Passividade

Janeiro 31, 2009

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)


Luzes de esperança

Janeiro 30, 2009

Gosto de ver a mudança de atitude em José Saramago. Bem mais optimista e positivo do que tem sido costume. Não é simplesmente pela mudança. É pelas razões que levam a essa mudança, e não me refiro apenas a Barack Obama. É também a isso que me refiro quando falo em “luzes”, por exemplo aqui.

Parece que a coisa vai bem encaminhada. O presidente dos Estados Unidos, que não se chama Messias, mas Barack Obama, assinou ontem uma lei denominada de Equidade ou Igualdade Social. A “responsável” directa deste documento foi uma mulher, uma trabalhadora que, tendo descoberto que havia levado toda a vida a ganhar menos exactamente por ser mulher, apresentou queixa contra a empresa e ganhou o pleito. Como numa prova desportiva de estafetas, esta mulher branca, chamada Lilly Ledbetter, passou o testemunho ao corredor seguinte, um negro com nome muçulmano, 44º. presidente da nação norte-americana. De repente, o mundo parece-me mais limpo, mais prometedor. Por favor, não me roubem esta esperança.

Digo eu também, por favor, não me roubem esta(s) esperança(s).


A subtileza da notícia

Janeiro 29, 2009

Repare-se no título desta notícia do DN.

Ingleses só têm DVD contra José Sócrates

têm. Porque não dar apenas a notícia [factual] dizendo “Ingleses têm DVD contra José Sócrates” (sem o só)?

Os exemplos da tendência editorial do DN são claros há bastante tempo. Este é apenas mais um exemplo.

Só mais uma dica… A namorada de José Sócrates (dizem as más línguas), Fernanda Câncio, escreve regularmente no DN, sempre de forma muito independente e crítica ao seu mais-que-tudo! Veja-se, por exemplo, o seu último artigo de opinião (sexta-feira). Os temas abordados são regulares à sexta…

Desculpem-me a ironia associada a alguma vulgaridade. É que nem sempre consigo filtrar eficazmente as influências do ambiente!


O relatório da OCDE e a verdade

Janeiro 28, 2009

Já estou tão farto destas mentiras e da constante tentativa de manipulação da verdade que me inibo de comentar muitas coisas. Desta vez não me inibi. Vale a pena, pois nem sempre as ilustrações da estratégia utilizada pela máquina de propaganda são tão claras e evidentes.

Há dois dias que se percebeu que o dito relatório da OCDE não é da OCDE. O assunto foi hoje discutido no parlamento. Claro que, agora, toda a gente diz que nunca foi dito que o relatório era da OCDE.

Qual foi a imagem que se procurou passar? Qual foi a imagem que passou para a esmagadora maioria da população? Terá isto alguma coisa a ver com querer passar a ideia de que se é engenheiro sem ser? Terá isto alguma coisa a ver com entregar Magalhães e, de seguida, pedi-los de volta? Terá isto alguma coisa a ver com afirmar que o Magalhães é um computador totalmente português?

Felizmente há blogs. É que até nos desmentidos há mentira, quando se diz que nunca se afirmou que o relatório era da OCDE. Veja-se este post no Arrastão.

Para os crédulos que insistem, nesta caixa de comentários e nos blogues do costume, que o Governo nunca disse que o estudo era da OCDE, informação que chegou a constar no próprio site do PS (!), e que acham que as notícias acontecem por acaso, aqui segue o press release que o governo enviou para as redacções referindo o “estudo da OCDE” e a “avaliação feita pela OCDE”. Uma “conveniente” errata foi enviada, pelas 22 horas, onde deve ter encontrado dezenas de jornalistas que iriam cobrir um evento meia dúzia de horas depois… Os jornalistas podem não ter feito o trabalho todo, e é fácil acusar a imprensa pelo “engano”, mas as notícias não caem do céu aos trambolhões. Como resume o Vasco Barreto, este caso é um case study dos processos de propaganda do governo. Neste caso, de desinformação.

(Actualização)

Notícia do Público – felizmente ainda há alguma liberdade na imprensa para nos deixar respirar um pouco no meio de todo este clima bafiento.


Mais 40 milhões de desempregados

Janeiro 28, 2009

As notícias sobre o desemprego não param. Diz o público (os destaques são meus):

Quarenta milhões de pessoas podem engrossar este ano o número de desempregados no mundo, se a situação económica se continuar a deteriorar, prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT), num relatório hoje divulgado.

No quadro mais grave, o número de desempregados subiria para 230 milhões

(…)

O agravamento da situação económica empurraria também 200 milhões de trabalhadores, principalmente das economias em desenvolvimento, para situações de pobreza extrema.

(…)

A mensagem da OIT é realista, não alarmista. Estamos numa crise global de emprego. Muitos governos estão conscientes e a actuar, mas é necessária uma mais decisiva e coordenada acção internacional para impedir uma recessão social global”, disse o director-geral da OIT, Juan Somavia.

Quarenta milhões é o equivalente a quatro vezes a população de portugal. Isto daria um total de vinte e três vezes a população portuguesa no desemprego (e não estou a falar só da população activa, pois esses são bem menos).

Dizem eles que “Muitos governos estão conscientes e a actuar”. Mas o que é isto? Conversa de call-center? Vamos continuar alegremente a deixar estes desgovernantes levarem o mundo para o precipício? Será que estes senhores não percebem que estão a tentar apertar um parafuso sem rosca?


72 mil despedimentos num dia

Janeiro 27, 2009

Algumas notícias falam em 70 mil novos desempregados em apenas um dia. Outras falam em 72 mil. Até podiam ser 50 mil. Fica o exemplo da TSF:

Uma série de grandes empresas de todo o mundo anunciaram, esta segunda-feira, novas medidas de suspensão de postos de trabalho, para enfrentar um ano 2009 que se anuncia particularmente difícil. No total, são esperados mais de 70 mil despedimentos.

Fosse isto um caso (entenda-se um dia) isolado e, apesar de preocupante, não seria grave. Mas há vários meses que assistimos a este tipo de notícias. As falências e os despedimentos deixaram de ser excepção. São a regra.

Se isto não é a completa e absoluta falência do paradigma em que as nossas sociedades assentam, então, não sei o que será. Pouco me importa se lhe chamam capitalismo, neoliberalismo, batatas ou cebolas. Importa-me que é preciso mudar. E não basta mudar algo para que tudo fique na mesma (não estou a repetir nenhuma cassete… esta frase foi bem pensada antes de ser escrita.).

Costumo ter muitas dúvidas. Desta vez tenho muito poucas. O caminho está na coerência e na verdade. Estou farto de um mundo de mentira e de ilusão. Felizmente vejo algumas luzes. Que elas não se apaguem…


Children see. Children do.

Janeiro 26, 2009

Todos somos modelos, mesmo se e quando não queremos. Para repensar comportamentos (pais, professores e cidadãos).


Impasses lógicos

Janeiro 26, 2009

Quando passo pelo Canhoto fico sempre com o meu incoerómetro a tocar. E penso, valerá a pena dar resposta a “coisas” destas. A maior parte das vezes decido que não. Aqui e ali, valha-nos um estado de espírito mais tolerante, lá decido responder. Foi isso que aconteceu desta vez.

Rui Pena Pires escreve:

1. Segundo Mário Nogueira, a oposição ao modelo de avaliação dos professores não é mera revindicação corporativa mas a luta por uma melhor escola pública.

2. Segundo Mário Nogueira, os deputados do PS que são professores deviam colocar a sua identidade profissional acima da sua pertença partidária e votar contra o modelo de avaliação dos professores definido pelo Governo.

3. Segundo a Constituição, os deputados representam a Nação, não regiões ou profissões.

Alguém me explica como conciliar logicamente as três afirmações anteriores?

Para os primeiros 3 pontos a resposta é tão óbvia que nem me dou ao trabalho. Sobre a pergunta final apetece-me perguntar, logicamente também e em tom de resposta:

  1. Porque não são admitios comentários no Canhoto?
  2. Qual é o interesse de pedir explicações quando não há meio de fazer chegar a resposta?
  3. Como combater a surdez de quem é surdo por opção?

Que sou eu?

Janeiro 26, 2009

Diz José Saramago:

As perguntas: “Quem és?” ou “”Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.

Eu, por mim, não tenho “a resposta” mas vou tendo “respostas” e alguns fragmentos de dúvidas… Certamente mais que uma página em branco. Não é este o tipo de perguntas de que fujo. É das que procuro. As perguntas e, depois, as respostas.

E tu, queres partilhar?


Yo Comments Are Whack!

Janeiro 22, 2009

Felizmente não tenho razão de queixa acerca dos comentários neste blog. Nem da forma, nem do conteúdo. Mas em muitos sítios da Internet… É o que se vê!

As “irmãs salada” (tradução minha) não gostaram dos comentários que alguns deixam no canal delas do YouTube e decidiram fazer este vídeo.

Tem o seu quê de pedagógico e ajuda à netiqueta (nome de que não gosto – ficaria melhor regras de boa convivência na net)…