O que não interessa saber antes

Outubro 15, 2009

Pudéssemos ter acedido [antes das eleições] aos resultados escolares dos alunos que têm, nos últimos dias, dado origem a uma série de rankings mais ou menos redutores, e teríamos podido discutir o impacto [muito negativo] – mesmo se falando apenas de resultados dos exames – que as medidas do anterior governo tiveram no ensino público.

Pudéssemos ter acedido [antes das eleições] ao estudo que arrasa a justiça portuguesa e os resultados que a reforma penal (também do anterior governo) tiveram.

Pudéssemos ter discutido [antes das eleições] as previsões para o défice público.

Pudéssemos ter sabido [antes das eleições] da condenação da ERC sobre o caso TVI.

Pudéssemos ter concluídos [antes das eleições] os processos Freeport e Casa Pia.

Por que será que não pudemos?

Pudéssemos…

Quais teriam sido os resultados das eleições legislativas?


Jogadas eleitorais

Setembro 23, 2009

Na fase final da campanha eleitoral já vale tudo, mesmo a chantagem.

Vem agora o Ministério da Educação dizer que, afinal, os próximos Magalhães podem não ser entregues – será decisão do próximo governo.

E fazem o mesmo com os “chips de matrícula”, adiando a publicação das portarias que os tornariam obrigatórios.

Cabe-nos – aos eleitores – estar atentos e separar o trigo do joio, deixando de lado as jogadas, as intrigas, as mentiras e votando em quem coloca valores maiores acima dos jogos de poder.


Sócrates é o pior primeiro-ministro desde 1985

Setembro 22, 2009

Não sou eu que o digo. É o resultado de uma sondagem, noticiado pela Exame e pelo Expresso:

José Sócrates é apontado pelos portugueses como o pior primeiro-ministro desde que Portugal entrou na União Europeia. A sondagem exclusiva da Exame/Gemeo-IPAM indica também que Cavaco Silva é o chefe do Governo mais acarinhado dos cinco políticos que governaram Portugal a partir de 1985.

(…)


Delicadeza

Setembro 21, 2009

José Sócrates, sempre muito delicado para quem ousa pensar diferente.

Após o arquivamento do processo contra João Miguel Tavares, membro do programa da TSF Governo Sombra, que escreveu no DN um artigo de opinião onde abre com esta polémica e infundada frase:

Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina.

(…)

Eis que José Sócrates, ainda primeiro ministro, não fica satisfeito com o arquivamento e decide requerer a abertura da instrução:

O primeiro-ministro, José Sócrates, não aceitou o arquivamento do processo que moveu contra o jornalista João Miguel Tavares e requereu a abertura de instrução.
O Ministério Público determinou que o processo fosse arquivado, ao considerar que no artigo de opinião «José Sócrates, o Cristo da política portuguesa» João Miguel Tavares não ultrapassou os limites na crítica que fez ao líder socialista, enquanto figura pública.
No entender do Ministério Público, os termos do artigo de opinião de João Miguel Tavares – ao contrário do que pretendia José Sócrates – são «insusceptíveis de causar ofensa jurídica penalmente relevante».
Apesar da decisão do Ministério Público, José Sócrates pediu a abertura de instrução do processo, o que significa na prática a vontade de pretender levar o litígio por diante.
Em causa está o artigo publicado por João Miguel Tavares, a 3 de Março, no Diário de Notícias.

Delicadeza, tolerância e cultura democrática para com os jornalistas e para com a liberdade de imprensa é tudo o que se vislumbra nesta atitude!!

(Adenda)

O Público dá hoje a notícia e conclui com uma contagem:

O primeiro-ministro já processou nove jornalistas. Cinco são da TVI, três do PÚBLICO e um do DN.

Melhor do que isto só ter os números dos anteriores primeiros-ministros.


Sócrates vs Ferreira Leite – o melhor e o pior

Setembro 12, 2009

Não sei se algum ganhou o debate. Contava que Manuela Ferreira Leite (MFL) “levasse porrada” de Sócrates, habitualmente mais apto para estes confrontos. No entanto, Sócrates esteve sempre com uma postura muito insegura e MFL deu lições de coerência enquanto Sócrates tentava “dar a volta” fazendo generalizações e interpretações abusivas. Sócrates demonstrou pensamento politiqueiro. MFL demonstrou ideias mais organizadas, embora fora do tempo.

Em síntese, o que me pareceu ter sido o melhor e o pior de cada um.

O melhor momento de José Sócrates.

Deixou MFL numa posição difícil quando a confrontou com as portagens nas SCUTs. Tanto que ela até disse quais as portagens que introduziu. Os portugueses ficam satisfeitos com este avivar de memória! Depois, conseguiu recuperar ligeiramente, mas apenas para atenuar o efeito do ataque.

O pior momento de José Sócrates.

A antítese daquilo que ele é. Completa incoerência entre o discurso e a substância do ser que todos nos habituámos a ver nos últimos 4 anos. Tem tentado insistentemente, ao longo da campanha, colar a pela de cordeiro ao lobo.

Disse: «Quem só sabe de medicina, nunca será bom médico. A virtude do sabedor é sempre a humildade, nunca a arrogância.»

Este tipo de citação fica mal numa pessoa como José Sócrates. Soa a falso.

O melhor momento de MFL.

Subtilmente, arrasa o percurso de Sócrates quando diz: «A credibilidade constrói-se ao longo de uma vida: a vida de estudante, académica, uma vida profissional intensa, exposição pública e vida política… essa credibilidade que fui construindo fala por si, e não se dissolve em dois minutos.»

O pior momento de MFL.

Não é novidade, mas as gafes continuam. Disse: «É como aquela pessoa que mata o pai e a mãe para dizer que é órfão.»

(Adenda)

Tinha-me esquecido daquela parte de que todos falam, quando MFL diz: «Não gosto dos espanhóis metidos na política portuguesa». Mas foi uma boa tirada ao caso TVI: Espanhóis -> Prisa -> TVI -> Jornal Nacional -> política portuguesa.


Votar numa eleição que não existe

Setembro 11, 2009

A eleição perversa, um texto interessante e claro, para reflectir:

As eleições legislativas de 27 de Setembro servem para eleger 230 deputados à Assembleia da República. Mas se perguntarmos a qualquer cidadão na rua para que vai votar nesse dia, com toda a certeza que a resposta mais frequente que ouvirá é que o cidadão vai eleger o Primeiro-Ministro. A isto conduziu a fulanização da política e das eleições. Interessa mais o estilo do que as ideias, o aspecto do que a substância, as palavras do que os programas.

Poucos saberão os nomes daqueles cuja vida vai mudar se forem eleitos deputados. Mas todos discutem se Sócrates é melhor que Ferreira Leite ou vice-versa. Por outras palavras: os cidadãos aprestam-se para votar numa eleição que não existe na lei, a de Primeiro-Ministro e não votar na eleição efectivamente prevista na lei, a dos deputados, cujos nomes nem se dão ao trabalho de ler à porta das assembleias de voto, mais que não seja, uns minutinhos antes de entrar na cabina de voto.

Esta disfunção mostra bem a desadequação do sistema político português. Ela gera um vazio de representação política parlamentar. Ninguém se pode sentir representado por quem nem sequer conhece. Ninguém se pode sentir representado por quem não pode responsabilizar pelos seus actos. Na verdade, os eleitores que conscientemente votam em deputados, nem sequer estão a escolher. Estão a escolher entre escolhidos. É a ilusão da democracia representativa.

Existem duas reformas essenciais a fazer no sistema eleitoral.

A primeira é permitir as candidaturas de independentes à Assembleia da República. O campeonato partidário está esgotado, viciado à partida. Precisa de um grande susto. E a democracia precisa de respiração. O monopólio partidário nas eleições legislativas está a corroer a democracia por dentro, porque contribui para o distanciamento dos cidadãos da instituição parlamentar, e contribui para o descrédito do próprio sistema.

A segunda é a da criação de círculos uninominais, para que toda a gente tenha efectiva capacidade de decisão eleitoral e saiba quem é o seu deputado. Evidentemente que os partidos têm medo disto, porque o poder das direcções escolherem os seus fiéis para as listas fica comprometido. Mas, não tenhamos dúvidas, estas duas medidas provocariam um novo entusiasmo cívico e político na sociedade portuguesa e dotaria o sistema político de mais saúde e transparência.

(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro e no Tomar Partido)


O país da ilusão que descobriu a soma

Setembro 10, 2009

Há blogues curiosos, daqueles que por dizerem pouco acabam por dizer muito.

O Canhoto é um deles. Blogue que em tempos teve intensa actividade, ficou em estado letárgico desde o seu último post, em 3 de Junho. Hoje, 10 de Setembro, somos presenteados com um novo post de Rui Pena Pires que, segundo dizem as más línguas de alguma comunicação social, é companheiro de Maria de Lurdes Rodrigues (ministra da educação).

Politicamente, dispara em todas as direcções. Em algum lado há-de acertar. Parece que descobriu uma nova fórmula: o maravilhoso país da soma. Esquece-se, no entanto, que já há muito o país descobriu o país da ilusão. Sobre este último, não são precisos elaborados malabarismos conceptuais para o tentar mostrar. Está à vista de todos.


Logo fui perder o debate mais interessante

Setembro 9, 2009

Louçã vs Sócrates ou Sócrates vs Louçã, como preferirem.

Contava assistir a este debate, que se apresentava como o mais promissor. Contingências da vida, eis que sou obrigado a estar presente numa (também animada) reunião de condomínio.

Hoje, ao ler os jornais, comparando depois com as opiniões na blogosfera, observo que as divergências e perspectivas sobre o debate são muitas. No final, percebo que Francisco Louçã, não estando ao melhor nível, desempenhou bem o seu papel. Do outro lado, o engenheiro conseguiu dar o melhor naquilo em que é especialista: o ilusionismo.

Mas já só acredita quem quer, ou quem tem prazer em ser enganado.

Veja-se, por exemplo, quando José Sócrates diz que nunca pertenceu a outra família política que não o socialismo democrático. O blogue Do Portugal Profundo mostra-nos os documentos que provam o contrário, com a sua filiação no PPD (agora PSD).

Curioso, também, é ver a tendência dos jornais. Basta olhar para os títulos e percebe-se a parcialidade de cada um, como já vem sendo hábito.

Público: Louçã procurou encostar Sócrates à direita e à corrupção. Sócrates procurou mostrar o radicalismo de Louçã

Jornal i: O grande debate à esquerda deitou por terra todas as pontes

Jornal de Notícias: Ataque à classe média domina debate entre Sócrates e Louçã

Diário de Notícias: Sócrates conseguiu pôr Louçã à defesa


Descaramento

Setembro 3, 2009

Manuela Moura GuedesNem vale a pena tentar disfarçar as pressões (para não dizer uma palavra feia). Depois da saída de José Eduardo Moniz da TVI, que considerou ser um escândalo a eventual saída de Manuela Moura Guedes do Jornal Nacional, sabe-se, em pleno período de campanha eleitoral, que o Jornal de Sexta já não regressa de férias!

Manuela Moura Guedes confirmou hoje ao PÚBLICO a demissão da direcção de informação da TVI depois da suspensão do Jornal Nacional que apresentava e coordenava e que amanhã regressava depois de um período de férias. Moura Guedes revelou que tem pronta uma peça com notícias novas sobre o caso Freeport, feita por uma jornalista da sua equipa. “Temos pronta uma peça sobre o Freeport, com dados novos e, como sempre, documentados”, disse a jornalista, recusando-se a fazer mais comentários.

(…)

A direcção de informação da TVI anunciou, por volta das 13 horas, a sua demissão em bloco devido à suspensão do Jornal Nacional de Sexta-feira, apresentado por Manuela Moura Guedes.

(…)

a decisão da administração de suspender o Jornal Nacional veio de Espanha, sede da Prisa, proprietária da TVI, e foi comunicada à direcção de informação e fundamentada por razões económicas, em consequência de uma reestruturação em curso.

(…)

A equipa do Jornal Nacional estava a trabalhar há duas semanas para regressar amanhã à noite aos ecrãs. E não tinha havido qualquer sinal de que a emissão poderia ser suspensa mesmo antes da primeira edição depois de férias.

É por estas e por outras que se torna importante pensar bem antes de votar. Está em causa um voto na liberdade.

(Adenda)

A propósito de liberdade, e do caso Freeport, talvez seja útil ver este post em forma de livro livro disponível no blogue Do Portugal Profundo.


Realpolitik

Setembro 3, 2009

O jornal i diz que «pode ser bom perder as eleições». Parece que, caso o PSD de Manuela Ferreira Leite ganhe as eleições, a reeleição de Cavaco Silva à presidência da república será mais difícil.

Caso ganhe o PS, já que o próximo governo terá uma situação de governação difícil, o desgaste do governo favorecerá Cavaco Silva, podendo também contribuir para uma eleição do PSD ao governo nas legislativas seguintes.

Cenários! Até lá muita água vai correr debaixo da ponte.

Curioso (ou nem por isso) é ver com o que se preocupam alguns dos nossos políticos e comentadores. Em vez de se preocuparem com o “superior interesse nacional”, expressão que de tão usada já começa a ficar gasta, se preocupam apenas com cenários de quem pode ganhar ou perder o poder.