (indiscutivelmente – e o bom senso avalia bem estas situações), se não tiver cuidados de higiene, etc, o “chefe” tenha a sua palavra a dizer. Mas basta isso. Serão situações pontuais. Não temos de as tornar centrais e muito menos entrar na obsessão das regras objectivas, ainda por cima por escrito. Isto é desumanizar o mundo, quando ele precisa é de ser humanizado.
    As regras “por escrito” fazem mais falta em relação a outros temas… se calhar mais difíceis e incómodos!

    Tudo isto resulta da educação. Para mim, um “bom funcionário” só será bom se agir naturalmente (isso inclui vestir-se como lhe agrada), se tiver vontade de desempenhar melhor a sua função. Para isso, deve ocupar o pensamento com o que é central na sua actividade e não andar a questionar-se se está de acordo com a moral e os bons costumes impostos pela “polícia dos costumes”.

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