A crise bateu-me à porta

A crise bateu-me à porta, e não estou a recorrer a nenhuma figura de estilo. A crise, ou uma face visível da crise – o desemprego, bateu-me hoje à porta. Para falar verdade tocou-me à campainha. Eram cerca de 15 horas. Tinha acabado de almoçar há pouco, a minha filha já dormia a sesta e eu estava a navegar na Internet. A campainha tocou. Abri a porta e disse «boa tarde» a um casal. Olharam para mim com uma expressão séria e receosa. Sem demoras e praticamente sem respirar diz o homem «somos um casal de desempregados e andamos a vender canetas para ajudar a pagar a renda». Pela surpresa e imprevisto fiquei sem saber o que dizer. Disse-lhe isso – que fiquei supreendido. Eles também não sabiam muito bem o que dizer. Foram alguns segundos estranhos. Passaram-me várias coisas pela mente. Perguntei-lhes de onde eram. Responderam sem hesitar. Pelo que disseram, pelo que não disseram, pela expressão, pela forma como se apresentaram e até pelo que vi como coragem decidi aceder ao pedido. Dei-lhes um pequeno contributo. Enquanto me dirigia à carteira pensei: não preciso das canetas, dou-lhes um contributo e recuso as canetas. Decidi que não. Achei que seria mais digno aceitar as canetas. Assim foi. Agradeceram e foram embora. Foi estranho. Ficou algo no ar que ainda não consigo explicar.

Acho que não lhes dei nenhuma esmola. Penso, antes, que fui solidário. Não lido bem com caridade. Sempre tive tendência a encarar a caridade como algo que não resolve os problemas. Apenas os atenua. Prefiro resolver os problemas nas suas causas. Claro que não foi o caso – não resolvi problema nenhum. Mas como é que se resolvem estes problemas? Só vejo uma solução – mudar radicalmente o paradigma social em que vivemos.

«Não lhes dês o peixe, ensina-os a pescar»

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3 Responses to A crise bateu-me à porta

  1. Sónia Duarte diz:

    😦 😦

  2. A Rodrigues diz:

    Não, não resolveste nada.

    Mas não foi um gesto inútil. Deste-lhes um pouquinho de esperança. Esperança de que afinal talvez consigam sobreviver à crise. Esperança de que caneta a caneta consigam pelo menos não passar fome.

    Mas o que sucederia se recusasses? Dar-lhe-ias ainda um pouco mais de desanimo, desanimo esse que quando atinge um valor insuportável se transforma em desespero, e o desespero gera comportamentos irracionais.

  3. Sílvia B. diz:

    Não resolve, ora pois. Mas o que fazer para resolver? Não te sei responder.

    Concordo com o lema «Não lhes dês o peixe, ensina-os a pescar», sem dúvida. Contudo, para pescar, é preciso haver peixe no mar (ou no rio). A preocupação agora é exactamente com isso; dia após dia, parece que o peixe se torna mais escasso…

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