O sonho de uns é o pesadelo de outros

Diz o Público:

A ministra da Educação inaugurou hoje uma escola primária “excepcional” em Cascais, com quadros interactivos, elevadores para casos de mobilidade reduzida e equipamento de recreio inédito. Maria de Lurdes Rodrigues prometeu que “o sonho vai-se concretizar por todo o país”.

(…)

Apesar de a escolha deste tipo de equipamento lúdico-didáctico ser da responsabilidade das autarquias, (…)

Esta é uma gota de água, mas representa muito, até porque abre perspectivas de responsabilidade na área da educação para os municípios”, afirmou Maria de Lurdes Rodrigues.

Não conhecendo esta realidade, mas admitindo – embora desconfiado – a possibilidade de ser assim (um sonho), ocorre-me perguntar se a escola deve ser realmente um sonho? E fico ainda mais preocupado quando se classificam os equipamentos como lúdico-didácticos. A escola agora deve ser uma permanente brincadeira? Embora não tão preocupado, mas apreensivo, fico quando dizem que a responsabilidade é das autarquias. Não será isto semelhante a dizer que, agora, a responsabilidade de escolher equipamentos médicos para hospitais ou centros de saúde é das autarquias? Será que de repente as autarquias se tornaram em especialistas da educação? Eu compreendo que o ME queira que estas paguem a factura, afinal, não seria vez sem exemplo

Mas, sem ter nada contra sonhos, aliás, tenho tudo a favor, fico preocupado quando o sonho de alguns [poucos] se consegue à custa do pesadelo de outros [muitos]. É que, enquanto houver escolas sem aquecimento, escolas sem materiais de trabalho, escolas onde as casas de banho não têm água nem papel, escolas com paredes e tectos a cair, escolas onde fazer um telefonema ou tirar uma fotocópia é um pesadelo, escolas …, o sonho será apenas ilusão.

Ahh, já me ia esquecendo, aquela desculpa de que é preciso começar por algum lado, ou que não há recursos (leia-se dinheiro) para chegar a todos, já não cola. Quanto se gasta em Magalhães? Quanto se gasta em inaugurações? Quanto se gasta a ajudar e/ou nacionalizar bancos? Sim, também já sei qual é a desculpa, é tudo para o bem de todos os portuguesas e não apenas para alguns!

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4 Responses to O sonho de uns é o pesadelo de outros

  1. Deolinda diz:

    Ouvi discursos paralelos a este na minha infância, em Angola, há 50 anos, quando se inaugurava uma escola ou um liceu ou quando um governante visitava a então província ultramarina. Sabemos todos que a História é cícica. Mas seria bom que não fosse tanto. Centraliza-se no poder aquilo que interessa – os louros e os lucros – e descartam-se as responsabilidades.

  2. Deolinda diz:

    *cíclica

  3. Sónia Duarte diz:

    Totalmente de acordo!
    Gotas de água em fio é o que cai dos tectos das salas onde dou aulas; gotas de água em charcos é que piso no chão das salas onde dou aulas. E a essas salas , primeiro chegaram os quadros interactivos e os Magalhães e depois começaram as obras na escola para tratar as gotas de água que deterioram esses equipamentos. Também sou totalmente a favor dos sonhos, mas se calhar os sonhos de cada um também dependem das diferenças sociais: ao contrário com Maria de Lurdes Rodrigues e (supostamente) a escola de Cascais, eu sonho com uma escola onde não se passa frio e não chove dentro das salas.

  4. Sónia Duarte diz:

    Ainda propósito de sonhos, parece que, em alguns casos, Maria de Lurdes Rodrigues acorda antes da melhor parte…

    http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Viseu&Concelho=Santa%20Comba%20D%E3o&Option=Interior&content_id=1157031

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