Mais Medina Carreira

A relação da SIC com Medina Carreira parece que veio para ficar, principalmente quando é o jornalista Mário Crespo a entrevistá-lo. Hoje encontraram-se outra vez.

Vejo sempre Medina Carreira com um misto de interesse, de humor, de seriedade, de acordo e de desacordo. Contraditório? Talvez, mas é a reacção que ele me provoca. Seja como for, aprecio a sagacidade dele.

Algumas tiradas interessantes (transcrição minha):

(2:00) Os partidos políticos, o PSD e o PS, são basicamente bancos alimentares. (…) uns oportunistas, uns arranjistas, vão ter com o partido para tirar dinheiro do estado.

(…)

(6:25) juntamente com este empobrecimento rápido do país, junta-se a imoralidade das elites: políticas, económicas.

(…)

(8:15) Nós andamos a viver de tretas: é o Magalhães, é o Inglês que é uma boa ideia mas não sei se (…) Bom, e portanto, nós andamos a viver de aparências. O país anda a ser distraído, o país anda a ser embebedado pela classe política. (…) A maioria absoluta é uma coisa excelente para gente competente, para gente sensata, para gente humilde. Este governo não tem nenhuma característica destas.

(…)

O vídeo está disponível aqui.

9 respostas a Mais Medina Carreira

  1. A Rodrigues diz:

    Considero uma aberração total o último parágrafo.

    Por um lado o Magalhães, por muitos defeitos técnicos que tenha, é um exemplo do que precisa de ser feito em Portugal. Empreendedorismo, inovação e ambição. Sem isso Portugal continuará a ser um bom cliente de tudo o que se faz além fronteiras, sendo apenas um fornecedor de Fado e sardinha assada (que infelizmente já não abunda nos nossos mares).

    Por outro lado o Inglês foi uma das melhores medidas, se não a melhor, na reforma do ensino em Portugal. Se queremos estar ao lado dos outros teremos de nos integrar e isso passa por podermos comunicar. Quem como eu, necessita de uma segunda língua para poder comunicar sabe o quão valioso é o inglês. Mas para quem vive sossegadamente sentado nesse cantinho que é Portugal, é indiferente se fala inglês, ou não. Mas esses que assim vivem não são os que vão levar o país a bom porto.

    Um dos entraves ao desenvolvimento é essa nossa cultura do “critica tudo e todos”. Não se faz, critica-se. Quando se faz critica-se na mesma. A critica (destrutiva) não leva a lado nenhum. É, isso sim, um obstáculo para os que querem ser inovadores e ir mais longe.

    Já há muito alguém dizia que os portugueses são “políticos de café”. Opina-se demais, trabalha-se de menos (leia-se trabalhar no sentido de criar, inovar, empreender).

  2. João Sá diz:

    Só para estar do contra (Estou a brincar. Não, não é só por isso!) eu não considero o último parágrafo nenhuma aberração. É, antes, uma hipérbole ou uma caricatura da realidade.

    O Magalhães não tem assim tantos defeitos técnicos. É um computador razoável e adequado às crianças do primeiro ciclo. O problema não se situa no domínio técnico. Mesmo no domínio dos conteúdos, apesar dos erros no gcompris, este facto tem sido aproveitado e exagerado. Trata-se apenas de uma aplicação (que não devia estar lá – é só mais um exemplo da falta de cuidado naquilo que realmente deveria importar). Os grandes problemas do Magalhães situam-se no domínio da pedagogia e da propaganda política. As perguntas são tantas, mas deixo apenas uma: porque é que os professores do primeiro ciclo não têm um Magalhães nem formação sobre o mesmo? A ideia é boa, a iniciativa é positiva e o computador pode ser útil, mas a realidade é diferente. Tudo tem revelado que não houve qualquer preocupação “à volta” do Magalhães, excepto no que diz respeito a capitalizá-lo como iniciativa política.

    Portugal, com o Magalhães, continua a ser um cliente. Praticamente tudo é importado, excepto a montagem. O computador foi apresentado como “o primeiro computador totalmente português”. Porque não o apresentaram como “o primeiro computador totalmente montado em Portugal”? Porque também não seria verdade e dava menos nas vistas… Optaram pela mentira mais vantajosa.

    Mais uma vez, o Inglês seria uma boa medida se fosse posto em prática com cuidado e com a real vontade de ensinar inglês às novas gerações. A realidade não é essa. A este propósito deixo também apenas uma questão: quanto ganham os professores de Inglês do primeiro ciclo e quais as condições em que trabalham?

    É indiscutível que o Inglês é essencial. É indiscutível que não podemos ficar “presos à nossa terrinha”. Mas, será que agora todos temos de emigrar? Se assim fosse, ficaria o país vazio? Têm mais valor os que vão para fora porque não encontram cá o que ambicionam ou os que procuram construir cá um lugar melhor?

    Cuidado com as generalizações!

    A inovação é importante. O empreendedorismo também. Mas, calma lá. Estas palavras já estão bastante desvirtuadas e são muitas vezes utilizadas sem qualquer cuidado. Inovar e empreender não implica necessariamente criar novas tecnologias e, muito menos, apenas no domínio empresarial. Há inovação e empreendedorismo para além do “mercado”.

    Perder os valores e a identidade, simplesmente em nome da inovação e do empreendedorismo, é pouco diferente de vender a alma.

  3. A Rodrigues diz:

    Não discordo em nada do que disseste.

    Contudo não acho que inovação e empreendedorismo seja perder a identidade. Não considero identidade o “hábito”, já que não lhe posso chamar valor, de criticar tudo e todos mas nada fazer em prol da melhoria das nossas condições. É parte da nossa cultura, mas não é um valor. Valor sim seria criticar construtivamente, e contribuir para a mudança. Mas criticar só por criticar, ou criticar quer se faça, quer não se faça, é um obstáculo aos que realmente querem fazer.

    Por outro lado também não considero que seja necessário emigrar para que se faça algo. O intercâmbio não requer necessariamente deslocalização, mas requer sim um meio de comunicação para o qual o conhecimento de línguas estrangeiras, neste caso concreto do inglês, é essencial. Eu tive o cuidado de utilizar a expressão “viver sossegadamente sentado” para me referir aos que pela sua atitude de inércia são um obstáculo ao desenvolvimento, ou mais popularmente aos que “nem lá vão, nem deixam ir”.

    O que é necessário é que haja mais iniciativa. Não esperar que sejam os governos a fazer tudo ou culpabiliza-los por não se fazer nada. Não compete aos governos gerir as iniciativas privadas. E as iniciativas não têm que ser obrigatoriamente bem sucedidas ou bem implementadas, pois com os erros se aprende. Mas é preciso que se realizem.

    O que é necessário é que se critique construtivamente. Que se critique com conhecimento de causa. Que se acompanhem as criticas com propostas e que se contribua para uma discussão construtiva das alternativas.

    O que é necessário é que se perca o medo de empreender, se encarem os fracassos como um passo para o sucesso, e se perca um pouco os típicos pensamentos extremistas de ou “não temos capacidade” ou “temos o maior/melhor/mais alto do mundo”.

    Nós não temos de ser os melhores, temos sim de ser construtivos para bem da nossa sociedade.

    Por isso qualquer iniciativa por muito mal sucedida que seja, seja ela um Magalhães, seja ela inglês, françês ou mandarim, seja ela um eléctrico de alta velocidade, é bem vinda porque contribui para se fazer mais um pouco.

  4. João Sá diz:

    Sim…, desde que a honestidade seja o pano de fundo. Quando isso não acontece deixa de ter valor. O relativismo moral tem limites. Pelo menos para mim…

    Contudo não acho que inovação e empreendedorismo seja perder a identidade.
    Nem eu disse tal coisa. Apenas deixei implícito que existe esse risco e que, muitas vezes, é isso que acontece.
    O “hábito” é a moral. A etimologia da palavra moral está em costumes. Moral, cada um tem a sua. Já ética é outra coisa. A ética debruça-se sobre a moral, procurando compreendê-la e, eventualmente, justificá-la. Não me choca quem tem uma moral diferente da minha. Choca-me, sim, quem pretende impor a sua moral sem sequer questionar eticamente essa moral.

  5. Sónia Duarte diz:

    Vou discordar dos dois, no que se refere à questão do ensino do Inglês. Não discuto a relevância do mesmo no plano pessoal, profissional e científico, mas discuto a sua relevância no contexto da formação no primeiro ciclo e faço-o confortavelmente, pois sou (também) professora de Inglês, embora há já alguns anos que não lecciono a disciplina. Penso que, no caso do primeiro ciclo seria mais relevante estudar as necessidades de cada comunidade/indivíduo procurando reforçar a sua identidade dentro da mesma. Não poderá ser mais útil a uma criança que vive numa comunidade com forte tradição migratória aprender a língua estrangeira de maior implantação na mesma (por que razão associamos o Inglês à emigração?), seja ela o Francês, o Alemão, o Russo, o Mandarim ou qualquer outra? Não será mais interessante para uma criança raiana aprender o Galego, o Espanhol ou o Leonês? Os mecanismos cognitivos e as aquisições culturais que o ensino/aprendizagem precoce de uma língua estrangeira podem propiciar a uma criança não são prerrogativa do Inglês. As “vantagens” do programa de introdução do Inglês no primeiro ciclo prendem-se mais, em minha opinião, com a aculturação das crianças dentro de conjuntura política e económica em que vivemos que com a cultura em si.

  6. João Sá diz:

    Pois, pois… Já agora fazemos programas e/ou currículos ao gosto de cada um… Então para que serve o projecto educativo em cada escola?

    Tudo o que dizes é válido mas não belisca a importância actual do inglês. Quer queiramos quer não, quer gostemos quer não, actualmente o inglês é a língua franca. Isto não implica esquecer ou desvalorizar outras línguas. Provavelmente não o será para sempre… O francês já o foi. O alemão também. Terá sido também o português? E o latim?
    E não tem a ver com globalização. Ou, pelo menos, não tem totalmente a ver com isso. Por exemplo, se quisermos partilhar conhecimento científico de forma mais ágil e para um maior número de pessoas teremos de acordar uma língua. A ciência não tem pátria nem língua… Calhou ser o inglês… Bom para quem gosta. Mau para quem não gosta. Quem disse que as soluções possíveis são as ideais?

    A propósito de mecanismos cognitivos, o desenvolvimento destes não é igual em todas as línguas. Provavelmente o inglês nem será dos mais ricos. Mas para isso também existem outras áreas. Porque não ensinar xadrez no 1º ciclo? Os Russos fazem-no.

  7. A Rodrigues diz:

    Concordo contigo Sónia. Aliás o primeiro ciclo é o momento ideal para introduzir mais do que uma língua pois é nessa idade em que melhor aprendem línguas estrangeiras.
    Contudo o inglês não pode ser justificado unicamente por razões económicas. É actualmente uma língua universal, quer gostemos, quer não (eu pessoalmente pertenço ao grupo dos que não gostam, mas tornou-se a minha segunda língua por força das circunstâncias).

    Vou-te dar alguns exemplos de países que há algum tempo adoptaram o ensino do inglês como factor estratégico.
    Na Finlândia pude comunicar com vendedoras de mercado, todas falavam correctamente inglês. Na Croácia pude comunicar com empregadas de supermercado e com pescadores, o seu inglês era compreensível, além do françês e italiano.

    Ora isto não se passa nos países em que o inglês é leccionado em ciclos superiores pois não abrange as classes “profissionais” menos qualificadas.

    Imagina agora a dor de cabeça que é ir a um supermercado, não conhecer a língua nativa e não poder comunicar. Ou tentar assinar um contrato para o aluguer de um apartamento de curta duração. Ou tentar alugar um carro.
    Isto é o que se passa comigo na maioria dos países que visito. E é um alívio quando encontro a tais excepções que há algum tempo descobriram a vantagem estratégica de ensinar o inglês.

    Sabes que existe uma diferença muito grande entre quem viaja de férias e quem viaja por motivos profissionais. Os turistas ficam normalmente hospedados em hotéis e comem em restaurantes onde se falam línguas estrangeiras e tudo está planeado para os ajudar. Os profissionais, por outro lado, têm de contactar com os nativos aos mais diversos níveis, têm de se desenrascar por si próprios. E aí começam as dificuldades.

  8. Sónia Duarte diz:

    Não digo que não, A. Rodrigues… Quando me lembro do que passei na Hungria há quinze anos… É melhor nem lembrar!

  9. Arqpp diz:

    Caro Srº Rodrigues,

    o Magalhães é tudo menos empreendorismo,ambição ou mesmo inovação. Faço uma pergunta, já “mexeu” na dita peça de informática? Se já, então deve ter reparado nas aberrações que representa. Nem me refiro ao aspecto fisico, que é semelhante a qualquer brinquedo da Barbie, nem mesmo pelo facto de um dos jogos que deveria ensinar a falar português, ter erros ortográficos gravissimos que implicaria no chumbo de qualquer estudante da 4ª classe… mas sim no que representa em termos de arranjos politicos e económicos para o país. Explico… acha mesmo que a Microsoft ia investir se não tivesse algo em troca? Pois bem, saiba por exemplo, que qualquer empresa que queira neste momento concorrer ao Estado para obras publicas, em que tenham que apresentar suporte informático, ´tem OBRIGATORIAMENTE que apresentar em suporte do Office da Microsoft. Senão é excluido. Mais, sabia que todos os computadores do estado (escolas inclusive) têm exclusivamente produtos Microsoft e que os Software’s livres são proíbidos? Pois bem meu amigo,… continue a elogiar o Magalhães… O ditado já dizia,… em Terra de Cegos, quem tem olho é Rei. Que poderiamos esperar de um país que só “Vê” à frente Futebol e Novelas? Tenho dito.

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