Modelo de avaliação de professores – ideias soltas

Deixo algumas ideias para um modelo alternativo de avaliação de professores.

Penso que um modelo exequível e (mais) justo para avaliação de professores deve ter em conta o seguinte:

  • Não interferir, ou minimizar as interferências, com a actividade do professor. Isto é, o professor deve desempenhar a actividade docente como sempre o fez e da forma que considera ser mais adequada, no respeito pela sua liberdade e autonomia pedagógica.
  • Não condicionar nem procurar uniformizar práticas, permitindo a diversidade de abordagens científicas e pedagógicas.
  • A avaliação não deve ser penalizadora. Deve ter um papel de incentivo à excelência, sem a impor.
  • Para além do seu trabalho habitual, e para fins de avaliação, ao professor deve ser exigido, no máximo, um relatório crítico (talvez o modelo anterior possa ser adaptado). Este relatório também não deve ser condicionado nem uniformizado.
  • Da avaliação de cada docente deve resultar, sem prejuízo de eventuais comentários e descrições holísticas, uma classificação com apenas três níveis (por exemplo: a melhorar, regular/bom, excelente). Nota: a descrição de cada uma das classificações é pouco relevante. Poderia até ser 1, 2 e 3.
  • Um docente avaliado com regular/bom não é afectado na sua carreira.
  • Para um docente avaliado com excelente deve ser previsto um mecanismo de prémio? Eventualmente uma aceleração da progressão na carreira.
  • Um docente avaliado com “a melhorar” deve ser objecto de um plano de análise/formação/melhoria elaborado com a sua colaboração. Ao fim de ?três? anos com esta avaliação, deve ser questionada a adequação deste docente na carreira de professor. Não deve ser colocada a hipótese/ameaça de desemprego, mas poderia ser prevista a possibilidade de requalificação para outra área profissional.
  • Em qualquer dos casos, o docente terá sempre intervenção e participação activa na sua auto-avaliação. Esta deve ser ponderada por uma equipa eleita democraticamente, dentro da escola, portanto legitimada e aceite pelos avaliados. A validação deve ser feita por uma equipa externa.

Conto organizar e explorar melhor estas ideias. Para já, fica o rascunho!

(Actualização)

Como já há vários contributos para a dicussão de um modelo de avaliação alternativo, aqui ficam as propostas de que tomei conhecimento:

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18 respostas a Modelo de avaliação de professores – ideias soltas

  1. António Daniel diz:

    Creio que, globalmente, tem referências positivas. Posso acrescentar que esse relatório crítico deveria possuir uma vertente científica e pedagógica: Como se leccionou algum tema? Como foram processados os trabalhos de grupo? Como se exerceu a avaliação? Mas tinha de ser uma coisa séria. No que respeita às aulas assistidas – que pessoalamente não concordo por várias razões – deviam ser efectuadas em casos onde as situações as exigissem (sabemos que há colegas que, por personalidade ou por outro motivo, têm difculdades na gestão das turmas). Creio tembém que poderia haver uma acentuação na formação científica e na execução de trabalhos dessa índole, desde que se promovessem formas de aplicação dos conhecimentos científicos adquiridos aos contextos dos alunos. Por exemplo, um docente desenolveria uma investigação sobre um tema (no âmbito de uma acção) e posteriormente pensava em formas de aplicar e situações de aula. Muitas mais ideias poderão surgir. Para já são estas.
    Os problema que mais me afligem são: o que queremos da escola? O que é um bom professor? Ora, recuso-me a ser uma espécie de ama. Não sou amigo dos meus alunos nem sou iguais a eles, sou simplesmente professor: transmissor de conhecimentos, simplificador dos problemas, gestor de aulas, e promotor do desenolvimento pessoal dos alunos – nas suas mais variadas vertentes. Por tudo isto, considero as propostas apontadas as mais correctas, não decortinando outras.
    PS: Contudo, não podemos esquecer a especificidade de cada nível de ensino.

  2. João Sá diz:

    António, sublinho a frase: “tinha de ser uma coisa séria”. E acrescento, terá de ser séria. A avaliação, seja ela qual for, não pode deixar de ser séria.

    Para a questão “o que queremos da escola?”, há muita literatura sobre o assunto, sendo que a função da escola, embora de forma redutora, pode ser analisada em duas perspectivas: para formar cidadãos ou para formar profissionais.
    Eu defendo o equilíbrio entre as duas, porque elas se complementam!

    Para a questão “o que é um bom professor?”, já me parece mais difícil encontrar uma resposta. Diria, mesmo, impossível se procurarmos consenso nessa resposta.

  3. Sónia Duarte diz:

    Na generalidade, revejo-me nestas linhas com que se pretendem desenhar aqui os contornos de um modelo de avaliação de professores. Sinto, no entanto, necessidade de me demarcar da proposta de três classificações: para mim, bastariam duas: “apto” e “não apto”. Compreendo que o objectivo de um modelo de avaliação sirva para distinguir pela negativa quem não revela competência para ser professor, mas não compreendo e sinto até certa repulsa pela distinção pela positiva. Não quero uma escola com prémios para os melhores professores, como não quero uma escola com quadros de excelência. Desde que o descobri, que alimento o conceito de “desenvolvimento proximal” de Vigotski e a forma como ele o perspectiva de maneira dialéctica, pois acredito que o horizonte de excelência de um indivíduo é dialéctico e cresce com ele. Como tal, de nada lhe vale um rótulo de excelência num nível de desenvolvimento que a sua natureza o estimula a ultrapassar. Avaliaria os meus alunos da mesma forma, se o sistema de mercado competitivo em que vivemos não tivesse formatado o sistema de ensino para o sevir na tarefa de seriar os melhores profissionais.

  4. João Sá diz:

    Sónia, compreendo a tua posição sobre a minha proposta para três níveis de classificação. Talvez se deva ao meu texto não ser suficientemente explícito em alguns aspectos. Vou tentar clarificar.

    Penso que a esmagadora maioria dos professores se encontrarão no nível intermédio.

    Há, como todos sabemos, alguns maus professores. Felizmente são poucos. Não queria cair no cliché do “em todo as profissões há bons e maus”, mas não encontro outra forma melhor de o dizer. Para estes é necessário dar hipótese de melhoria (aplica-se lindamente a noção de “desenvolvimento proximal”).

    Quanto aos “excelentes” de que discordas, encara-o nesta perspectiva: há pessoas que em determinados momentos, por uma razão ou por outra, se excedem a elas próprias. Algumas vezes sacrificam a vida pessoal e familiar e, outras, até a saúde. Será assim tão mau dar um pequeno prémio a estas pessoas que, no campo profissional e em determinado momento, servem de referência e de incentivo aos restantes?

    Claro que a noção que referes, sobre a zona de desenvolvimento próximo, ou proximal, é importante e deve ter tida em conta. Encaro-me, e penso que toda a gente deve ser encarada como um ser em permanente construção, o que não invalida que haja uma constatação da situação de cada indivíduo em determinado momento. Temos de evitar o perigo de encarar as situações na lógica do “bom selvagem”.
    Eu sei que Rousseau e Vygotsky não têm nada a ver mas, com jeito, há quem lhes consiga achar semelhanças!

  5. [...] Modelo de avaliação de professores – ideias soltas   [...]

  6. brit com diz:

    Uma sugestão para debate que coloquei no meu blog há uns tempos atrás:

    Por uma avaliação de desempenho justa e coerente

    Tenho andado aqui às voltas na minha cabecinha e acabo por chegar sempre à mesma conclusão: é impossível proceder-se a uma avaliação justa e coerente do trabalho de um docente sem o acompanhar no seu quotidiano profissional.
    É óbvio que a essa conclusão já chegaram todos menos os treinadores de bancada ignorantes e “parados”.
    Mas o que implica isso relativamente a uma modelo de avaliação justo e coerente? Implica que os avaliadores acompanhem os docentes no seu quotidiano, como é óbvio. O que também é óbvio para (quase) todos é que, com este modelo proposto no Decreto Regulamentar nº. 2/2008, tal acompanhamento é humanamente inexequível e, consequentemente, injusto, até porque não prevê uma avaliação das competências científicas. Então como se obtem o reconhecimento do mérito? Trata-se, portanto, de um modelo inexequível e incompleto.
    Assim sendo, penso que uma avaliação de desempenho poderia passar pelo seguinte:

    - uma avaliação de 5 em 5 anos (uma avaliação por escalão), realizada por uma equipa externa às escolas
    - essa equipa deverá ser, obrigatoriamente, constituída por parte científica e pedagógica, entre outras
    - essa equipa deverá permanecer na escola, a tempo inteiro, durante todo um ano lectivo, acompanhando TODOS os trabalhos realizados, nomeadamente actividades lectivas, conselhos de turma, outras reuniões, cargos, etc
    - o acesso à sala de aula deverá ser livre ao avaliador científico e ao avaliador pedagógico, sem marcação de calendário, devendo o avaliador científico deter SEMPRE superior habilitação científica do que o avaliado e SEMPRE na área científica do avaliado e devendo o avaliador pedagógico ter SEMPRE habilitação reconhecida na área (o que para mim será apenas aceitável se se tratar de um doutoramento).

    São alguns pontos que considero essenciais a uma avaliação justa e coerente e deixo-os aqui para discussão. Um modelo dispendioso para o ministério? Sem dúvida! Mais justo para os docentes? Mas sem dúvida alguma…

  7. [...] Para a construção de um modelo de avaliação de desempenho Modelo de avaliação de professores – ideias soltas [...]

  8. António Daniel diz:

    Continuo a considerar inúteis as assistências às aulas. Há assim uma tão grande desconfiança? Noutros blogs, onde se discute esta temática, refere-se sempre as aulas assistidas como uma obrigatoriedade. Parece-me incorrecto, a não ser que exista mesmo uma desconfiança. Creio que não há razões para esta desconfiança. É óbvio que, por princípio, qualquer aula é ou deve ser pública, mas daí a tornar quase obrigatório o olho de lince do avaliador… Continuo a dizer que o espaço de aula está para a turma como um balneário está para uma equipa de futebol. É lá que se exerce sentimentos, angústias, vivências que são importantes para o cresciemento de todos. Ora, a promoção de aulas assistidas iria criar um clima artificial. Sabemos como são as coisas. Aqui há tempos ouvia um comentária de uma estudante em que se referia à ansiedade que tinha pela chegada de aulas assistidas. Para ela seriam momentos de vingança. É óbvio que quem diz isto já não está propriamente dito numa situação muito equilibrada, mas, quer queiramos quer não poderia afectar o exercício de poder presente dentro da sala. Poder-me-ão dizer que não há exercício de poder ou não deve haver. Deixemo-nos de ingenuidades…qualquer grupo possui essa dimensão.

  9. João Sá diz:

    “é impossível proceder-se a uma avaliação justa e coerente do trabalho de um docente sem o acompanhar no seu quotidiano profissional.”

    Não concordo totalmente. É possível aferir resultados sem acompanhar o processo. Não se pode é reduzir uma avaliação a este factor. E, atenção, resultados não são apenas números.

    “tal acompanhamento é humanamente inexequível ”
    Sem dúvida que é inexequível. E geraria outro tipo de injustiças. É uma pescadinha de rabo-na-boca.

    “avaliação de 5 em 5 anos”
    É muito tempo. Há professores que estão numa escola durante apenas 1 ano. Para não falar naqueles que são colocados em horários temporários.
    A avaliação deve ser feita sempre numa perspectiva contínua e formativa. Isto não impede que tenha consequências ao fim de determinado período.

    O resto dos pontos tornam-na impraticável. Temos de discutir uma avaliação realista, mesmo que não seja perfeita.

    O bom é inimigo do óptimo!

  10. João Sá diz:

    “Continuo a considerar inúteis as assistências às aulas. ”

    Não diria inúteis, mas concordo que nas discussões a que assistimos parecem uma obsessão. Podem ser um auxiliar na avaliação, mas não são um factor determinante.

    Todos sabemos como decorrem algumas aulas durante os estágios pedagógicos. São um espectáculo montado. Não excluo que fornecem algumas indicações importantes sobre o desempenho do professor, mas de forma alguma são significativas no que respeita ao desempenho global do professor.

    Acredito que seriam os “piores professores” a montar o “melhor espectáculo” nas aulas assistidas.

    Por mim, nunca tive nenhum tipo de problema com aulas assistidas. Só acho que não se deve tornar isso no centro da discussão. É pouco relevante.

  11. brit com diz:

    João Sá, o resto dos pontos só é impracticável, se o ministério assim o entender. Para se avaliar é preciso conhecer o contexto. Eu pessoalmente, a ser avaliada, gostaria de o ser nesse modelo. Não me venham com relatórios para aqui e para ali e uma ou duas aulas assistidas. Por mim podem vir às minhas aulas quando quiserem e, de preferência, sem aviso. Quem me quiser avaliar, que acompanhe o meu trabalho de um ano lectivo de raíz e de perto e, acima de tudo, em contexto.

  12. João Sá diz:

    “Por mim podem vir às minhas aulas quando quiserem e, de preferência, sem aviso.”
    No que toca a aulas assistidas estou de acordo. A haver aulas assistidas, estas devem ser a qualquer momento. Sem artifícios.

    “Quem me quiser avaliar, que acompanhe o meu trabalho de um ano lectivo de raíz e de perto e, acima de tudo, em contexto.”
    Concordo. Acho é que esse acompanhamento não tem de ser obsessivo. Qualquer CE atento acompanha o trabalho dos professores… Há imensos sinais!

  13. Sónia Duarte diz:

    João,

    Acho que querias dizer “o óptimo é inimigo do bom”. Eu, fiel à minha natureza utópica, prefiro a tua versão (“o bom é inimigo do óptimo”), pelo menos como referente. Como diz o Eduardo Galeano (por outras e melhores palavras), na utopia o mais importante é o horizonte e o percurso que fazemos até ele. Chegar não é o objectivo, pois, por muito que caminhemos, nunca chegamos ao horizonte – e ainda bem! Eu aceito e defendo uma boa avaliação, mas não há nada de mal em idealizar a avaliação perfeita.

  14. João Sá diz:

    Tens razão Sónia.
    No contexto em que escrevi, a ideia seria “o óptimo é inimigo do bom”, embora partilhe a tua preferência.

  15. Carlos Olim diz:

    Belo e lúcido ensaio. No global e em cada detalhe. Só falta mesmo apontar soluções. Sem isso, nem mesmo o melhor diagnóstico pode salvar o doente.
    Penso que a solução para sair deste embróglio passa por fazer a avaliação, mas fazê-la de uma forma simples e eficaz, assente nas estruturas e nas práticas já instituídas em cada escola, nos aspectos podem ser imputados e exigidos aos professores (sem demagogia) e em regras e procedimentos fáceis de entender, aceitar e aplicar.
    Sempre hove uma avaliação informal inter-pares nas escolas, com base em elementos mais ou menos consensuais do trabalho realizado e/ou nos seus resultados. Sempre foram reconhecidos e apontados pelos pares os melhores e, mais facilmente ainda, os piores professores, ou as melhores/piores práticas. Sempre foi feita, nas escolas, uma comparação crítica entre os resultados internos e os externos (em exames) obtidos pelos alunos de cada professor.
    Nunca houve foi meios para essa avaliação ser formalizada, generalizada e consequente.
    Creio ser esse o caminho. E nem me parece particularmente difícil de trilhar. As soluções estão em qualquer bom manual de aprendizagem organizacional.
    Mais difícil, bem mais, é a correcção dos erros e condicionalismos imputáveis à tutela e seus mentores, supostamente especialistas naquilo que nunca sequer vivenciaram ou entenderam. Há burrices tão instaladas que, temo, já não terão capacidade para aprender nada.

  16. brit com diz:

    João, sabemos bem que há CEs e CEs… nem vale a pena ir por aí. Por acaso não tenho razão de queixa do meu, mas tal situação pode mudar no futuro. Não me apetece andar ao sabor da maré de pequenos pseudo-ditadores… basta dar uma olhadela às diferentes grelhas de avaliação, para se ter uma ideia dos diferentes CEs que há pelo país fora… basta atentar no novo modelo de gestão…

  17. João Sá diz:

    “sabemos bem que há CEs e CEs…”
    Claro. E é desejável que assim seja, ou queremos todas as escolas dentro do “pensamento único”?

    “maré de pequenos pseudo-ditadores…”
    Esse é um problema que é preciso evitar.

    “basta atentar no novo modelo de gestão…”
    Para mim, o novo modelo de gestão é o pior no meio disto tudo. Sou adepto de uma eleição democrática dos CEs. De outra forma as decisões não são legítimas.

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