Razão

Julho 26, 2009

Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.

- Fernando Pessoa


Identidade

Março 8, 2009

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço

Mia Couto


Caminhos

Março 5, 2009

Disse Liev Tolstói que:

Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência.

Sintonia, é o que sinto com estas palavras.


Ser Humano

Fevereiro 10, 2009

O que dizer destas palavras de José Saramago? (daqui)

Sigifredo López é o nome de um deputado colombiano sequestrado durante sete anos pelas FARC e que acaba de recuperar a liberdade graças à coragem e à persistência, entre outros, da senadora Piedad Córdoba, principal dirigente do movimento social e humanitário “Colombianos pela paz”. Graças a uma circunstância que parecia impossível dar-se, Sigifredo López, que fazia parte de um grupo de onze deputados sequestrados, dez dos quais foram, não há muito tempo, assassinados pela organização terrorista, pôde escapar ao massacre. Agora está livre. Na conferência de imprensa logo realizada em Cali, entendeu manifestar a sua gratidão a Piedad Córdoba em termos que comoveram o mundo. Aqui nos chegaram essas palavras e essas imagens estremecedoras. Nunca pude alardear de firmeza emocional. Choro com facilidade, e não por causa da idade. Mas desta vez fui obrigado a romper em soluços quando Sigifredo, para expressar a sua infinita gratidão a Piedad Córdoba, a comparou à mulher do médico do Ensaio sobre a cegueira. Ponham-se no meu lugar, milhares de quilómetros me separavam daquelas imagens e daquelas palavras e o pobre de mim, desfeito em lágrimas, não teve outro remédio que refugiar-se no ombro de Pilar e deixá-las correr. Toda a minha existência de homem e de escritor ficou justificada por aquele momento. Obrigado, Sigifredo.

Sentidas? Emotivas? Honestas? Generosas? Humanas?

Não sei. Acho que quaisquer palavras serão pobres.


Em defesa da Verdade

Fevereiro 9, 2009

A propósito de um desafio da Sónia sobre um comentário meu neste post, aqui fica o destaque desse comentário.

Começo a achar que a palavra “verdade” podia ser abolida.

Deixou de fazer sentido. Basta manter a palavra “mentira”.

Quando quisermos falar em verdade, como são tão poucas, basta dizer que é uma não mentira.

E para que não restem dúvidas, vejam isto como uma reflexão e nunca como uma intenção.


Passividade (III)

Fevereiro 3, 2009

Na primeira noite, eles se aproximam 
e colhem uma flor de nosso jardim. 
E não dizemos nada. 
Na segunda noite, já não se escondem, 
pisam as flores, matam nosso cão. 
E não dizemos nada. 
Até que um dia, o mais frágil deles, entra 
sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, 
e, conhecendo nosso medo, 
arranca-nos a voz da garganta. 
E porque não dissemos nada, 
já não podemos dizer nada.

Maiakovski


Passividade (II)

Fevereiro 2, 2009

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…

Martin Niemöller, 1933


Passividade

Janeiro 31, 2009

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)


Quantos seremos (pouco) importa

Janeiro 17, 2009

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena! 

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida. 

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste. 

Miguel Torga, Câmara Ardente


Sem título

Janeiro 16, 2009

O poder corrompe.
Esta verdade que me rompe.
Palavra abstracta,
Esta que é inata.
É ela que é a nata.
É ela que mata.

Guerra que mata.
Ela que é inata.
Essa que resgata,
A verdade, que é a nata,
De quem rompe
Com aquilo que corrompe.

Coimbra, 10 de Janeiro de 2009