Passividade (IV)

Sócrates, logo no dia da posse, atacou os farmacêuticos…
Eu não disse nada, porque não sou farmacêutico.
A seguir atacou os magistrados; também nada disse, porque não sou magistrado.
Depois foi aos médicos e enfermeiros. Também nada disso é comigo.
A seguir congelou as carreiras dos funcionários públicos. Quero lá eu saber, nem sou manga de alpaca.
Maltratou os polícias, os militares, os professores… os padres também não escaparam!
Aumentou os impostos.
Aumentou a idade da reforma, a insegurança nas ruas, nas escola e até nas nossas casas.

Ah! Mas criou ‘as novas oportunidades’, ‘o divórcio’, a insegurança, o crime, a violência, os ‘canudos’ de férias e domingos.

Hoje bateu à minha porta com a Lei da Mobilidade e atirou-me para o desemprego.
Já gritei e ninguém me ouve, até parece que a coisa só me afecta a mim.

(Recebido por email)

A minha nota: este texto tem a sua piada. Por isso o destacto aqui. Por outro lado, não gosto muito de fulanizar a coisa mas este fulano até merece alguma fulanização. Nem tudo será verdade, mas que muito é…

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6 Responses to Passividade (IV)

  1. A Rodrigues diz:

    Um dia destruiu-se a ditadura e instaurou-se o socialismo. Ninguém gritou.
    Nacionalizaram-se as empresas rentáveis. Ninguém contestou.
    Criaram-se os empregos públicos 8-16 com direitos a 5 pausas para café, hoje mais conhecidos como jobs for the boys. Ninguém esperneou.
    Criou-se o estado de direito com a sua classe de magistrados donos da razão e dos direitos. Ninguém falou.
    Estabeleceu-se o direito ao conhecimento e assim criaram a classe dos professores, desculpem, dos Srs Doutores. Ninguém falou.
    Criou-se o direito à saúde e os médicos multi-milionários. Todos se mantiveram em silêncio.
    melhoraram as condições dos militares e dos polícias. Ninguém teve a coragem de falar.
    Criaram-se as evoluções na carreira por antiguidade. Os operários com evolução por objectivos não falaram.
    Criaram a ADSE, a ADFA, ADMFA e outras afins, com as suas contribuições diminutas e regalias chorudas. Os beneficiários da SS calaram-se.
    Um dia um PM acordou mal disposto e olhou o mundo, viu a desigualdade das pessoas e decidiu actuar. Era tempo de dar direitos e deveres semelhantes aos servidores do estado e aos outros porque os outros não são portugueses de segunda.
    Então ouviram-se imensas vozes, as classes não gostaram. Mas era tarde demais, a função pública estava no seu declínio.
    E nós simples empregados privados vamos manter-nos calados porque não nos diz respeito.

  2. João Sá diz:

    Onde é que se instaurou o socialismo? Em Portugal não foi certamente. Lá por o partido ter socialista no nome não quer dizer que seja socialista. O secretário-geral do PS até disse há dias que o PS é o “grande partido popular da esquerda democrática e moderada”. O Manuel Alegre disse que não sabia o que isso significava…

    Quanto aos professores, não vejo porque terão de ser tratados dessa forma. Por mim dispenso títulos e etiquetas. A minha experiência (com a larga maioria dos colegas) é idêntica. Os tempos vão mudando… As mentalidades também.

    Noto aí alguma ironia, e até alguma raiva, porque será? Ainda por cima vindo de alguém que até desempenha “funções públicas”! 😉

  3. A Rodrigues diz:

    Respondendo à questão, no pós revolução o país atravessou uma quase anarquia com tendências comunistas/socialistas. As grandes empresas foram nacionalizadas, os latifúndios foram tomados pelo povo, personalidades e empresários foram forçados ao exílio, etc. Foi um período conturbado de 2 anos. Mas já poucos se lembram disso.

    Em relação ao comentário, foi uma provocação intencional.
    Em primeiro lugar eu queria mostrar que nada é absolutamente preto ou absolutamente branco. Existem vários pontos de vista da questão.
    Em segundo lugar queria chamar a atenção para um dos aspectos concretos deste governo. A coragem que nunca nenhum outro governo anterior teve de combater a função pública.
    A função pública em Portugal é um cancro. Atenção, não estou a chamar cancro aos funcionários públicos que acredito desempenham o seu trabalho da melhor forma dentro das suas capacidades. O cancro é o sistema. Portugal tem um dos maiores índices de funcionários públicos da Europa, fruto do tal pró-socialismo instaurado após o 25 de Abril. Por outro lado a nossa função pública é ineficiente e altamente burocrática, embora muito tenha mudado nos últimos anos graças ao investimento em novas tecnologias e novos processos.
    A sua dimensão e ineficiência são um factor de majoração de custos.
    Como breve exemplo, porque é que as empresas públicas dão prejuízos e quando são privatizadas passam a dar lucros? Ou porque é que os gestores das empresas públicas não as conseguem valorizar e quando passam a ser gestores de empresas privadas têm o maior sucesso? Não me digam que é porque as empresas privadas têm accionistas que visam o lucro. As empresas públicas têm também um accionista, o Estado, que necessita urgentemente de lucros.
    O problema está exactamente na carga de custos associada ao funcionalismo público.
    Ora combater os custos significa implementar reformas, as quais têm consequências para as pessoas envolvidas. E estas pessoas não gostam. Por isso nenhum governo tinha tido a coragem de combater a função pública como o actual governo. Mas tal era inevitável.
    Não estou aqui a defender a forma como esta reforma está a ser implementada. Essa é uma outra questão. Estou sim a tentar mostrar o outro ponto de vista. O do de quem está de fora.

    Uma outra questão implícita no meu comentário é o dos benefícios extra dos funcionários públicos relativamente aos trabalhadores privados. Diferentes sistemas de saúde, diferentes sistemas de reforma, diferentes leis de trabalho, diferentes regalias.
    Por um lado trata-se de discriminação, a qual é intolerável num país democrata. Por outro lado deu origem às classes sociais, que incorrectamente se confundem com classes profissionais. Que haja classes profissionais com regulamentação própria é uma coisa. Quando se façam delas classes sociais com benefícios próprios é inaceitável, é um retrocesso aos tempos remotos. Que um médico, ou um professor, ou um juiz é importante à sociedade é indiscutível. Mas tão importante é o trabalhador da recolha de lixo que assim impede que doenças mortíferas alastrem. Ou o agricultor e o pescador que nos dá a comida sem a qual não sobrevivemos. Já imaginaram que sem agricultores e pescadores não havia médicos nem professores?

    Este é o meu ponto de vista. Não podemos ser fundamentalistas e ver as coisas apenas na perspectiva que nos é mais benéfica, mas pensar nas outras perspectivas, na forma como os que são diferentes de nós as vêem.
    E isto vai acima de tudo ao encontro dos Passividade I, II e III.

  4. João Sá diz:

    Referes-te ao PREC?

    queria mostrar que nada é absolutamente preto ou absolutamente branco.
    Concordo e luto permanentemente contra essa visão do mundo que observo em muita gente. Felizmente também há muitos que não encaram o mundo a preto-e-branco.

    A coragem que nunca nenhum outro governo anterior teve de combater a função pública.
    Ora bem, concordo que este governo tem tido algumas manifestações de coragem. O grande problema é que raramente são coragem pura. A maior parte das vezes são arrogância e temeridade. A verdadeira coragem não passa por deixar de ouvir.
    A função pública não precisa de ser combatida… mas como volta ao assunto a seguir, já lá chegaremos.

    A função pública em Portugal é um cancro.
    Acho que a função pública em Portugal (ainda) tem muitos problemas. Chamar-lhe um cancro parece-me exagerado. O sistema necessita de alterações profundas. Mas não é apenas o sistema. É, acima de tudo, a “mentalidade” do sistema. Os favores, cunhas e compadrios têm de desaparecer.
    A função pública tem muitos “tachos” (para falar curto e grosso). Esses poluem o sistema (seja este bom ou mau). Aqueles que entram “no sistema” por mérito próprio têm de fazer um esforço substancial e têm de ser realmente superiores. Depois de lá estarem, ou se rendem à lógica dominante ou então terão de fazer um esforço ainda maior e uma vida complicada por (alguns) pares.
    Quem critica a função pública, e eu também o faço algumas vezes, é porque foi mal servido por ela. Quando se criticam genericamente os funcionários públicos, normalmente cai-se no erro da generalização, outra vezes deve-se a uma certa inveja de quem lá queria “entrar” mas não consegue.
    A propósito desta conversa que, aliás, é recorrente, um tio meu disse uma vez esta frase que registei: “os trabalhadores da função pública são feitos da mesma massa que os outros”. É para pensar…

    porque é que as empresas públicas dão prejuízos e quando são privatizadas passam a dar lucros?
    Não é verdade. Há exemplos para todos os gostos. Estás a cair naquilo que começaste por criticar: a visão a preto-e-branco.
    Só para dar um exemplo recente… os prejuízos do BPN. É privado. E não me venham com a desculpa da crise – essa agora serve para tudo. Como este, muitos outros. Há vários hospitais-empresa que pioraram os resultados. Mais uma vez, cuidado com as generalizações.
    Não me venham dizer é que a educação, saúde e justiça alguma vez podem dar lucro. Isso é perverter a lógica destes serviços. O lucro (pode) resulta(r) de actividades produtivas. Estas não são. Pelo menos directamente!

    O do de quem está de fora.
    Esta é uma opção política muito confortável. Mas raramente estamos de fora. Vivemos num sistema onde tudo tem ligação com tudo.

    dos benefícios extra dos funcionários públicos relativamente aos trabalhadores privados.
    Esta é outra visão com a qual não concordo. Não são vantagens. São diferenças.
    Os funcionários públicos, em geral – tirando alguns casos que normalmente são os ditos “tachos” – ganham menos. Têm menos possibilidades de escolha e de mobilidade assim como uma progressão na carreira mais rígida. Terão outros benefícios, maior estabilidade e regras mais precisas. Muitos trabalhadores do privado ganham salários pornográficos, têm seguros de saúde, pagamento de ajudas de custo, …! Tudo isto é muito variável e depende de cada situação. Diria que na função pública, apesar de tudo, há mais equidade.

    Claro que todas as profissão são importantes e nobres. Aqueles que não as vêem assim é porque estão embuídos de preconceito ou, algumas vezes, devido a complexos de inferioridade/superioridade que são acentuados por rotulagens sociais.

    Não podemos ser fundamentalistas e ver as coisas apenas na perspectiva que nos é mais benéfica
    Subscrevo esta frase.

    Um abraço.

  5. A Rodrigues diz:

    Ainda bem que te debruçaste-te sobre o assunto e entendeste o que queria transmitir. Não deixo de subscrever o que disseste. A minha provocação tinha exactamente esse objectivo, abrir espaço para se tentar ver o assunto de outros ângulos.

    Atenção que não tive em momento algum o intuito de defender o governo, apenas o de mostrar que não podemos olhar apenas pelo lado dos desafortunados que viram os seus interesses pessoais atacados.
    Também não é meu objectivo atacar esses mesmos desafortunados, que no fundo terão os seus argumentos. Mas não podemos criticar apenas por criticar, ou criticar baseado apenas num lado da questão.
    Como disse as minhas palavras vão ao encontro dos Passividade 1, II e II, mas ao desencontro do Passividade IV por se apresentar num formato fundamentalista. Daí o meu comentário irónico inicial no mesmo formato.

    Há contudo um ponto em que não concordo contigo. O último ponto.

    Dizes que os funcionários públicos têm menos possibilidades de escolha e de mobilidade. Achas que os operários que trabalham 20 anos na mesma fábrica têm possibilidade de escolha e de mobilidade? Ou achas que a maioria da população são engenheiros, doutores e advogados? E quanto à facilidade de despedimento no sector privado? Se um funcionário público não se adaptar é transferido para outro serviço (na generalidade), se o trabalhador privado não se adaptar é despedido com justa causa.
    Falas em salários pornográficos no privado. São casos pontuais. Um estudo de 2007 indica que 75% da população ganha menos de 800eur por mês. Foi manchete em 2006 que os salários da função pública são (eram) 50% superiores aos dos privados. Embora eu ache este número exagerado, mas a verdade é que são superiores.
    Referes seguros de saúde que apenas existem nas grandes empresas, são limitados e não cobrem mais do que é coberto pela ADSE.
    Referes ajudas de custo que por acaso são regulamentadas por lei e iguais tanto na função pública como no sector privado.

    Mas há mais:
    Segurança Social, comparticipação de 34% sobre 14 meses de salário (1/3 do salário vai para a SS), benefícios limitados por tabelas, restringidos aos serviços de saúde públicos e participados em parte pelo beneficiário.
    ADSE, comparticipação de 1,5% sobre 12 meses (será que li bem? 1,5?), benefícios podem abranger serviços de saúde privados, desconheço se há participação do beneficiário.

    Agora uma questão, a SS que é financiada com 1/3 dos salários dos trabalhadores tem a sua sustentabilidade em risco.
    Então e a ADSE, onde vai buscar o dinheiro? Não é com 1,5% que é sustentável, ou será? Não andarão todos os portugueses a garantir a sustentabilidade da ADSE com os seus impostos?

    São de facto diferenças, como lhe chamas, mas são diferenças que não deveriam existir, são diferenças discriminatórias.

  6. João Sá diz:

    Sobre os “Passividades”, repara que os 3 primeiros estão dentro da categoria “Poesia” e o IV está na categoria Humor. Nuances…

    Haverá com certeza funcionários públicos com alguma possibilidade de escolha. Não me parece que seja a maioria. Conheço alguns casos onde tal não é posssível… Um deles até é engenheiro 🙂 (para tocar na tua questão).
    O problema que referes põe-se essencialmente ao nível de funcionários sem qualificações. Esses necessitam de uma maior protecção. Mas isso (a falta de formação) tem razões históricas que tocam profundamente na política do país… Será que antes da “instauração do socialismo”, como referes, as condições eram melhores? Será que o “socialismo” não veio melhorar as possibilidades de educação e formação de muita gente? E, em consequência, de emprego!
    Não concordo que os salários pornográficos sejam casos pontuais. Nem sequer no sector público… Aliás, muitas vezes há promiscuidade nesses salários entre público e privado. São bastantes… Por falar nisso, vou-te enviar por email uma compilação de alguns desses salários e reformas! Vais ficar surpreendido com a quantidade…

    Concordo que os sistemas de saúde (e outros) deviam ser uniformizados. Mas não por baixo. Essa lógica de baixar a uns porque os outros têm menos é desculpa de mau pagador. Os que estão em pior situação é que devem melhorar. Não há recursos suficientes? Perceba-se porquê, com seriedade, e resolva-se o problema.
    E os lucros fabulosos dos bancos? E os lucros fabulosos de empresas como a Galp, a EDP, PT, etc… E as ajudas aos bancos e a outras empresas privadas? Faz as contas e vê quem as paga… Será o estado? E quem é que alimenta o estado? E não me venhas dizer que são só os trabalhadores do privado que contribuem… Eu estou no sector público e acho que o meu trabalho não é remunerado pelo valor justo. E não estou a reclamar, nem ainda reivindiquei por mais. Neste momento valores mais altos se levantam.

    Será que isto é igualdade?
    Somos todos iguais, mas uns são mais iguais que outros!

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